GrupA: sobre trabalhos y encruzilhadas

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GrupA de Práticas em Análises de Discurso (logo)
 Pomba-Gira cigana, Exu-mulher
 guarde-me em sua quartinha
 pois nada sou sem seu colar de contas
 pois nada posso sem sua mandinga
  
 “Toada Ndongo”, do livro “366 poemas para 2020” (mimeo) 

Desde 2016, coordenamos a GrupA[1] (Grupa de Práticas em Análises de Discursos/CNPq), no Instituto de Letras (ILUFBa) da Universidade Federal da Bahia. Apesar de o grupo de pesquisa se abrigar no ILUFBa, somos constituídos por estudantes provenientes de diferentes cursos – Bacharelados em Humanidades e Artes, Ciências Sociais e Pedagogia, bem como por pessoas sem vínculo institucional.

Para além de um dado, essa diversidade de formações acadêmicas diz de nossa proposta política de atuação na Universidade, uma vez que nos fundamentamos na pedagogia crítica de Paulo Freire para afirmar que qualquer pessoa pode fazer pesquisa científica, basta que haja orientação adequada e um ambiente acolhedor. É nesse sentido que afirmamos que a GrupA é um grupo de popularização da pesquisa científica. Popularização, assim, adquire um viés específico, no que entremeia os sentidos de constituição das classes populares, em detrimento de práticas científicas que desconsideram as condições materiais de produção dxs[2] cientistas.

Na GrupA, nossos trabalhos são arriados em diferentes encruzilhadas, mas sobretudo em encruzilhadas-fêmea que entrecruzam os Estudos Feministas (particularmente o Feminismo Negro e o Feminismo Pós-Colonial), a História das Ideias Linguísticas e o entremeio Análise de Discurso-Semântica da Enunciação. Nesse entroncamento de saberes, oferendamos um questionamento que nos funda: de que maneira, e por meio de quais funcionamentos, a interseccionalidade[3] – conceito-ebó de Feminismos Negros – se faz marcar na língua-materialidade-do-discurso?

Isso porque, quando perguntamos à encruzilhada-fêmea se a interseccionalidade, tal como compreendida por Lélia Gonzalez, Kimberlé Crenshaw, Carla Akotirene e Patricia Hill Collinss, se marcava na língua, Eshu-Elegguá nos respondeu com dois búzios abertos e dois búzios fechados: eyeife, lo que se sabe no se pregunta. Com esse sim em mãos, nossas pesquisas com a GrupA desde 2016 tem se dedicado a compreender os modos de a interseccionalidade se discursivizar na língua.

Na primeira parte dessa investigação, entre 2016 e 2018, analisamos a comensurabilidade epistêmica entre a Análise de Discurso de cunho materialista e as ideias linguísticas de diferentes intelectuais negras que trata(ra)m da questão interseccional. Ao mesmo tempo, as outras pesquisadorxs da GrupA desenvolviam trabalhos de Iniciação Científica (IC) a respeito de temáticas que colocavam em funcionamento discurso e interseccionalidade. Foram então produzidas pesquisas sobre o genocídio da juventude negra (particularmente sobre a Chacina do Cabula), questões de gênero na história do ensino de biologia no Alto Sertão da Bahia, lei do feminicídio, lei antibaixaria, geração tombamento, funk produzido por travestis e mulheres trans*, dentre outros trabalhos que não chegaram a ser concluídos. Em todas essas pesquisas de IC, o objetivo foi pensar a discursivização da interseccionalidade.

No fim desse primeiro projeto, compreendemos que se, por um lado, a Análise de Discurso tinha pouco a dizer aos Feminismos Negros, por outro, os trabalhos que construíam esse entremeio acabavam por trazer reflexões importantes para compreendermos as relações entre linguagem e ideologia, que se fundam na intersecção de raça, gênero/sexualidade e classe. Foi a partir dessa compreensão que, em agosto de 2019, nos unimos em um projeto comum a fim de investigar as nomeações de grupos minoritários em dicionários gerais de Língua Portuguesa.

Na primeira fase desse segundo projeto, nos detivemos em nomeações de gênero, e procuramos compreender, em verbetes como mulher, homem, pai e mãe, se e, se sim, de que maneira, esses verbetes mobilizam as estruturas de raça e de classe para sustentar as nomeações e definições de gênero. A partir de 2020, passamos a pensar sobre uma política de nomeação racial nesses dicionários, investigação que está em curso. Ainda estão previstas mais duas etapas, a fim de investigarmos nomeações de sexualidade e de classe.

Às encruzilhadas, oferendamos bell hooks (2013:273):

“A academia não é o paraíso. Mas o aprendizado é um lugar onde o paraíso pode ser criado. A sala de aula com todas as suas limitações, continua sendo um ambiente de possibilidades. Nesse campo de possibilidades temos a oportunidade de trabalhar pela liberdade, de exigir de nós e dos nossos camaradas uma abertura da mente e do coração que nos permita encarar a realidade ao mesmo tempo em que, coletivamente imaginamos esquemas para cruzar fronteiras, para transgredir. Isso é a educação como prática da liberdade.”

bell hooks, em Ensinando a Transgredir – a educação como prática da liberdade


[1] Grupo de Pesquisa certificado pelo Diretório Geral de Pesquisa do CNPq: dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/8017618527919444

[2] A fim de abarcar pessoas não-bináries, mulheres e homens, escolhemos (des)marcar o gênero de palavras binárias que referem a pessoas com um ‘x’.

[3] “A interseccionalidade impede aforismos matemáticos hierarquizantes ou comparativos. Em vez de somar identidades, analisa-se quais condições estruturais atravessam corpos, quais posicionalidades reorientam significados subjetivos desses corpos, por serem experiências modeladas por e durante a interação das estruturas, repetidas vezes colonialistas, estabilizadas pela matriz de opressão, sob a forma de identidade. Por sua vez, a identidade não pode se abster de nenhuma das marcações, mesmo que nem todas, contextualmente, estejam explicitadas.” Carla AKOTIRENE – em Interseccionalidade (2019:24). E: “Ao invés de ver as pessoas como uma massa homogênea e indiferenciada, a interseccionalidade fornece uma janela para explicar como as divisões sociais de raça, gênero, idade e nacionalidade, entre outras, posicionam as pessoas diferentemente no mundo, especialmente em relação à desigualdade social global” Sirma BILGE e Patricia Hill COLLINGS, em Intersectionality (2016:15).