O chapéu de Eleggua: tradução e perspectivismo

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Moyugba, Elegua!

Contam os antigos Yoruba que havia na Yorubalândia dois amigos que eram famosos pela amizade inquebrantável que mantinham. Os dois amigos cultivavam suas respectivas roças uma ao lado da outra, separadas apenas por uma estrada bem estreita. Contam os antigos Yoruba que essa amizade já era conhecida em toda a Yorubalândia, e que os amigos, muito orgulhosos de si mesmos e da amizade, começaram a dizer que já não precisavam mais dos Orishas, nem para fertilizar a terra, nem para trazer a chuva, nem para trazer a paz, nem para prevenir as guerras, pois apenas a amizade entre os dois era suficiente para que a vida das duas famílias prosperasse. Eleggua, dono de todos os caminhos e de toda a comunicação, ouviu uma dessas conversas dos dois amigos e teve uma ideia. Contam os antigos Yoruba que Eleggua, dono das palavras, vestiu um chapéu, que na metade direita era preto, e que na metade esquerda era vermelho, e foi caminhando pela estrada estreita que dividia as roças dos dois amigos que andavam dizendo não precisar mais dos Orishas. Eleggua, dono do corpo, passou assoviando suas canções e no fim da estrada sumiu. A esta altura, os dois amigos estavam intrigados, conversando sobre quem era aquele homem de chapéu que havia passado assobiando: “O senhor viu aquele homem de chapéu preto?”, perguntou o amigo da roça da direita. “Não havia nenhum homem de chapéu preto, meu amigo. O homem que passou tinha um chapéu vermelho, e eu nunca o vi por aqui!”. Já havia passado mais de três horas, contam os antigos Yoruba, que os dois amigos estavam brigando, e não se colocavam de acordo a respeito da cor do chapéu que fora visto. Até que se juntou uma multidão de gente que também não se colocava de acordo sobre a cor do chapéu do ‘homem’, e então os dois amigos “saíram no braço”. Brigaram durante tanto tempo, que acabaram se matando, porque um dizia que o chapéu era vermelho, e o outro dizia que o chapéu era preto.

Essa história da tradição Yoruba, ademais de relatar características do Osha Eleggua que não desenvolveremos neste momento, nos diz sobre a cosmovisão destas sociedades, que se organizaram ao longo de mais de 10.000 anos e que hoje se estabelecem nas continuidades do Togo, do Benin e da Nigéria, e que também se encontram em diáspora nas Américas desde o século XVI. No patakín que trouxemos à tona, há uma briga em torno de duas perspectivas: entre aqueles que, de uma posição, viam o chapéu preto, e aqueles que, de outra posição, viam o chapéu vermelho. Ou seja, instaurou-se uma disputa por perspectivas.

O patakín também nos remete ao caráter político da linguagem, quando tomamos o chapéu de Eleggua como o sentido em disputa, sentido este que, desde a Semântica da Enunciação, conforme demonstraremos, é sempre dividido. O sentido de terra não encontrará consenso entre latifundiários e ambientalistas, pois que a divisão se inscreve na língua desde as diferentes perspectivas pelas quais os falantes são agenciados.


A tradução, de alguma maneira, também se inscreve nesse cenário de conflito imanente da linguagem. Se o chapéu de Eleggua é dividido em duas cores, a tradução não produzirá síntese, mas sempre tese e antítese incessante: de um lado a língua a ser traduzida, do outro lado a língua para a qual se traduz.

As traduções estabelecem, portanto, um litígio de perspectivas. Perspectivas entre línguas, perspectivas entre sociedades que falam essas línguas, perspectivas entre tradutores. Com o patakín de Eleggua, compreendemos que o conflito não tem resolução, mas que o conflito pode ser sistematizado. Isso porque Eleggua é o dono das encruzilhadas, e nos ensina que todo problema é constituído por diferentes perspectivas – ninguém pode olhar o centro de uma encruzilhada desde as quatro esquinas, ao mesmo tempo.

A tradução, assim, se constitui como um exercício de perspectivismo – movimento do sujeito na história e na línha.

*Patakín: são assim chamadas as histórias tradicionais dos Yorubas em Cuba.

Festa de Yemaya, silêncio no mar

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Fonte: originalbotanica.com

Como é lindo o canto de Iemanjá Faz até o pescador chorar

Iemanjá Rainha dos Ondas Sereia do Mar – Ponto de Umbanda

Para o querido Tiago Pires, porque tudo vai dar certo
Et à ma soeur Ruth Zenon, parce que nous sommes là

Ontem foi dia 2 de fevereiro, dia de Iemanjá no Brasil. Dia 2 de fevereiro é o dia mais bonito do Brasil. Dia das águas, presenteamos Oxum e dançamos rio abaixo até nossa grande mãe, dona de todas as cabeças. As Yialorixás e os Babalorixás, com suas grandes famílias aquáticas, preparam belos balaios, barquinhos e oferendas: “perfume, flor, espelho e pente – toda sorte de presente para ela se enfeitar”. Mesmo quem não é de candomblé, sente vontade de acompanhar o fluxo de gente feita de água e sal – compram flores amarelas, vermelhas e até azuis, pisam descalço na espuma branca que divide o real entre o presente e o passado imenso de nossa memória genética.

Ontem foi dia 2 de fevereiro no Brasil. Faltaram alguns números: ontem foi dia 2 de fevereiro, do ano de 2021, no Brasil. Ontem não podia descer pra rua e encontrar o mar de esperanças que se renovam todos os anos. Ontem éramos 227 mil mortos no Brasil e milhões de doentes. Ontem éramos o descaso de um governo fascista, que tem testado fórmulas genocidas com nosso povo de pés rachados de andar e de mãos calejadas de procurar solução. Ontem éramos um país sem vacina para todxs, sem educação para todxs, sem saúde para todxs, sem perspectiva para todxs. Ontem éramos o Brasil que eu via nas capas de revista quando era pequena, e que me espantava pela proximidade do que via nas ruas. Ontem éramos o presente de um passado que se repete substituindo qualquer futuro. Ontem não teve festa.

É certo, entretanto, que quem tem fé vai a pé, como se diz aqui na Bahia. Acordei cedo, me vesti de branco e de contas no pescoço, com perguntas sem resposta. Saí cedo com modestos presentes, saudei Oxum na mina e agradeci porque ontem éramos um país que tira água de pedra. Kaokabecile, Xangô – que os arquitetos de toda esta desgraça sintam o peso de seu Machado.

Caminhei entoando bem baixinho cantos de louvor à Grande Mãe. Enquanto atravessava a rua pra chegar ao mar, notei que notavam o branco de minhas vestes frente à minha pele branca e notei que eu notava outras pessoas de vestes brancas e colares de contas, com e sem seus ojás, caminhando ou sozinhas ou em grupos pequenos de duas ou três pessoas. Garoava como se o dia fosse noite de eterno sereno. As pessoas nos pontos esperando seus ônibus, e na roda de nossas saias estava grafado o desejo de que pudéssemos girar sem ataduras no rosto, como se Rum, Rumpi e Lê fossem crianças travessas correndo pelo terreiro de areia. Entreguei meus presentes, e logo voltei para casa. Porque, afinal, mesmo que na minha família seja 7 de setembro o dia da Rainha do Mar, foi na Umbanda de Ponto Cruzado que meu corpo veio ao mundo.

Ontem havia tanto por dizer ao mar…Mas a garoa pequena que desenhava pontinhos na areia parecia dar o tom de silêncio que antes eu só conseguia escutar nos cemitérios. As pessoas de brancas vestes se falavam por meio de algo que era impossível de dizer. É no silêncio que aprendemos a cantar com os batás. É no silêncio que aprendemos a falar a língua dos orikis. É Silêncio e Tempo de Orixá que toma (o) corpo. Mas ontem era silêncio outro.

Ontem rezei silenciosa pelos mortos de hoje. Ontem rezei silenciosa pelos corpos negros de ontem que tingem o fundo do Atlântico Negro*. Mas ontem rezei também no silêncio que, nas palavras de Eni Orlandi (1999), é prenhe de sentidos. Porque aprendi com minhas/meus professorxs que a linguagem é feita de muitas vozes que disseram antes do meu dizer, mas que a linguagem também é feita de silêncio.

Eni Orlandi** (1999:31) disse que talvez a gente precise, “ao invés de pensar o silêncio como falta, pensar a linguagem como excesso” . Excesso de mortes dos mesmos, excesso também nas palavras que profanam corpos mortos em covas rasas: “é só uma gripezinha”, que estaria “superdimensionada” porque “todos vamos morrer um dia”, “e daí?!”, então “cobre de seu governador” porque a gente “não precisa entrar em pânico”.

Não à toda, ontem o povo de santo renovou sua fé no mesmo silêncio com que aprendemos a dobrar a folha de bananeira – silêncio que fala. E o que me conforta, olhando pra o mar, é que nossa Grande Mãe Iemanjá aqui sempre esteve, testemunhando injustiças e apaziguando nossas cabeças e dores.

Ontem tanta gente chorou diante do mar, que acho que, em silêncio, Mãe Iemanjá pegou a matéria de nossas lágrimas de água e sal, misturou em seu grande ventre, e acordou ainda mais imensa.

¡Jekua, Yemaya!

¡Odoooo Ya!

¡Saravá, Mãe d’Água Rainha do Mar!

* Referência ao livro de Paul Gilroy, Atlântico Negro.

** Eni Orlandi, As formas do silêncio.