Anotações sobre as cores do mar de Ondina

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Foto: Abril de 2020, Ondina, Acervo Pessoal

Não estou aborrecido com ninguém. Mas sozinho pareço ver os amigos de modo mais nítido e belo do que quando estou com eles; e quando amei e senti mais a música, vivia longe dela. Parece que necessito de perspectivas distantes para pensar bem das coisas” – Nietzsche, Aurora, §485.

Quando comecei a estudar Nietzsche, em 2009, uma pessoa se surpreendeu: ‘mas você anda lendo tanto Nietzsche, e não comenta nada, acho que não está te transformando como me transformou’. Hoje é engraçado, mas na época me angustiei. Afinal, quanto mais eu lia Nietzsche, menos eu queria falar sobre Nietzsche. Ficava assombrada com a precisão com que Nietzsche descrevia certos comportamentos humanos. Me assombrava mais ainda as propostas de Nietzsche para a transvaloração dos valores e para a superação definitiva do demasiado humano.

Uma dessas propostas, talvez, fosse a mais assustadora. Eu escutava Nietzsche dizer: “primeiro, fique sozinha”. Eu me arrepiava. Depois, comecei a entender que essa solidão que Nietzsche me propunha era mais tomar distância, que me isolar. Há alguns anos venho entendendo que, em muitas ocasiões, tomar distância exige algum grau de isolamento. E, curiosamente, o isolamento social necessário nesses quase dois anos de pandemia de coronavírus foram decisivos para minha compreensão da solidão e da propedeutica da distância.

É também intrigante, a meu ver, a curiosidade que meu comportamento gera em algumas pessoas. Pessoas da minha família, inclusive. Volta e meia mamãe me liga dizendo “fala a verdade, Isadora, eu sei que você está namorando, você está muito sumida”. Mesmo que eu esteja há dez anos sem namorar ninguém de modo socialmente relevante, minha mãe sempre acha que quando eu me isolo mais, é porque estou namorando. Essa curiosidade, leio em certas atitudades, também é despertada em outras pessoas que não minha mãe.

Isso às vezes me irrita, porque eu detesto essa sensação de que tentam me controlar. Sim, porque às vezes perguntar insistentemente sobre uma presença é tentativa de controle. Pessoas amigas querem saber se estou bem, se preciso de alguma coisa. Não sou tão ingênua mais, e sei que frequência afetiva importa em todas as relações apesar disso Me llaman el desaparecido pero esa no es la verdad.

De qualquer modo, finalizar o pós-doutorado tem sido um exercício de tomar distância, a fim de construir uma perspectiva própria sobre certos temas. Aprendi com Nietzsche a construir perspectiva tomando distância. Pode ser que isso seja apenas um vício ocidental. Pode ser. Nietzsche, entretanto, foi o ocidental que mais atingiu as margens da vida ocidental. Continuo com ele então, até que eu possa pular o muro, ou encontre uma porta que seja aberta com minhas chaves.

Diante dessa mistura de curiosidade e controle, fiz algumas anotações relendo Nietzsche:

  1. A solidão é um fruto saboroso de desenlaces de coerções sociais
  2. A solidão é um dos métodos de afirmação da vida
  3. A solidão é tomar distância para construir perspectiva própria sobre a vida, e não implica sofrimento
  4. A solidão me permite apaziguar os efeitos de rebanho do gregarismo social
  5. A solidão não descontroi a moral, mas deixa em suspenso alguns de seus efeitos
  6. A solidão permite um assenhorar-se das virtudes
  7. “O deserto me é necessário, para ficar de novo bom” – Aurora §491
  8. A solidão é restauradora, e aí então estou novamente apta a viver em sociedade sem tanto adoecimento
  9. Os momentos de solidão tornam os amigos e familiares ainda mais belos
  10. Os procedimentos genealógicos demandam períodos de solidão
  11. Quando estou sozinha, tenho mais intimidade com o mar

minha mente já vestiu uma cauda de sereia

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Fonte da Imagem

minha mente me escapa. justamente. três minutos manejando o que precisa ser feito, e ela já quer saber qual foi o resultado da pec dos precatórios. minha mente quer fugir. um minuto contente de seguir protocolos, e minha mente já se dirige ao portão de si mesma, meus olhos, porque é urgente avisar para dulce que os morangos não chegaram frescos. realmente. daí, enquanto espero a resposta de dulce, minha mente senta no banco da face de meu nariz. minha mente quer sair. minha mente fica ali sentada no meu nariz, balançando as perninhas enquanto escuta o áudio de osvaldo. grito minha mente: volte aqui, fujona. dois minutos obedecendo o plannerjamento e minha mente sai correndo. minha mente coloca um biquini asa delta e sai voando até a piscina de minha boca. minha mente quer sumir. minha mente aprendeu a nadar faz pouco tempo, e não pode esperar até descobrir como tocar o chão. minha mente quer saber do caminho só de ida. minha mente desobedece, rebelde. eu grito volte, mas minha mente já vestiu uma cauda de sereia e foi trabalhar nos aquários de massachussetts. minha mente não tem jeito. minha mente nada fundo, e eu quero que ela pouse. minha mente fala muito, e eu quero que ela permaneça. minha mente sou eu mesma, e algo alheio a meu desejo. verdadeiramente. já sei o que direi quando minha mente voltar do passeio. direi: mente, você é corpo. minha mente me surpreende, e voltou do mergulho com marcas de fita. minha mente é bem bonita até quando propõe rimas fáceis. olhei minha mente de frente e disse: volte aqui, querida, não é por nada não, mas você é corpo, se comporte sem transbordar sequestros de tempo. minha mente, atrevida, me respondeu: deixe de caretisse, querida, e vá ler Galeano. minha mente já sabia de tudo. minha mente, bem real, sabe que tudo é festa.

Ato II, No deserto, canto V [trecho de Misantrópolis]

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Foto: Champ de Mars, Paris [Acervo Pessoal]

Procurei pés para sanar o corte na espalda distante e n’Ele passei a temer palavra mágica de vida e de sangue. Tomo de pesar o amuleto, e quando do sangue, sondo passo longínquo para novo patoá. E d’Ele cresço distante: perco a letra, me entrego a Yemaya.

Sina era minha, e se fotografou indiferença. E, no entanto, dele sondo estrada: destino anunciado em leito estrangeiro. Sondo caminho em sua triste tez distante. Que pensa Ela que não sabe que pensa?

Cresce, toma ar, busca em si o crescente de nossa distância:

tu, que não tens opção de não me olhar,

tu, que não vives a impressão de me ver,

tu, que não me sabes e por isso me deixas.

Olha-me a morbidez evolutiva, e cansa-me a seita que nos divide cadeia e membros: tu, que nem dormes de tão perfeita, cansa-me o preceito que te toma o lastro. Ah, minha irmã, o que te comes a calma e te tomas o filho? Queres o filho, ou apenas te sabes mais segura com o calor que dás ao que era antes de ti prisão?

[…]

Outra carta pra Marília Mendonça

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Marília, querida:

Eu disse que provavelmente te escreveria de novo. Pra o afeto não gangrenar, como dizia um velho amigo que já se foi. Mas também porque estou tentando entender a razão de sentir a morte de alguém que não conhecia, que não era da minha família, que sei lá.

Certamente a psicanálise deve ter alguma resposta pra isso. Aquelas histórias de psicologia das massas, que Freud publicou em 1921. Também é certo que eu tenho tendência a costurar histórias dos outros nas minhas histórias, tentando fazer com que minha vida pareça menos insignificante. Ilusão é tão importante pra vida quanto aquilo que é verdadeiro, falava Nietzsche.

Só que sua morte não é bem ilusão. É o ponto zero da realidade. É o verdadeiro indiscutível.

Hoje estava arrumando a cozinha e te escutando. Volta e meia eu fazia isso. Mas resolvi encarar sua voz mais de perto, já que não se ouve outra coisa aqui na vizinhança e isso já estava me assombrando.

Fiquei presa na tentativa de explicar a sensação que os graves de sua voz me causavam – como se abrisse uma ferida e costurasse melhor os pontos. Viajando… Aí lembrei que amanhã tenho análise,

Gata, como vou falar pra psicóloga, quando ela disser “e aí, Isadora?”, que “estou triste porque a Marília Mendonça morreu”?! Porque não é só dizer. Vou ter que explicar. Já pensou?

Hoje entre secar um prato e outro, estava ensaiando alguma coisa. Pensei: vou dizer que estou triste porque na verdade tenho outros lutos não formulados e sua morte está me ajudando a sofrer por outras mortes pelas quais não sofri direito. Daí em algum momento esqueço mesmo do que estou falando e então já não importará o nome que estou dando pra o objeto? Acho que é bem assim mesmo.

Pensei: posso também dizer que é porque o avião caiu na cidade de minha vózinho que já se foi, e por isso estou tão triste, porque sua morte me lembra a morte dela. Será que cola, Marília?

Pensei: tem isso também. Que a psicanalista vai me perguntar do seu nome, quais associações faço com ele – mar, ilha, men, onça, maria, ia, ia, e se foi? Pode ser. Não sei.

Pensei: vou dizer que estou sofrendo porque olhava pra você e me via representada, e que parece que a única imagem na mídia que parecia um espelho menos distorcido, morreu tragicamente. Apesar de ser verdade, isso vai doer de explicar, melhor não, né?

Pensei: vou racionalizar, falar de feminismo, de métrica trovadoresca portuguesa, de criação de imagens pela linguagem, de fractais? Até poderia, mas minha psicanalista é muito esperta e vai me desmascarar no ato.

Não tem jeito mesmo, né? Talvez seja triste e só isso mesmo.

Talvez seja triste mesmo, e só.

Aprendi na análise que o único sentido da vida é dar sentido para a vida. Que dar sentido à vida é juntar fatos desconexos e criar um enredo conectando esse monte de incompreensão.

Vou continuar tentanto, prometo.

Juritis e borboletas,

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Uma carta para Marília Mendonça

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Marília:

Aprendi com um velho amigo que já se foi sobre o poder das cartas que nunca poderão ser entregues a seus destinatários. Ele dizia que é importante escrever cartas que nunca serão recebidas, para que o afeto não coagule no lugar errado e dê complicações futuras. Então vou seguir o conselho dele. Vou te escrever essa carta porque tenho medo de um dia acordar e esse sentimento ter gangrenado em veia inesperada.

Ontem estava no Uber voltando para casa, e vi a notícia da queda do avião. Dizia que um avião que levava você e mais quatro pessoas tinha caído, mas que estava tudo bem. eu até fui a sua página no Instagram checar se estava tudo bem, e não parecia haver nenhum indício de que alguma coisa estava errada. “Depois vejo no jornal da noite”, pensei.

Só que em mais uma ou duas horas, a notícia de sua morte se confirmou. Dizia que você e mais quatro pessoas estavam mortas, que o bimotor havia caído em uma cachoeira, na cidade de Caratinga, em Minas Gerais. Caratinga é a cidade onde mora a maior parte da família de meu pai, onde morou minha Vó Sonia e onde tenho memórias enraizadas de uma infância brincando na roça – pescando lambari, entrando em túnel de palha de feijão, pegando bicho no pé e correndo muito com minhas primas e primos, inclusive com os primos de primos de primos. Você sabe como é.

Eu não conseguia acreditar, e ao mesmo tempo me lembrava da morte de minha avó. Eu ainda tinha comprommisso pra cumprir no início da noite, e tentei me desligar da notícia. Sou boa nisso de fingir que algo terrível não aconteceu, apenas pra fazer o que precisa ser feito.

Só que aí o compromisso acabou e eu tive que lidar com aquela avalanche de imagens suas, de seu filhinho, de sua família. Os vizinhos todos escutavam suas músicas. Os canais de televisão só falavam disso. Acho que fui dormir por volta de 2h da madrugada, vendo o documentárioa Marília em Todos os Cantos e depois um pedaço de uma entrevista sua.

Acordei pouco tempo depois com uma tempestade, que já dizem ter sido única aqui em Salvador. Os trovões eram tão fortes, que quando vinham parecia até mudar o ritmo da batida do coração. Aqueles estrondos eram seguidos de clarões e raios onipresentes, que inundavam a casa toda. Os gatos curiosamente vieram pra sala, e ficaram assistindo tudo no sofá. Eu não conseguia me mover na cama, de tão assustada. Ao mesmo tempo parecia tocar sua voz dentro da minha cabeça, igual quando você lançava uma música nova e eu ouvia mil vezes e depois parecia que a música tocava sozinha no meu jukebox mental.

Que tristeza, Marília…A morte, em tese, é tão corriqueira, mas a sua parece fugir a qualquer explicação.

Eu gostava de te ver cantar. Gostava de ver seu corpo sendo tão amado. Eu me sentia representada. Era como se fosse estivesse me dizendo: vai lá, o amor também é seu. Eu acreditei. Nunca tinha visto uma mulher brasileira e gorda ser tão amada e ser tão bem sucedida quanto você foi. Mas era algo além que me capturava.

Você parecia estar sempre rindo dessa bobagem de ser “celebridade”. Parecia sempre dizer “eu sou isso aqui, não preciso ser de outro jeito”. Só as Deusas sabem o quanto devia ser difícil pra você. Mas pra gente, que te via mais de longe, era incrível ver você dizendo, nas ações e nas palavras, que não ia se adaptar.

Seu bom-humor e leveza vão me inspirar pra sempre.

Talvez eu te escreva mais vezes, tenho mais a te dizer. Quero te contar das vezes que eu não sabia o que fazer com algum encosto que arrumava, e de repente tomar banho ouvindo suas músicas me dava solução repentina. E também de quando eu ia para a praia com minha JBL falsificada e e colocava suas músicas bem alto. E cantava todas. E de repente fazia váries amigues na praia porque a sua música provocava essa sensação de que o que era ruim também podia ser divertido, ao mesmo tempo.

É. Acho que vou continuar te escrevendo.

O avião caiu dentro de uma cachoeira. Eu prefiro pensar que você não morreu.

Eu prefiro dizer que você se encantou.

Cheiro,

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Lírios e Violetas

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Sim, eu sei. Também me sinto cansada. Naqueles dias de tiroteio na praça, eu já estava cansada. Sair no meio da multidão, porém, porque você havia esquecido na mesa seu lenço preferido – fazia sentido e parecia ser o mais importante. Do mesmo jeito, sei que você está cansada agora, fugindo da aleatoriedade da desgraça humana.

Parecíamos duas velhas. Você, com sua mania de lançar maldição para quem não parava o carro para que pudéssemos atravessar na faixa. Eu, com minha mania de puxar a perna quando doía muito.

Parecíamos duas adolescentes. Você, com uma coleção infindável de capa de celular com bichinhos. Eu, com uma coleção infindável de adesivos de coruja.

As Yabás ouviam nossas gargalhadas e corriam pra perto. Nosso riso frouxo parecia ser a porta aberta para fazer morada no sol. A gente falava sobre os livros, sobre o trabalho, sobre as pessoas que eu não conhecia mas que você fazia questão que eu soubesse já como eram maldosas. A gente sonhava um outro mundo, lembra? Sim, também me dói lembrar.

[…]

Quando você me expulsou de sua vida, eu comecei a recolher os retalhos que tinha guardado na caixa de madeira. Não eram suficientes para uma colcha que cobrisse a falta que suas futilidades me faziam, mas talvez fossem o bastante para remendar minha própria pele, e assim eu poderia atravessar até a outra ponta da cidade sem que as pessoas vissem que sua partida tinha me despido de qualquer possibilidade de futuro.

Você gostava de lírios, eu preferia violetas. Eu não queria que você sofresse, você queria que a vida andasse.

Sem se dar conta de que eu havia perdido as chaves de casa, você se mudou. Depois de um tempo mandei fazer outras chaves e outra casa, e está tudo bem agora, que nem dois e dois são cinco.

Aí, enquanto olho pra o mar, leio a profundeza desse corte, que tem a fundura de peixe sem olho, cega que estava a faca.

Chronic Dissatisfaction

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Javier Bardem y Penelope Cruz, em Vicky Cristina Barcelona

“O sertão é dentro da gente” -Guimarães Rosa

“Em que outra cidade você moraria, que não fosse Salvador?”.

Minha primeira resposta: qualquer uma onde eu tivesse trabalho.

Me choquei com minha própria resposta. Eu nunca tinha pensado sobre isso. De fato, qualquer cidade é exagero. Mas talvez seja a resposta mais próxima da [minha] realidade.

Depois do choque e dessa resposta franca, disse Havana. É verdade. Disse Barcelona também. Terminei dizendo que gostaria de morar perto da minha Madrinha e do meu Padrinho. Desconversei. Me senti estranha porque nunca tinha pensado nisso.

Por um lado, boa parte do mundo talvez tenha sua vida atrelada ao trabalho diário, então onde houver trabalho, dá pra viver. Por outro, fiquei me perguntando quando foi que eu deixei de imaginar uma vida que não essa de 12h de trabalho diário, por vezes fim de semana sim e outro também.

Houve uma época em que eu insistentemente pensava minha vida em outras partes do mundo. Era uma busca quase cotidiana por outras possibilidades. Hoje não quero pensar nem em mudar de bairro, porque meus gatos e meus livros estão tão aclimatados quanto eu nessa casa que é uma casa, mas também é uma loca de tão perto do mar.

Certa vez uma pessoa me disse que eu sofria de insatisfação crônica, tal qual uma personagem de Almodóvar em Vicky Cristina Barcelona. A pessoa estava certa, na época. Será que me curei e não consigo mais me sentir insatisfeita diante da vida pacata e costeña que levo hoje?

Não sei. Sei que meus lugares preferidos tem sido as pessoas – seus territórios longíquos, suas angústias, seus caminhos e modos de forjar a própria existência, apesar de tanta miséria. Dizem que Exu se tornou dono de todos os caminhos porque, a pedido de Orunmila, saiu pelo mundo e escutou todos os problemas de todas as pessoas bem como as soluções que elas encontraram para continuar vivendo, e voltou para contar a Orunmila.

Talvez seja essa a resposta para a pergunta que me fizeram: não sei para onde iria, mas tenho certeza que quem anda na minha frente sabe. Isso sim, eles sabem e isso me basta.

Tem sido essa, talvez e só talvez, minha maior aventura.

Necrópsias da Memória [excerto]

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Frida Kahlo, Hospital Henry Ford (1932).

[…] No sábado, Sara se vestiu toda de branco e posicionou seu turbante florido na cabeça. Para que as ideias não fujam, enquanto torcia o tecido de um euro comprado na Montmartre. Sara já sabia que havia roubado a tocha da revolução, não uma simples caixa de fósforos. Sara caminhava pela Tolbiac com a certeza de que a vitória latinoamericana traria bons frutos. Não era propriamente um roubo, portanto. Sara sentia-se irmanada. Sara via seus ancestrais dançando em volta dos firmes passos que dava. Sara estava calma, contente. Sara cumprimentava quem a saudava. 

M. e Mme. Lauvo já estavam no apartamento quando Sara chegou. Os alimentos estavam todos dentro de duas ou três sacolas. Sara cumprimentou o casal e sentou no fouton, agora fechado. Sara ouviu as desculpas, mas mudou de assunto. Os Lauvau pareciam aceitar a derrota. Sara contou sobre sua ida à Papillon. Sobre suas investigações. M. Lauvo, com seus grandes olhos azuis, disse que a língua da juventude havia sido roubada. Sara não discutiu. Sara sorriu timidamente quando Mme. Lauvo disse que também deveria ir para Réunion, que havia assuntos interessantes também lá. Trocaram mais algumas poucas obviedades. Sara puxou o carrinho de feira. Despediu-se. […]

Eu que já não tenho tempo

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Salvador Dali 1954

Caí na toca do coelho. Da mãe dele, na verdade. A toca em que cai pertencia à mãe do coelho. Mesmo que o coelho tenha matado a própria mãe logo depois que eu caí, não ouso dizer que era ele já o dono da toca.

Acho que agora raspei o fundo do tacho. Habito o platô desenhado linhas e unguentos. Me falta ar bem no chakra do meio do peito. Deve haver um chakra aqui pra doer desse jeito.

Enquanto eu caía na toca, um pouco antes do assassinato, abriu-se à memória um curto corredor. As paredes pintadas de branco já davam sinal dos tempos em pequenas borbulhas estáticos. Tu vois? Oui, je vois.

Estava ali, depois do corredor, o delírio. Eu que nunca quis me lembrar do final do corredor, hoje arranho traços na angústia de esquecer.

Se o preço de ter visto o final do corredor e caído das escadas é um estado de lucidez absoluta, abdico. Envio uma foto de hoje, mas a foto tirada hoje é a foto de alguém que foi morta ontem.

A angústia me mata um pouco ontem, com um golpe que só me desferiu hoje. É, afinal, preciso continuar.

Os compromissos na agenda chegam sem perguntar do meu chakra coronário, carcomido de tão enferrujado. Minha agenda ri. Ela ri porque não subiu as escadas, não se escondeu nos fundos do terraço, e não teve que passar por aquele corredor.

Há algo de podre no reino da Dinamarca. A Dinamarca é o fundo do fundo do fundo da toca onde caí, mas de onde não quero sair. Que cara terei eu pra encarar tantas pessoas que nunca atravessaram o corredor branco? Mesmo as que passaram por corredores parecidos, que cara lhes ofereço?

Vergonha é uma palavra engraçada porque parece bochechas coradas, mas é o avesso de qualquer chão. Só me libertarei dela quando meu corpo não fizer mais limite com as linhas do real. A morte, no entanto, deixou há muito de ser uma opção. A morte está no boteco da esquina, rindo da miséria de quem viu as borbulhas do corredor.

Desculpe, continuarei pedindo desculpa porque não acredito no destino cantado pelas moiras. Fechar os olhos é a grande possibilidade de me entregar ao pesadelo. O mais difícil é a parte de fechar os olhos. Tudo que vivi sem ter a lembrança do visto me persegue em rodopios vociferados.

Já passou. Eu repito olhando para imagens borradas. Aqui, que não é mais nem toca nem tacho, é uma cachoeira segura e pouco escorregadia. Mas a dor é mar adentro. Ela me arrasta.

No momento em que vi o corredor, eu nada vi. O corredor guarda os segredos de todo sintoma que come minha pele e minha paz, ambas carne vivas.

Em carne viva. Talvez isso seja melhor que gangrenar de tanto esquecer.

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Deus Vivo em Mar Morto

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Fonte da Imagem: Netmundi

“[…] o mar, o nosso mar, está novamente aberto, e provavelmente nunca houve tanto ‘mar aberto’”, diz Frederico Nietzsche no aforismo 343 de A Gaia Ciência (1882). Não mais a divisão do Mar Vermelho comandada por Moisés, mas sim o definitivo espraiamento de toda baía em mar aberto. Não mais o mar como aventura pelo desconhecido que reserva monstros e outras criaturas fatais, mas uma abertura interpretativa que, de alguma forma, não pode ser mais estancada.

Mar que é também a totalidade aniquilada: “[…] como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? […] – pergunta o insensato homem louco que, em plena manhã, segurando uma lanterna, procurava deus (também em A Gaia Ciência, mas no aforismo 125). É esse mesmo homem louco que enfrenta as gargalhadas dos frequentadores do mercado, diante da pergunta que só poderia realmente ser lançada por ele, um homem louco, portando uma lanterna a despeito do sol matinal.

A morte de Deus é anunciada então enquanto o apagamento de todo horizonte. A infinitude compartilhada entre deus e o mar é bebida por inteiro pelo homem. Anoitece eternamente, diz o homem louco. É por isso que, ainda que seja manhã, é preciso andar com uma lanterna. Deus está morto e foram os homens que o mataram. A chama que iluminava os ideais do ocidente se apagou e foram mesmo os homens que a apagaram.

Nietzsche, um extemporâneo com incrível percepção de seu tempo, anunciou a morte de Deus na penúltima década do século XIX. Disse que “esse acontecimento enorme está a caminho” (GC, § 125), mas ainda não poderia ser ouvido por completo. Assim como as estrelas, diz Nietzsche, a morte de deus precisava também de tempo para ser vista. Assim como o corisco e o trovão, a morte de deus, desse deus enquanto causa e determinação externa de toda vida, precisava de tempo para ser ouvida.             As últimas décadas do século XX, quase cem anos depois, são a hipertrofia dessa orfandade que o homem passa a experimentar depois que Deus deixa de ser a causa e o fim de todas as coisas. As igrejas, diz ainda o homem louco, não passam mais de um mausoléu, onde já se pode ouvir os coveiros cavando covas. Deus está morto enquanto ideal, enquanto justificativa, enquanto matriz interpretativa. A ciência passa, então, a ser a matriz interpretativa e diretora do ocidente, mas não conforta como antes poderia confortar a ideia de deus.

Violência psicológica e cativeiro mental: sobre Maid, minissérie da Netflix

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O TEXTO RELATA UMA CENA DE VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA/FÍSICA, PRATICADA EM AMBIENTE DOMÉSTICO. PODE TE FAZER LEMBRAR DE EXPERIÊNCIAS VIOLENTAS, CASO JÁ TENHA SIDO VÍTIMA DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. POR FAVOR, SE ESSE FOR SEU CASO, NÃO LEIA ESSE TEXTO NESSE MOMENTO. ESTAMOS JUNTAS!

Acabei há pouco de assistir a minissérie Maid, disponível na plataforma Netflix. Para quem sobreviveu à violência psicológica, ou para quem ainda está vivendo-a, é certamente uma série cheia de gatilhos, que nos fazem recordar de momentos terríveis. Nossas dores parecem muito particulares, mas o funcionamento da violência psicológica, da perspectiva de quem a pratica, é muito similar. Assistir a série foi ainda mais duro porque, além das lembranças, no Brasil não temos nem metade dos recursos e auxílios governamentais que aparecem na série e que permitiram que a protagonista sobrevivesse, apesar de as leis brasileiras soarem mais “avançadas” no espectro de possibilidades de proteção da vítima.

Duas questões me pareceram muito fortes – a invisibilidade desse tipo de violência, e a conivência das “testemunhas”.

A violência psicológica muitas vezes não deixa hematomas na pele. Então, a primeira dificuldade é mostrar que ela exista. É difícil para quem vive, de se convencer que está vivendo, e mais difícil ainda para prová-la, em situações institucionais. Nosso comportamento, enquanto vítimas, vai mudando, em função da sensação sólida de que diante do agressor não há saída. Porque a saída não é a porta ou a janela ou a rua. A violência psicológica nos encerra num cativeiro mental.

Quem está em volta, muitas vezes atribui a mudança de comportamento das vítimas a um problema da vítima, e não do agressor. A série mostra isso com muitas nuances. Em grande medida, o que sustenta a conivência entre testemunha e agressor é o próprio patriarcado. Os mecanismos de controle dos corpos, principalmente das mulheres, são muito normalizados, então uma típica prática de violência doméstica, como ordenar onde a mulher deve estar ou não, é tida como uma ‘questão’ que o ‘casal deve resolver’.

Quando fui vítima desse tipo de violência, eu só comecei a formular que estava vivendo uma relação violenta quando uma amiga de outro estado veio passar umas semanas comigo. Ela enfrentava o agressor de modo bastante inteligente, e aquilo começou a despertar em mim o vislumbre de uma rota de fuga. Mas, muita gente que via a situação de fora, tomou toma partido dele quando consegui dar fim à relação.

No último dia que o vi, estávamos voltando de um bar à noite. Eu viajaria para uma palestra no dia seguinte pela manhã. Ele me deixou em casa e subiu até meu apartamento. Começou a reclamar que eu não me comportava como namorada dele quando estávamos em público. Eu não queria discutir porque tinha que terminar de arrumar minha mala e acordar cedo para terminar minha conferência e ir para o aeroporto. Além do mais, era o último dia de um resguardo que eu estava fazendo, e não queria me alterar. Ele insistia, em tom de ladainha, sobre como eu deveria me comportar e sobre como ele estava cansado do meu comportamento. Eu já estava de toalha, queria tomar banho, mas queria que ele fosse embora antes. Não suportava mais, mas ao mesmo tempo me sentia presa num labirinto, de onde não conseguia encontrar a saída. Eu estava na minha casa, eu dizia para ele ir embora, e ele permanecia. Até que resolvi falar mais firme, dizendo para que ele imediatamente se retirasse de minha casa. Estávamos frente a frente no corredor. Ele então me deu um tapa na cara.

Não chegou a marcar – novamente a invisivilidade de algumas práticas violentas. Não chegou a marcar, mas ali eu entendi o que a série Maid mostra muito bem: se eu não desse um basta naquele momento, nada me garantia que o próximo tapa não seria um soco, um chute, algo pior. Eu ainda me recuperava do que tinha acabado de acontecer, ele começou a tentar me convencer se que ele não havia me dado um tapa. O que parece bastante estranho, mas depois descobri fazer parte do ciclo da violência psicológica: abuso > gaslighting > modo anjo > abuso etc. E assim a vítima passa a duvidar de si, e se torna o alvo perfeito para o agressor.

Depois do ocorrido, apenas abri a porta em silêncio e ele foi embora. Não consegui dormir direito, e perdi o voo no dia seguinte, que tinha sido pago pelo evento para o qual eu havia sido convidada. Tive que eu mesma pagar dois mil reais para conseguir chegar ao evento. Ele nunca me devolveu nem esse dinheiro, nem o dinheiro de outros prejuízos que me deu, porque obviamente o abuso psicológico tinha perpassado toda a relação. Mas antes de comprar outra passagem, fiz tudo que estava ao meu alcance para que ele nunca mais chegasse perto de mim.

Automaticamente, ele se converteu na vítima da situação e se aproximou de várias pessoas que eram próximas a mim. Ele organizou um evento sobre violência contra mulher, chamou essas pessoas. Se safou, inclusive porque eu não fiz denúncia – invisibilidade das marcas da violência psicológica + inabilidade das testemunhas em testemunharem. Senti muito medo também de ser exposta e ter minha saúde piorada ainda mais. É fácil dizer para as vítimas de qualquer tipo de violência para elas denunciarem as violências. Mas pouco se fala sobre as consequências de não termos preparo, enquanto sociedade patriarcal, para que as vítimas tenham o apoio necessário para se recuperar.

A minissérie Maid, a meu ver, lança luz aos bastidores de certas práticas de violência que precisam sim ser mais discutidas. Ativa muitos gatilhos, é verdade, para quem já sofreu esse tipo de violência, e por isso senti falta de um pouco mais de cuidado com os avisos.

nota 1. por uma ciência comunitária

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CC – Flickr – Quadraro

Para além de uma “comunidade científica”, penso na importância de uma ciência comunitária. Aqui, inspirada no feminismo comunitário da feminista aymara Julieta Paredes (2014 [2010], p.90), torna-se fundamental pensar que enquanto cientistas estamos em relação de “complementaridade, autonomia e reciprocidade” com outros grupos sociais que também são produtores de saberes. Uma ciência comunitária, para além de aberta, se constrói enquanto um “tecido das complementaridades, reciprocidades, identidades, individualidades e autonomias” (PAREDES, 2014 [2010], p.90), bordado nas relações políticas que estabelecemos enquanto sociedade.

.:. Tradução e Destino .:.

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Obba, por Claudia Krindges

Obá, te dou minhas orelhas. Delas, depois que te soube, nunca mais precisei. Tateio tua força. Alimento-me da sopa que Shango não quis. Cresço nela, e apesar me gesto outra placenta. Temo o câncer que insiste.  No entanto, me sabes cansada.

Isadora Machado, Misantrópolis.

.:. Tradução e Destino .:.

Há dois anos atrás, eu enviei uma mensagem pelo facebook para meu Babalawo, com quem não falava já fazia algum tempo. Eu escrevi apenas duas palavras: necesito ayuda. Ele me perguntou o que estava acontecendo. Eu expliquei. Uns dias depois, ele me prescreveu os conselhos que Orula me dava, por intermédio de um dos odus de Ifá. Banhos, rezas e outras delicadezas perfumadas, dessas que me deixam sempre mais encantada com minha religião.

Enquanto eu fazia aquilo que Orula havia me aconselhado, recebi uma outra mensagem de meu Padrinho e de minha Madrinha, dizendo que eles tinham um trabalho para mim. Eu não fazia ideia do que se tratava, mas a notícia encheu meu peito de novas esperanças.

Eu havia sido escolhida para traduzir o livro que Ifalade Olowo e Oshun Bomite, meus sacerdotes de Osha-Ifá, tinham escrito. Tratava-se de um livro de apresentação da Santeria para leigos, ao mesmo tempo que pode ser de muita valia para os já versados nas práticas yorubas.

Tive dificuldade no começo, porque muitas questões ainda pareciam sem resposta: por que eu? E se eu falhar? E se eu não conseguir? Que foram seguidas de perguntas de outra ordem: eu, linguista, traduzindo? Qual método usar? Quais escolhas teóricas podem embasar essa tradução? E assim eu ia me distanciando do trabalho, e passei alguns meses paralisadas pelo medo e pelo espanto.

A solução que encontrei resolvia em parte. Eu decidi escrever um projeto de pós-doutorado sobre tradução, para então traduzir o livro. Consegui uma licença e estou aqui, quase dois anos depois da conversa inicial, terminando a tradução.

Ainda tenho dúvidas: será que as pessoas de axé vão gostar do livro? Será que vai ser possível estabelecer diálogos com os terreiros brasileiros? Será que vou encontrar uma editora? Será que vou conseguir finalizar a tradução e entregar nos prazos?

Não sei. Entrego ao destino. Ao mesmo destino que me fez sair de minha cidade natal quando eu tinha 21 anos. Que depois me mandou para Campinas. Que depois me lançou ao México, a Cuba, à França. Destino que me trouxe até Salvador, onde hoje formulo outras dúvidas.

Mas, dentre tantas incertezas, uma coisa é certa: traduzir esse livro mudou minha vida e me fez reviver. Eu estava muito doente, e a tradução desse livro me fez querer reviver meu corpo para poder traduzi-lo. Essa tradução tem me exigido um processo de purificação fisiológica e espiritual também. Tive que adequar meu comportamento. Melhorá-lo.

A tradução, que leva consigo o corpo daquele que traduz, conjuga esse corpolinguagem a dobras – dobra de línguas, dobras de temporalidades. Dobra de vida sobre vida.

Eu agradeço.

Maferefun la Osha. Maferefun Ifá.

. é agosto, silêncio .

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Lynch, Mulholland Drive [2001].

pela memória de Daiane Griá Kaigang

No hay banda! There is no band. Il n’y a pas de orquestra! This is all a tape-recording. No hay banda! And yet, we hear a band. If we want to hear a clarinette, listen. It’s all a tape. It is an illusion.” – Cena de Mulholland Drive [David Lynch, 2001].

Em 2005, quando vi Mulholland Drive [2001] pela primeira vez, eu já tinha experienciado alguns de meus traumas constitutivos, mas ver esse filme foi um tanto catártico porque tive a impressão que, pelo filme, eu poderia ter emoções tão fortes quanto essa cena em que as primeiras notas de “Yo estaba bien por un tiempo / volviendo a sonreír”, à capela, me impressionavam na medida em que, de algum modo, pareciam ressoar algo de angústia que eu sentia, mas não podia dizer – as notas diziam por mim.

Uma sensação parecida com a de ler O Inominável, de Beckett (1953). E a angústia era então um monstro que me devorava dos pés até a cabeça, e ia dos pés até a cabeça simplesmente pra que eu pudesse estar consciente enquanto via meu corpo ser consumido.

Pausar o filme para buscar refrigerante, ou descansar a vista no horizonte enquanto tomava ar pra seguir o livro, eram coisas que marcavam um limite entre realidade e ficção, e de algum modo essa marca ajudava a alternar quente e frio. Hoje, 17 de agosto de 2021, tudo parece morno, apesar de tantas tragédias.

Uma breve rolagem de tela no Instagram me levou do Haiti ao Afeganistão, do Líbano ao Rio Grande do Sul – onde Daiane Griá Kaigang foi assassinada depois de estuprada [ela tinha hematomas por todo o corpo e teve a parte inferior do corpo dilacerada]. Cheguei à Palestina. É tudo tão grave, que as tragédias perdem suas singularidades e esfriam, tornando-se apenas manchetes em feeds requentados – mix de propaganda de cafeteira recebida com a hashtag #publi e dizeres como “pray for”, que também são #publi só que de outro jeito.

Uma atriz que eu admiro muito compartilhou em seu feed vários cards, e cada um deles explicava porque Líbano, Haiti e Afeganistão viviam momentos trágicos.

Nossa jovem Kaigang não estava nesses cards, nem estava Gaza, talvez porque as tragédias ameríndias e palestinas tenham sido normalizadas em uma empresa-Instagram ávida pela notícia que outra pessoa semi-conhecida vai saber por meu intermédio, engajando-me assim como alguém empático e carismático que mantém então a imagem de alguém que se preocupa com os outros. No Instagram, se eu compartilho uma frase sobre uma tragédia já posso dormir com minha cabeça num travesseiro de plumas tão leves quanto minha consciência.

O que as tragédias do Líbano, do Afeganistão e do Haiti têm em comum? O sujeito da ação: imperialismo estadunidense. Ora, mas até quando vamos culpar os Estados Unidos da América pelas tragédias no mundo?

Ora, até quando vamos fingir que algumas tragédias só são forjadas num modo de produção capitalista, isto é, num modo de produção racista e cisheteropatriarcal?

É uma ingenuidade muito grande, também algum mau caratismo. Instagram, Twitter, WordPress, o semi-morto Facebook, são empresas privadas – e parece estarmos presos na metalinguagem capitalista, porque pra dizer isso pareço precisar de uma das empresas citadas. Os movimentos sociais desde muito sabem que as articulações também acontecem no ‘chão da fábrica’, e que isso é diferente de fazer uma reunião com meia dúzia de representantes dentro do escritório do patrão.

Se eu fosse uma capitalista dona dos meios de produção, certamente veria o rumo dos trend topics e das hashtags, e iria no sentido contrário. Traçaria estratégias pelos fluxos de rede.

Algumas mudanças são tão profundas que parecem impossíveis. É difícil imaginar um mundo futuro sem internet. E isso me assusta, cada dia mais.

A sensação que eu tenho é que nunca sairei de dentro do Club Silêncio – em que não há banda, não há orquestra, e por isso então concluo que todo ruído dentro do pesadelo é real.

Beckett surge de dentro de um barril e, diz:

“eu serei ele, eu serei o silêncio, eu estarei no silêncio, seremos reunidos, sua história que é preciso contar, mas não há história, ele não esteve na história, não é certo, ele está na história dele, inimaginável, indizível, isso não vale nada, é tudo o que sei, não sou eu, é tudo o que sei, não é o meu, é o único que tive, não é verdade, devo ter tido o outro, aquele que dura, mas não durou, não compreendo, ou seja sim, ele dura sempre, estou nele sempre, deixei-me ficar nele, nele me espero, não, não se espera nele, não se escuta nele, não sei, é um sonho, talvez seja um sonho, isso me espantaria, vou acordar, no silêncio, não adormecer mais, serei eu, ou sonhar ainda, sonhar um silêncio, um silêncio de sonho, cheio de murmúrios, não sei, são palavras, não acordar nunca, são palavras, há apenas isso, é preciso continuar, é tudo o que sei, eles vão parar, conheço isso, eu os sinto me deixando, será o silêncio, um pequeno instante, um bom momento, ou será o meu, aquele que dura, que não durou, que dura sempre, serei eu, é preciso continuar, não posso continuar, é preciso continuar, vou então continuar, é preciso dizer palavras, enquanto houver, é preciso dizê-las, até que me encontrem, até que me digam, estranho castigo, estranha falta, é preciso continuar, isso talvez já tenha sido feito, talvez já me tenham dito isso, talvez me tenham levado até o umbral da minha história, ante a porta que se abre para a minha história, isso me espantaria, se ela se abre, serei eu, será o silêncio, aí onde estou, não sei, não o saberei nunca, no silêncio não se sabe, é preciso continuar, não posso continuar, vou continuar.”

. ‘depois da pandemia’: sobre coisas que não existem e produzem efeito .

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“Montée de Sèves”, Wifredo Lam em art.com

Vamos marcar aquele rolê! Sim, quando a pandemia acabar. Depois da pandemia, vou cortar o cabelo. Assim que acabar a pandemia, compro uma passagem só de ida para Zanzibar. Quando acabar esse pesadelo, seremos pessoas melhores – talvez o aquecimento global até regrida, porque Deus vai ver como somos seres humanos melhores depois da pandemia. Depois da pandemia, eu vou: viajar, ir na sua casa, finalmente ver um show da Beyoncé, aprender receitas de comida tailandesa, parar de fumar. Depois da pandemia, tudo será diferente. Imaginaram o Carnaval depois da pandemia? Em Salvador, teremos uma festa que vai começar dia 1º de dezembro e vai acabar só depois da Páscoa. Depois da pandemia, não agora. Agora não, quando acabar a pandemia a gente faz e acontece.

Na minha opinião: não existe ‘depois da pandemia’. A pandemia não vai acabar.

A sensação que eu tenho é que dizer depois da pandemia nos dá um conforto mental de que, em algum momento, seremos capaz de esquecer os quase 5 milhões de mortos – 600 mil só no Brasil. Quando eu paro para pensar, acho impossível a possibilidade de existir algo parecido com o fim de uma catástrofe tão grande.

Isso porque podemos esquecer várias coisas, e é saudável que o façamos. Mas esquecer 5 milhões de mortes é uma tarefa impossível. Do ponto de vista mais individual, são muitas famílias destroçadas – as pessoas continuarão suas vidas, mas há um luto muito particular quando a tragédia afeta tanta gente ao mesmo tempo. Do ponto de vista coletivo, é algo que constituirá muitas gerações (X, Y, Z, Alpha, o que seja…).

É por isso que não acredito que existe “depois da pandemia”. Aqueles que sobreviverem, terão a difícil tarefa de honrar seus mortos. Fico me perguntando: 5 milhões de mortos e eu ainda estou viva. Por que eu? Que vou fazer com uma coisa tão grande: sobreviver a essa tragédia política, sanitária, humana? A única opção que não vejo é: agir como se nada tivesse acontecido. Será preciso ressignificar.

A mitologia judaico-cristão, aliada fundamental do capitalismo, impõe à boa parte do mundo uma visão única sobre o tempo: o tempo seria uma linha reta – passado, presente e futuro, divididos em antes e depois de Cristo; antes e depois da escrita; essa linha reta seria uma seta sempre apontando para a direita, o ‘futuro’. Por isso, dizemos que o tempo oriundo da mitologia judaico-cristã é progressivo, ou seja, que quanto mais o tempo passa, mais progresso existiria; e que o tempo judaico-cristão é escatológico, ou seja, que há sempre uma finalidade específica para essa passagem do tempo, que pode ser o fim do mundo ou um estado de bem-estar eterno.

“Seguindo o condicionamento das escritas ocidentais e ocidentalizadas, coloca-se nessa linha um ponto: à esquerda do ponto, há a pré-história; à direita do ponto, a História. Do ponto à direita em diante, caminhou o homem – essa palavra que apaga o gênero deste corpo que escreve – em direção a outro ponto: o cristianismo. […] Estaríamos, agora, há quase exatos 2015 anos depois do ponto. O tempo, simbolizado como uma linha reta, determina todas as nossas atividades econômicas e, como era de se esperar, científicas. A partir desse imaginário, de que o tempo, assim como a escrita, caminha da esquerda para a direita, para frente, é que a ciência ocidental, compreendida a partir da objetividade, se funda. Com essa concepção linear do tempo, seria possível descrever a ciência como a história de um progresso, de descrever esse progresso como um melhoramento. Isso afeta o cotidiano de muitas maneiras. Afeta fundamentalmente nossa construção como sujeitos de conhecimento.” [MACHADO, 2015, modificado]

Essa, no entanto, é uma concepção de tempo. Existem outras. Muitas outras.

Talvez a grande tarefa para quem vai sobrevivendo à pandemia de COVID-19 seja justamente reencontrar outras temporalidades, abdicando da ideia de progresso em função de ideias menos soberbas a respeito de quem somos e para onde vamos.

há grandes coisas a serem desfeitas

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Fonte da Imagem: Divination with Ifa

Há grandes coisas a serem feitas. Penso sobretudo na possibilidade de continuar. Grande coisa. A cada instante de coragem, junto grãos de areia no bolso interno da camisa cáqui. Esqueço as cores. Sigo tingindo meus amuletos. São cores de lugares distantes, que quase cheiram a mofo. Cabe na pele ainda alguma memória. De tinta eu sei, pouco me resta de lugar para tinta. Mas, da memória? Tento decifrar a unidade para medir o que há entre a pele e as histórias por contar.

Gosto do cheiro da manga que acaba de cair. Acho azedo uma palavra engraçada. Ruído, uma imagem que o tempo não oxida. Mas, é agosto. Que os silêncios que se escondem nos meus poros me protejam da fúria daquele que desce à terra.

Hoje é tempo de prosseguir. Sob os pés purulentos, sou capaz de compreender a chaga que devém tantos egos carcomidos. Me olho no espelho, não me vejo. Lembro da tia que segurava meu primo no colo, e dizia do perigo de que a criança se visse no espelho. Não lembro se a palavra era pecado ou doença. De qualquer modo, é agosto. E agosto me traz o estranho exemplo do rei que sofreu.

Que meus colares não se aniquilem em tentativas sabotadas pelo afeto. Que nada no mundo se esbarre ao que em mim é Desejo, pois se nele há algo que se desfaz, há, sobre todos, os grandes pés curados do grande rei. Mas, é agosto. Tenho em mim a beleza do rei. Guardarei em baús, caso não caiba em mim toda a glória. Deixarei os baús embaixo da cama onde antes eu abrigava fantasmas.

Ao final, olhar pra mim. Eu que não me via no grande quadro de pedaços bricolados de excertos que roubava de quem passava. Eu hoje acordei inteira. Cada chaga foi coberta com unguento brilhante pelo rei. Mas, é agosto. Em cada pústula o rei fez plantar nascer crescer um girassol mestiço. Eu que não me via grande, a cor dei a novos elos de lã reluzente.

Eu que batia na santa católica porque bater na Tia era demais. Insuportável, eu diria. Campos e Campos. Qual ano, não sabia. Todavia, há algo da moral que não se perspectiva. Há algo dele que produz em mim efeito – porque só há causa daquilo que falha.

Se hoje o Rei, antes houve o Pai. Que cumpriu sua função – Lei, Limite, Laço. O que mais eu posso querer? Nova missão.

Se não me escutam, lembrar que eu falo ao Arco-Íris. Efemeridade e permanência são a ponte construída a cada passo. Lembrar que é ao Arco-Íris a quem faço reverência para traduzir espaços cenográficos. Chapeu de Eleggua – em terra de Rei, quem traduz eu bem sei.

Tenho da Real cabeça de Obatalá, brotada do ovo de Asesu – dizia Glissant, uma ilha pressupõe outras ilhas.

Mas, é agosto.

Atoto!

Misantrópolis está em pré-venda!

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“Nove braços o rio, nove filhos gerados – ungidos tingidos roubados doentes atados. De cá, vejo o Belo Monte sombreado de pesadume e mesquinhez dos brancos e lá do alto intuo pedra enaltecida e bandeira camuflada no convés do navio. De lá, vê o Belo Monte se diluir a última Harpia Real. Atacaria a carne quente pois que pressente a morte de suas crias e das mulheres cortariam o couro, navalha na carne, bico ensanguentado de medo que enfrentaria a morte anunciada no leito do rio? […] Mas lançará sobre todos os montes seu canto harpejado de palavra agreste, e deixará de voar pois que abriu seu peito à última flecha. E a queda santificou a flecha e o caçador. E o tombo bendisse o chão, pois que fez dele solo sagrado e demanda. O que sobrou da terra fertilizada de sangue? […]”. MISANTRÓPOLIS, Ato II, “No deserto”. Misantrópolis será editado pela @editoraurutau e está em pré-venda! Conto com vocês na divulgação: http://www.benfeitoria.com/MISANTROPOLIS #books #mujeresescritoras #cuba #havana #mexico #ciudaddemexico #literaturalatina #vilavelha #manguetown #france #paris #gwada #guadeloupe #kreol #élogedelacréolité #edouardglissant #josemarti #brujeria #hechiceria

Por que sigo fazendo Ciências Humanas num país que odeia as Ciências Humanas?

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Imagem: Criança geopolítica assistindo ao nascimento do homem novo, Salvador Dali [1943]

Para Ana Carolina Suzart, Conceição Lessa, Nathalia Carvalho e Lucas Reis, pela aposta

Nos governos Temer e Bolsonaro, a ciência brasileira passou a sofrer ataques como nunca havia se visto na história desse país. Não nas mesmas proporções.

É verdade que no governo Dilma Rousseff tivemos um corte profundo nos recursos das Universidades. No entanto, nada se compara ao combo Temenaro. Inclusive porque, em nenhum montento, tivemos um ataque tão direto às ciências em geral, e às Ciências Humanas em particular.

Conforme prometido por Bolsonaro em campanha, desde o ano passado as Ciências Humanas deixaram de ser áreas prioritárias, e temos cada vez menos bolsas para pesquisa. Isso porque, na lógica bolsonarista, as Ciências Humanas representam a esquerda nas Universidades – uma vez que a esquerda deveria ser combatida, logo, as Ciências Humanas precisariam ser minadas. O governo tem feito isso, então, principalmente por meio do corte das bolsas de estudo e das verbas para assistência estudantil.

Vivemos um tempo de poucos sonhos, muitas distopias, e menos dinheiro no bolso.

A remuneração não é a única razão pela qual fazemos as coisas. Somos movidos por desejo também, e por ambições que podem viajar pelos delírios individuais ao mesmo tempo que se somam a projetos coletivos. No governo Bolsonaro, nós professorxs e cientistas temos sido atacadxs das mais perversas maneiras. Em vários momentos, preciso lembrar o porquê de fazer Ciências Humanas, num país em que se passou a odiar as Ciências Humanas. Por que, então, continuo minha carreira de cientista na grande área das humanidades?

  1. Porque todas as vezes que me reúno com minhas/meus orientandxs, elxs me provam que, apesar de tudo, há quem sonhe em seguir a carreira de cientista. Xs estudantes com quem trabalho continuam, apesar de, e não serei aquela que pula do barco para buscar um lugar melhor no bote [apesar de compreender quem o faz];
  2. Porque refletir criticamente sobre a materialidade das coisas me mostra que, por serem históricas, as relações sociais podem ser transformadas: nem sempre o mundo foi esse mundo que conhecemos, então a condição da continuidade é a mudança;
  3. Porque quando estou reunida com meu grupo de pesquisa, eu vejo olhos que ainda brilham e muitas vezes o semblante de quem acabou de compreender algo muito importante;
  4. Porque ninguém nunca me disse que seria fácil;
  5. Porque ler e escrever e pensar ainda é o que me move;
  6. Porque ainda há perguntas que envelheceram;
  7. Porque minhas/meus professores me ensinaram o caminho das pedras;
  8. Porque, disse Conceição Evaristo, que combinaram de nos matar mas nós combinamos de não morrer;
  9. Porque ainda desejo pintar com novas cores a Idade do Mundo;
  10. Porque disse Ifá: lento pero aplastrante.

Até a vitória, sempre!

Bairrismo, nas universidades, é a microestrutura do colonialismo

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Imagem: El Coyote

Criam uma vaga X. Ao invés de fazer um processo seletivo, eles já sabem quem vai ocupar a vaga X. Como eles sabem? Ora, é evidente. Não há nada mais óbvio do que quem deve ocupar a vaga X. Me refiro aqui às tratativas internas da administração universitária, e não aos concursos públicos e outros mecanismos de seleção de pessoal. Esses, sim – já entenderam que a lisura é a chave mestra. Refiro-me ao miúdo das relações, aos cotidianos, ao que é microcelular.

Mas e aquela pessoa que também cumpriria os requisitos? Bem, eles não conhecem, então não existe. Tem essa que eles conhecem e com quem mantém boas relações. Então eles escolhem, porque é evidente.

Na Análise de Discurso aprendemos que o funcionamento da evidência é aquilo que é próprio do funcionamento ideológico. Os processos ideológicos (interpretativos) funcionam porque se constroem como evidências. É evidente que casar é melhor que ficar solteiro; é evidente que todos precisam comprar um carro e um apartamento e depois casar e ter filhos; é evidente que humanismo é o que nos garante a vida. É evidente que aquele fulaninho deve ocupar a vaga que acabaram de abrir.

Muito se discute sobre a neutralidade, ou a impossibilidade de, nas ciências. Sim, não há neutralidade porque os cientistas são um emaranhado subjetivo e porque as relações de força jogam com nosso desejo. No entanto, que não haja neutralidade na ciência não é uma razão pra que a Universidade funcione sempre por um jogo de pessoalidades. Isso é bolsonarismo. Isso é justamente o que dizem combater.

Isso acontece com vagas, com lugares, com posições. Por mais contrahegemônicas e democráticas que algumas posturas encenem ser, é sempre pela práxis que podemos construir a ética universitária. Do que adianta ser contra a política educacional do presidente Bolsonaro, se no cotidiano as escolhas são feitas pelos mesmos critérios: quem tem boas relações com o grupo de poder, e portanto beneficiará o grupo de poder, é a solução natural. Não há nem seleção nem processo seletivo possível que desloque a naturalidade com que quem está no comando lida com algumas situações.

São 521 anos depois da invasão portuguesa, e nas universidades algumas pessoas são escolhidas pelos mesmos critérios de ordenações sebastianas: proximidade da família ou de si com o Rei; boa vizinhança; ou ainda por terem simplesmente sido nomeadas boas.

Mas isso é hora de criticar as Universidades? Não. Mas passou da hora de a Universidade combater esse ranço colonial dentro dela mesma.

Se as Universidades brasileiras querem exercer sua própria cidadania, elas precisam urgentemente combater o bairrismo organicista. Porque o bairrismo, sabemos bem, é a microestrutura do colonialismo.

Google: pesquisar

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Tenho que acordar às 5h, se quiser dar conta de tudo que tenho pra fazer amanhã. Google pesquisar: como acordar às 5 da manhã em dias de chuva intensa. Sua pesquisa não encontrou nenhum documento correspondente. Acerto então o despertador pra 5h30, porque 5h mesmo, depois que conseguir 5h30, não será tão difícil. Ir dormir é um ritual. Dos mais simples – deitar, fechar o olho, dormir. Dos mais complexos – tomar banho, colocar o pijama [alguém ainda usa pijamas?], passar cremes [nas olheiras, nas espinhas, nos lábios, no que sobrar e for pele], desarrumar a cama, dar comida para os gatos [que a essa altura estão alucinados correndo pela casa], então apagar as luzes, daí deitar na cama. Que cama gelada! Que exagero, em Salvador não faz frio. Faz sim, às vezes.

Desde quando deitar na cama já pronta pra dormir deixou de ser sinônimo de fechar os olhos? Confiro o despertador mais uma vez. Tá lá: 5h30. Será que eu vou conseguir acordar? Se eu não acordar 5h30 amanhã, tá tudo perdido. Google pesquisar: como terminar um pós-doutorado no prazo? Várias receitas. Mas tenho que dormir. São 22h, preciso aproveitar que consegui deitar cedo. E aquela conta de twitter que eu tinha, será que ainda está ativa? Google pesquisar. Sim, está. Login, senha incorreta. Puta merda. Mandar pra o e-mail do hotmail. Senha incorreta. Manda a senha do hotmail pra o gmail. Pronto. Agora a senha do twitter está no hotmail. Trocar a senha do twitter. Meu Jesus amado, quantos tweets horrorosos. Google pesquisar: como apagar todos os tweets de uma vez. Fazer login em outro site que apaga tweets? Sério? Hm, descubro que pra o Twitter não é interessante fornecer uma ferramenta de apagar todos os tweets de uma vez. Ah, o século XXI. Google pesquisar: quando acaba a pós-modernidade, vem o quê? 22h32. Sério? Amanhã vou sentir falta desses 32 minutos. Google pesquisar: por que os esquilos são infectados com bernes? Não. Google pesquisar: como eu salto da pós-modernidade para bernes e esquilos? 22h35. Google pesquisar: funcionamento cérebro sleep dormir how to get away? Oi? Viola Davis é realmente a melhor atriz. Já sei – é só conferir mais uma vez o despertador. Desligo o telefone. Fecho os olhos. Inspira 1, 2, 3, 4 e 5. Segura 1, 2, 3, 4 e 5. Expira 10, 9, 8, 7…Seguido de um sono seguido sem interrupções de 7h. São 6h39 e já tomei banho, escovei dentes, passei cremes, tomei café da manhã e terminei um texto. Google pesquisar: como lidar com a felicidade de atingir metas insignificantes?

“Sua pesquisa não encontrou nenhum documento correspondente” – é o sonho de consumo de qualquer pesquisador.

Fim [sempre soube que tinha problemas com a morte].