Você precisa ler o capítulo 2 d’O Capital

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Imagem: NathanNunArt

Fui à padaria com seis gatos na mochila. Não esperava que a atendente percebesse o conteúdo de minha bagagem, mas é provável que meu tronco estivesse um pouco encurvado para frente. De qualquer maneira, de que maneira a atendente descobriu que eram gatos, e não cachorros, e não plantas? Como ela percebeu que eram gatos, e que não eram pedras?

Não sei.

Sei que quando ela percebeu que eu tinha seis gatos dentro de minha bagagem, ela me chamou para conversar na prateleira de materiais de limpeza. Disse que ali quase não tinha gente. Eu disse a ela que o tempo passava e que eu não percebia. Ela me disse que quem anda com seis gatos na bagagem nunca vê o tempo passar.

Tive que confessar. Tive que dizer que não eram seis, que eram sete. Ela disse que o tempo havia passado então. Eu disse que não tinha percebido. Ela disse que com sete gatos na bagagem ninguém poderia perceber o tempo passar. Não sei. Mas na hora concordei.

Perguntei à atendente, enquanto fingia procurar o preço do amaciante, sobre o que ela queria conversar comigo. Eu disse que não tinha muito tempo. Ela me disse que com sete gatos na bagagem ninguém tinha tempo, muito menos para conversar. Eu já estava sem paciência para conversar com a atendente, inclusive porque minha bagagem pesava muito, mesmo que ninguém ali notasse de que material era feita minha corcunda.

Ela finalmente me disse que ela tinha três crianças na bagagem dela, mas que ela já não poderia mais carregar. Eu dei uma gargalhada. Não acreditava que aquela moça tão jovem fosse capaz de carregar três crianças e ainda ter tempo de conversar comigo. Eu perguntei a ela se ela via o tempo passar. Ela disse que ver, ver, não via, mas que ouvia o tic-tac do relógio toda vez que as crianças choraram. Eu não entendi os tempos verbais que ela tinha usado, mas decidi continuar, porque já tinha encontrado o preço do amaciante quatorze vezes, e as pessoas poderiam começar a perseguir minha bagagem.

Não deu outra. Em poucas palavras ditas a prateleira de materiais de limpeza já estava cheia, e tivemos que nos mudar para perto do balcão de frios. Eu já não aguentava mais aquela dança psicótica pela padaria, mas resolvi continuar. Não poderia ir embora sem antes saber da bagagem daquela moça. Fiz uma pergunta definitiva: o que você quer comigo?, ao passo que ela me olhou como no dia da extrema unção me olharam as moscas.

Ela disse que não sabia. Me perguntou ironicamente se eu por acaso sabia o que eu queria com tanta palavra que saía de minha boca. Ela me perguntou: por que os gatos de sua bagagem não fazem barulho? Eu disse: porque estão mortos. Ela disse: as crianças também estão mortas, mas não param de gritar. Eu disse: mas só você escuta. Ela começou a chorar, e a abracei para que as pessoas não começassem a me olhar e enfim descobrissem o que eu trazia em minha bagagem.

Limpando o catarro que escorria pelo nariz, ela então disse o que queria propor desde que me viu entrando na padaria passando ao lado do caixa para cortar caminho: quer trocar a sua bagagem pela minha? Obviamente eu disse que sim, antes crianças que gatos. Já ia me movimentar pra que ela tirasse de mim o peso de sete gatos silenciosos. Ela me entregou a bagagem dela como se fosse minha, e saiu correndo pela padaria, atravessando a porta.

Eu nunca mais vi aquela mulher cuja última imagem – esta que me persegue – é a de cabelos longos e lisos voando em meio a pães e biscoitos. Um corpo sem corpo, apenas feito de cabelos voando.

Tive que colocar a bagagem de crianças dentro da bagagem de gatos. Fiz uma bagunça danada. Até hoje não me recuperei. Lembrei agora de Frida Kahlo pintando o próprio gesso enquanto não se movimentava em cima de uma cama. Porque estou sentada em cima de uma bagagem, que agora é uma só, de sete gatos mortos e três crianças mortas, mas não faço ideia, deus meu, do que significa o número 10.

Não pude nem pensar muito de frente à padaria. Tive que continuar andando.

Foi assim que passei pela rua do hospício onde já havia trabalhado, e vi uma casa para alugar. Chamei, mas ninguém atendeu. Me preocupava que não sabia se era tarde ou noite, se cedo ou tarde. Eu não via o tempo passar, mas ouvia as crianças gritando de modo incessante, então realmente ouvi o relógio, que é muito mais que ver o tempo passar, diga-se de passagem. Eu ainda queria ver o tempo passar, mas a vizinha da casa que eu queria alugar veio em minha direção. Meu medo era que ela visse minha bagagem, e dissesse para quem fosse dono da casa que eu não tinha bons antecedentes.

Muito pelo contrário. Ela era a dona da casa, e me disse que se eu quisesse alugar, que a casa era minha. Obviamente eu disse pera lá não é assim preciso ver a casa primeiro. Meu medo era que ela pudesse entrar na casa em minha ausência, e saber o caminho para os armários. Ela foi simpática, mas as crianças choravam tanto que eu paguei o aluguel ali mesmo na calçada e peguei as chaves.

Corri para dentro. Os armários eram amplos, ideiais para o que eu precisava. Mas havia um porão, e eu não sabia que casas brasileiras tinham porão. Abri a porta e desci dois degraus da escada. Já não aguentava mais carregar minha bagagem. Parei para descansar. Acendi um cigarro e ouvi um miado. Sim, havia um gato vivo no porão.

Ele me disse que se chamava Wash, e que eu deveria deixar minha bagagem no armário amarelo do porão. Achei que ele estava me dizendo a verdade, e obedeci. Wash me sorriu como quem entendesse que eu já não sabia andar sem minha bagagem. Ele me disse para subir, que ali minha bagagem estaria segura. Achei que ele nao tinha porque mentir, e obedeci.

Wash me perguntou: você troca dez mortos por um vivo? Eu disse que não sabia o que responder, porque meu medo era que se não trocasse seriam então onze mortos e nenhum vivo.

Wash riu.

Wash me disse: Gatos, crianças, bagagens? Você precisa ler o capítulo 2 de O Capital.

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