Sobre Isadora Machado

Tengo la edad del rocío. Nací del Obí de Oshun y Yemaya. Hermana de las islas aisladas, sigo viva en el pueblo de los atravesado. Ahijada de Padre António de Aruanda, del Padrino Ifaladé y de la Madrina Oshun Bomire. Aprendiz en periodismo y traducción.

quem tem Tempo, tem tudo

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Foto: Ceiba de 200 anos do Jardim Botânico / 2022

Pra S.B.

eu conheço bem essa dor que te mastiga a alma. sei de cor seus amuletos. caminhei por esse chão de brasa e, olhe para as solas dos meus pés: elas ainda formigam a sensibilidade tirada à fogo. olhe para mim. no fundo de minha íris colorida mora um mapa – caminhos sabotados, dor antiga, inocência aniquilada.

é verdade que queria te abraçar a parte da alma que ainda doi. também é verdade que te colocaria dentro de uma caixinha, pra depois sair a cortar cabeças.

tiraria dessas cabeças o escalpo com as garras afiadas que levo nos pés e, depois de jogar os escalpos para os urubus, voltaria em voo de 45 graus, descendente e veloz, a comer, com esse bico encurvado que levo na boca, o cérebro desmemoriado dos covardes. rasgaria a margem medial do pescoço de cada um, e novamente as cabeças de teus inimigos eu levaria, com meus pés de urutau, a voar pela orla da cidade. até que todos vissem, um a um, seus algozes degolados pela fúria do meu umbigo cheio de mundo.

eu, que tenho poderes ocultos na ponta de cada dedo, te acarinho o rosto no intento, eu sei que vão, de fazer que a magia dos dias dourados do mar da Bahia cubra cada poro aberto pelo suor dos dias de medo.

também eu quis ser outra pessoa. também eu invejei a cada um dos mendigos os andrajos e as chagas e os invejei só por não se eu. também eu estou farta de semideuses. também eu quero voltar.

mas, antes, queria que a gente quisesse outros quereres – que onde você quisesse revólver, eu já fosse coqueiro onde você treparia até esquecer do ar ma dorismo dessa gente besta; que onde você quisesse dinheiro, eu já fosse pai e chão de mina de ouro de prata dessas pedras preciosas. E, assim, que onde eu fosse só desejo, você pudesse descansar sem pressa suas asas cansadas de voar muito alto, mas só.

havia tempo que Tempo não parava pra espiar a gente brincando em sua sombra. eu aproveitei para dizê-lo que não temos muito tempo. eu lhe disse: Seu Tempo, cuide da gente, que pra frente lhe dou um presente.

Tempo sorriu. me abraçou com seus longos braços galhosos, e me respondeu: quem tem Tempo, tem tudo.

aí eu entendi que vai ficar tudo bem.

penteando cabelos

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desperto antes de abrir os olhos. escuto, antes da luz, o recado de meu Padrinho. tenho medo de conduzir a escuta de modo que seja dito meu desejo. acato. os fatos se apressam a derrubar o que pode haver de margem entre meu corpo e travesseiros, mas lençois. também a caneca com um dedo do chá que sobrou de ontem. já há luz lá fora: primavera que anuncia a chegada de dias mais longos.

zênite. me estico. alongo a sensação do corpo.

tão logo me percebo gente, volto ao quarto a pentear cabelos. me demoro nas pontas. tento desembaraçar os sonhos dos nós embolados. me desfaço do que poderia haver ainda de resquício da noite. um pouco de cabelo se prende ao pente, outro pouco cai pelo chão. o gato aponta o focinho até meu joelho. eu olho pela janela. o mar.

é difícil me fazer de novo depois de desfazer sonhos nos nós dos cabelos. prefiro trançá-los para começar o dia. deixo a febre para resolver mais tarde. por enquanto, é dia. por enquanto, há sol. por enquanto, vivo a primavera.

há dia. mas se o tranço, é para cabê-lo.

hoje muda tudo

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Update 10/09/2022: Esse texto foi escrito em 2019. Hoje não tá dando pra comprar azeite.

É sempre difícil saber quanto tempo leva pra uma decisão do presidente, junto com o Congresso – com o Congresso, com o Supremo, com Tudo, chegar até nossa geladeira. Mas eu me lembro: fiz minha primeira campanha política para o PT em 2002, aos 15 anos (obrigada, Lucimar Barbosa PT-ES), e só em 2006 na minha casa começamos a comprar azeite doce, que colocávamos em comidas que poderiam ser armazenadas na nova geladeira recentemente adquirida com ajuda do incentivo fiscal do governo.

Autor desconocido por mi

Azeite doce era uma coisa que não tinha lá em casa até então. A novidade fez sucesso. Tudo era motivo pra comer azeite doce. Arroz com azeite doce. Feijão com azeite doce. Ovo frito no azeite doce? Que delícia!

Por causa do azeite doce, eu passei a acreditar, então, que levava um certo tempo pra que uma decisão do povo – junto com o Congresso, com o Supremo, contudo, chegasse até nossa geladeira. Mas descobri que me enganei. Não leva tanto tempo.

Hoje foi o dia que pesou. Sabe quando a gente sente que tá com uma bola de gude dentro do coração? Então. Foi hoje. Hoje foi o dia que eu vi o riozinho de sangue, escorrendo da ferida aberta pela facada que a Educação brasileira levou em abril de 2019.

Hoje foi o dia que o Instituto onde eu trabalho anunciou que desligarão, na marra, pra ninguém tentar ligar, todos os aparelhos de ar-condicionado do prédio.

Hoje foi o dia que o Instituto onde eu trabalho anunciou que não haverá bebedouros nos andares ímpares.

Hoje foi o dia que descobri aquilo que jogou a gude com força no meu coração: 400 alunxs perderão o auxílio-alimentação arbitrariamente. Não precisava nem ser comida com azeite doce, mas 400 pessoas não terão o que comer a partir da próxima segunda-feira, caso não justifiquem uma série de arbitrariedades.

Hoje descobri, porque fui reservar o auditório da Universidade onde eu trabalho, que não poderei oferecer curso de extensão aos sábados, já que não se pode mais fazer curso de extensão aos sábados – somente de segunda a sexta, de 8h às 18h. Que massa! Se você é trabalhadorx e quer fazer curso gratuito na Federal, coma biscoito e volte duas casas.

Hoje foi o dia que descobri que a decisão do presidente, e a mudança na nossa geladeira, acontecem no mesmo dia: hoje. Hoje muda tudo.

Hoje muda quando eu descubro o riozinho de sangue. Hoje também muda quando eu experimento o azeite doce.

Não deixe para amanhã a mudança que precisamos fazer hoje. Do sangue no olho que está nos faltando, estanquemos a ferida aberta na sociedade brasileira, costurando a universidade necessária – pública, gratuita e para todxs.

Há muita pela frente.

https://youtu.be/mnNwoA0Dhjk A nosotrxs, la dignidad rebelde

TODOS OS NOMES DE DEUS

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Arquivo pessoal.

Aparentemente, Necrópsias da Memória será um livro da velhice. Deixou de fazer sentido escrever um livro de memórias aos 35 anos. Há muito ainda por descobrir desse passado. Peças de resina. Pontes de safena.

Na minha última sessão de análise, falava sobre pequenos fragmentos de memória que vinham a tona. Sobre o entendimento de que não preciso me preocupar em lembrar tudo porque não existe algo assim. Dizia que hoje entendo que, às vezes, uma lembrança emergindo desse aquário sem luz  de peixes sem olhos que eu chamo de passado, é talvez a possibilidade de narrar aquilo que ainda é informulável.

Quantas vezes eu tive certeza sobre fatos, sobre o modo como as coisas se deram, e depois havia nuances que me escapavam? Não foram poucas.

Levei os seis primeiros anos de análise para formular um trauma da infância. Mas no começo desse ano, lembrei de uma parte desse acontecimento traumático que estava no campo do informulável. Achei que eu fosse me partir em 201 pedaços. A imagem que veio à consciência era um frame de 3s. Um gif. E eu tinha tanto asco, que poderia ter colocado fogo no meu próprio corpo não fosse esse trabalho analítico que vai me dando ferramentas pra oxigenar o sangue.

2013 ainda está no campo de muitas informulações. Mas diferente do trauma infantil, sinto agora certa tranquilidade de dizer em análise que está tudo bem. Que não lembrar é uma maneira também de lidar com a questão, que vai se trabalhando por outras vias.

Uma vez eu disse a minha analista, tentando descrever a sensação de ‘cura’ em relação à infância, que eu tinha sido capaz de fazer uma ponte de safena, deslocando os fluxos de sangue, reconectando duas partes sadias da minha história, e deixando que a parte gangrenada fosse absorvida pelo corpo. Isso me permitiu voltar a experimentar afetos que eu não me lembro quando deixei de experimentar. Havia vida antes do trauma, e uma vida em que fui tão amada, que não poderia mais ignorar esse amor. Isso tem me transformado de muitas maneiras, porque uma espécie de amor próprio, que até então eu desconhecia, passou a fazer parte de mim, do que tenho me tornado.

Ao falar de 2013, escutei minha analista dizer que era como se eu estivesse fabricando peças de resina para colocar nesses pontos cegos da narrativa do trauma.

Pontes de safena. Peças de resina.

E, nisso tudo, “Necrópsias da Memória” não faz mais tanto sentido. Quero mais peças e mais pontes. Talvez manter a proposta da literatura de testemunho, mas em outro momento, quando eu me sentir mais confortável em fiar e desfiar a trama.

Por enquanto, então, me dedico a contar a história de Nijila del Ndongo, minha adorada pomba-gira cigana. A pedra foi cantada por meu amigo, o também escritor Rodrigo de Roure: por que você não escreve a história da sua Padilha? Eu lhe contei de um sonho que tive com ela, em que ela me mostrava o último túmulo dela, em Fez, no Marrocos. E desde então essa mulher não me deu sossego, no bom sentido.

Certamente é um livro que vai me exigir um trabalho de pesquisa bastante extenso, talvez de anos, já que ainda não é possível apenas escrever. De todo modo, me afastar de Necrópsias da Memória e investir em ficcionalizar a vida de outra pessoa me trará saúde, a saúde apolínea que venho cultivando nesse solo fértil que chamo de corpo.

“TODOS OS NOMES DE DEUS”, vem aí meu segundo livro. Tudo posso na Pomba Gira que fortalece. Laroye ♥️

Solidariedade a Matanzas!

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REPOSTAGEM DE

https://convencao2009.blogspot.com/2022/08/medicos-brasileiros-inicia-campanha.html

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Médicos brasileiros iniciam campanha para enviar medicamentos para Cuba

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Acidente em tanques de petróleo em Cuba | Foto: ABAB/Twitter

Por Sturt Silva 

Médicos brasileiros formados em Cuba estão iniciando uma campanha para comprar remédios e enviar à ilha socialista. Quem puder pode ajudar fazendo um pix ou depositando um valor na conta da Câmara Empresarial Brasil-Cuba. 

Entenda o motivo da campanha lendo o comunicado abaixo: 

Estimadas amigas e amigos 

A essa altura a maioria de nós já sabe da tragédia que se abateu sobre Cuba com um incêndio na província de Matanzas. Em razão desse grave acidente, o Grupo de Médicos Brasileiros Graduados em Cuba inicia agora uma campanha emergencial que esperamos todas e todos se agreguem. 

Comitê Carioca de Solidariedade a Cuba se une à Campanha no primeiro momento e convoca as pessoas solidárias do nosso país. 

Desde sexta-feira há um incêndio de grandes proporções acontecendo em Matanzas (Cuba) que continua sendo debelado. Mais de uma centena de feridos estão internados em hospitais.

Um grupo de médicos brasileiros e demais pessoas solidárias a Cuba inicia hoje uma campanha emergencial para enviar daqui do Brasil uma série de medicamentos como pomadas para peles queimadas, antibióticos e analgésicos necessários para o tratamento desses feridos. Por causa do bloqueio que os EUA impõe a Cuba há mais de 60 anos, há falta de medicamentos no país. 

Uma companheira que viaja a Havana este mês vai levar esta primeira leva de remédios. Por isso estamos iniciando hoje (07/08) uma campanha emergencial especialmente para minorar o sofrimento de pessoas que se encontram com queimaduras e precisam de pomadas e analgésicos para suportar as dores. 

Quem quiser contribuir, pedimos que usem as contas e pix abaixo fazendo um depósito usando o final do valor 0,05 para identificar a campanha. 5 foi o dia do acidente. 

Os dados: 

Câmara Empresarial Brasil Cuba 

 Pix: CNPJ 34.131.511/0001-64 

Depósito no Banco do Brasil: 

Agência: 4770-8      Conta Corrente: 13844-4

Mahmoud [Necrópsias da Memória – exercício n.3]

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[início, então]

Sara sabia que naquela terra não poderia haver larvas. Mas Sara também sabia que quem convive com Tecas, farelo come. Sara jogou a larva dentro da jarra de água. Sara acompanhou até o fim os movimentos sutis da larva de Teca. Sara rezou três pais nossos e duas ave marias pela larva de Teca. Se o roubo da caixa de fósforos havia convertido Sara, junto com a vitória de Amsterdam, em Imperatriz, o assassinato da larva, Sara pressentia, carregava um giro acentuado a uma guerra que apenas começava.

Mahmoud, estava escrito na parte de dentro da caixa de poucos fósforos. Rue des artistes, número esquecido, estava escrito na parte de dentro da caixa de poucos fósforos. Impossível saber quantos fósforos ali havia. É provável que tenha roubado a caixa, ao invés de pegado por engano. Certo é que Sara só descobriria o nome grafado dentro da caixa algumas semanas depois.

All eyez on me – Necrópsias da Memória [exercício n.2]

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II

Babe, I’m trouble.

Passei então a observar três ou quatro mulheres nas cadeiras de praia brancas. Uma das mulheres é proeminente. Os seios reluzem olhos. All eyez on me. O furúnculo só vaza depois que o olho cresce. Quando a água cai no ralo, olhos nascem. Olho de carnegão. Verme tem apenas um olho. Os seios da japonesa, expostos em topless. Seios de larvas, seios de olhos. Só Sara via os seios cheios de olhos. Olhos, ou pequenos dispositivos de rastreio conectados a satélites? Sara entende algo, com pouca nitidez. A mulher se move com feições nipônicas. Entendi tudo, regurgita Sara. Eu espremo minha mente em vão. Era aquela a mulher mais poderosa de toda a Yakuza. Olho muito os olhos dos seios da mulher mais poderosa da Yakuza. Olho até ser vista. Por que me abandonaste, Shango? A polícia chega. A dona da casa onde estou hospedada se aproxima. Mme Bezombés escarafunchando ao redor do galinheiro escondido insinua um gesto pouco compreensível até então. Não era Sara que ela esperava a alugar a casa. Disse que esperava Teca. 

Eu já havia passado pelo pequeno caminho que dava até a piscina de sapos. Foi assim que descobri o galinheiro. Eu não via as galinhas, mas sabia que elas estavam ali. Eu podia ouvi-las. De repente, os piolhos de galinha infestaram minha cabeça. Já sem margem nem espaço de manobra, eles descem pela minha nunca, acompanhando o ritmo surdo de minha medula. Chegam até meus pés, e retornam. Cada poro passou a abrigar um piolho de galinha. Então já não eram mais galinhas, eram pássaros bastante grandes. 

Eu temia que a mulher mais poderosa da Yakuza entrasse no mar. Eu temia que ao entrar no mar a mulher mais poderosa da Yakuza enfestaria as águas de larvas robóticas. Sara treme. Eu via a tragédia se aproximar. Todos estariam comandados pelos olhos robóticos implantados pelas larvas. Até que ponto haveria mundo possível se a mulher mais poderosa da Yakuza se banhasse nas outras águas que seriam sempre as mesmas depois dela? Talvez a mulher não fosse a mais poderosa da Yakuza. Talvez fosse apenas uma dissidente. Ainda não estava pronta para talvezes. Tudo fazia sentido.

         Mme. Bezombes não sabia que os funcionários do resort me protegeriam. Amavam a Sara os subalternos, todos, menos os que não eram.  A polícia pouco acreditou no que via. Je suis enceite. Estoy embarazada. Fucking pregnant! Não haveria língua para dizer isso e ficou por aquilo mesmo. Eu até gritei o nome do Pai. Ela não acreditou. Por mais que eu tentasse me desvencilhar, algo sempre retornava para me lembrar que ninguém muda o próprio destino.

  A mulher mais poderosa da Yakuza se moveu ao estacionamento. Sara a seguiu. Os funcionários do resort aparavam a grama. Eu lato, com toda defecção do verbo. A mulher mais poderosa da Yakuza late de volta. A mulher mais poderosa da Yakuza latia de modo generalizante. Todos os funcionários do resort gargalharam.         Eu vestia uma camiseta com a qual havia ganhado a batalha de Amsterdam e uma calcinha grande de algodão cobria quase toda minha bunda. Lati até o fim. A mulher mais poderosa da Yakuza se vai com o motorista no 4×4. Enquanto fecha os vidros olha Sara como quem não iria embora. Meu coração late ainda pior.

Oui Je vois – Necrópsias da Memória [ensaios]

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Frida Kahlo, La cama volando (1932)

I

Imagine toda a água do corpo. Agora imagine toda a água do corpo, drenada. A água do corpo drenada goteja no côncavo direito da caverna. Há uma fogueira. A fogueira ocupa o côncavo direito da caverna. Toda a água do corpo drenada para sempre goteja sobre a pequena fogueira. A pequena fogueira perpétua mantendo-se óbvia no côncavo direito da caverna.

         – Tu vois?

         – Oui, je vois.

 Agora imagine toda a água do corpo drenada, sem saída ou ganas de evaporar. Sem subida, sem muro. A água do corpo, drenada. Forasteira de si. O assombro servil do passado ocupa tudo que não é água. De que comerá e beberá este corpo? Sara: 70% água, 30% assombro.

 Lá fora renovam-se grandes pássaros na entrada da caverna. Tudo mais é abismo. Sara está deitada entre ervas incandescentes. Agora imagine ervas incandescentes brilhando mais que a fogueira. As chamas amarelas da fogueira consomem fotografias bailarinas do lado direito do côncavo da caverna donde goteja toda a água drenada do corpo.

 Sara, inconsciente, experimenta a leveza de dias que não chegam. O dono da profundeza dos mares se aproxima do corpo repousado de Sara. Toda a água drenada do corpo, incólume ao dono da profundeza dos mares. Sara mente a putrefação de um útero carcomido. Sara obriga um útero profanado por memórias de dilúvios. Sara treme.

 O dono da profundeza dos mares toca a cicatriz que carrego no fim da barriga. Cicatriz de feto morto. Uma cesárea abortiva, uma quimera. Sara vê o sangue escorrer pelas pernas. Não sustento nem a mim nem aos fetos. Joel imolou não apenas minhas entranhas. Joel me tomou o lampejo de um futuro possível. A vida, um trem sem trilhos. Sem sombra de fé, todos os fetos exalam um cheiro enferrujado de sangue. O dono da profundeza dos mares toca a cicatriz de um feto assassinado, mas eram dois.

 Ausência marcada na pele, nove encruzilhadas recobrem a divisão entre pelve e vulva. Sara desconhece algo mais grotesco: os pelos do corpo seguem crescendo depois da morte. Unhas também. O pênis de Joel, sempre teso, dilacerava já o vazio. A arma repousava a meu lado. Olhava para o teto. O teto se abria especular. O pênis de Joel friccionava contra as mucosas vaginais não mais um pênis. Friccionava um peso de nuncas e de impossíveis ao meio dia. Minha visão desfocada. Eu não pensava. Olhei para o lado direito da cama, e senti o cheiro de pólvora vindo da pistola semiautomática. Olhei para o lado esquerdo da cama. Um caixão. Um caixão para fetos. Me quebrei em duzentos e trinta e um pedaços e me enterrei ali a mim mesma. Memória é o pedaço de tempo que não passa. Cada centímetro do corpo comido por centenas de larvas angustiadas. Corpo vai. A memória não coube no caixão. Só os fetos.

Not children, you see? Just eggs.

O dono da profundeza das águas prepara uma beberagem sutil. Suspende o tronco de Sara. Os braços pendem. Sara é bebida pelas ervas. Evapora-se. As pedras pensam com a memória que lhes é outorgada. Meus cílios crescem. Precisava Joel ter matado os gêmeos? Ou bastaria apenas ter me matado?

Je sais pas. Tu vois?        

Oui, je vois.

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As dores nos antebraços voltaram. É possível que seja minha tireóide reclamando do lítio. Lítio que, por sua vez, diminuí e está me causando certo constrangimento tê-lo feito. Quando doem os braços, me encho de uma melancolia desfavorável. Procuro revisitar penhascos. Recordo o caminho estreito dos abismos. Me lembro do revólver. Me lembro da faca que escondi no banheiro. Algumas memórias retornam, envoltas em névoa branca. Ainda assim, insisto. E insistir é só um jeito de saber que parar é pior que caminhar com dor. Não há afeto. Há escassez de contato. Sugam minha mente quando já não podem violar meu corpo. Eu me canso. Eu estou profundamente cansada do tanto de desimportâcia que habita nos dias que esquecem de virar as folhas dos calendários. Há uma dor que taquigrafa rugas na minha pele. Mas, sei, sou a única anciã das páginas que escrevo.

[in]

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Indizível. Invisível. Informulável.

Livros. Planos. Deixa fluir. Mudar tudo de lugar. Refazer as rotas. Recalcular distâncias. Medir o caminho seguro do passo que me anda mais do que as pernas fibrilam aguentar. Eu digo que não aguento mais. Meu corpo ri. Meu corpo gargalha. Meu corpo diz: vambora.

TV. Gato amarelo. Gato preto. Quadros. Caixa de transporte de gatos. Saia. Sutiã. Foto do irmão do David. Minhas fotos. Xícara sem café. Prato sem cuscuz. As estantes. Livros em cima da mesa. Escada. Ceibas. Cortinas. Congá. Sim, o mar. O barulhinho.

Tudo isso porque eu precisei de uma arrumação onde eu pudesse ver o mar deitada na cama. E, ar condicionado para trabalhar e não para dormir. Dormir menos. Escrever mais.

Sempre pensar em ir. Há aquela angústia que não se engana: não adianta dizer se meus pares não podem ver. Eu também não vejo. Desse não ver gostaria de ao menos dizer que não ver é então caminho de desesperação.

Meu corpo diz vai dar certo. Dorpo. Os músculos já rígidos de tanto esquecer. Fortalecer as coxas quem quiser escrever. Segunda conjugação: verbos terminados em -er.

Do não poder me mover, sondo meu destino em outro patois. Não chegar ao ponto em que não se diz mais eu, mas ao ponto em que só posso dizer an mwen. Rotas de fuga, e os trechos abdicados do sangue. Me faz falta tudo aquilo que não lembro. De não lembrar cresce, toma ar.

Um pouco de possível senão eu sufoco. Sim, Déli. Sabemos. Oremos para que você leia minha carta. E está de volta o senhor assediador do prédio da frente. Eu queria que ele caísse dali igual você se jogou da janela do hospital, Déli.

Associar para integrar. Parece palavra de ordem. É também.

Há um sol morando dentro de mim. De ontem pra hoje, já me chamuscou as entranhas várias vezes. Não importa. Hoje ajusto a válvula desse fogareiro.

Geliad. É a palavra que me perseguiu no sonho dessa noite. Já sei o que fazer com ela e por isso vou mudar todos os cômodos e todos os móveis de lugar.

Nada nada nada será como estantes.

Fibromialgia da alma

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O corpo dói. O músculo do antebraço dói. Engolir dói. Respirar dói. Preciso me levantar, dói. Mover o olho pra me vestir de sol dói. Amarrar o cabelo dói. Deixá-lo caído no rosto dói mais. Prender a respiração dói. Soltar o ar dói. Esticar as pontas dos pés dói. Olhar pra o lado dói. Ter muita coisa pra fazer dói. Não fazê-las dói. Acordar dói. Dormi e sonhei que alguma coisa doía.

kintsugi

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Foto: Expansion / Bronce with Electricity de Paige Bradley disponível em Adrian Caballero

O dia que começa quando abro o olho às 4:30am pra tomar minha dose de tiroxina é silêncio, breu, gatos dormindo, fé.

O dia que começa quando abro o corpo às 5:20am pra tomar minha dose de café é passarinhos, lusco-fusco, gatos miando, desconfiaça.

O dia que começa quando tomo meu combo de sanidade comprimida e abro a agenda às 6:00am pra tomar minha dose de realidade é ônibus passando, solzinho, gatos contemplando, lucidez.

O dia que começa quando abro a janela do passado não tem hora, é a qualquer momento angústia, calor sem água, nublado, dor, asco, despedaço, gatos um de cada lado.

O dia que começa quando tento fechar as janelas do passado não tem manobra – desmoronar, dormir embaixo dos escombros, dar a mão a quem me guarda, encontrar saída, e gatos lambendo feridas.

Um dia as pessoas vão começar os dias me vendo pela areia da praia, e hão de se espantar: é uma mulher, ou uma voadora cerâmica quebrada que foi reparada com aquela mistura de ouro em pó?

Caos

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-AD (Pexels/Wordpress)

A decisão no fio da navalha. Levantar e seguir o dia, ou fazer do dia uma noite prolongada por cortinas fechadas e olhos acesos. É preciso decidir. A vida, entretanto, parece não desejar outra coisa que isso, continuar a despeito de.

Violências sequestraram meu corpo. Corpo devolvido, não o reconheço mais. Os sequestradores roubaram a paz que morava bem ali, no meio do peito? Sim. Libertaram um corpo que de tão estraçalhado já não é mais possibilidade de liberação.

O corpo no fio da navalha. Juntar os destroços e colar cada pedaço dizendo “eu”. Mas também flertar com a possibilidade de que cada parte dobre por si outros organismos já que a diferença quer diferenciar.

Acolher. Ressignificar. Continuar.

Ou, seguir dançando no fio navalha e criar assim uma nova dança. Eu, a bailarina do caos.

À venda, meu primeiro livro

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“Misantrópolis”, meu primeiro livro, já está à venda no site da Editora Urutau.

Misantrópolis
Isadora Machado


“então seu corpo já não significava o meu, e, em não sendo tua, lanço-me às gentes como me lancei um dia distante às feras. Escorro ainda o cheiro onírico do sangue, gangrena esparsa. Infeccionada a pele ferida das costas, deito-me brasa em leito estrangeiro. De longe, vejo meus órgãos alimento das feras. Elas me levaram o ventre inflamado.”

Disponível em: https://t.co/rQtmWNl9Cu


Saravá 🌻

[tradução de pronunciamento] Ministro da Defesa da Rússia: amostras de coronavírus de morcegos encontradas em bio-laboratório americano sediado na Ucrânia

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TRADUÇÃO de:

Bat coronavirus found in U.S.-funded bio-lab in Ukraine: Russian Defense Ministry disponível em: http://www.news.cn/english/20220311/3c600e81ebb0459a913b9899a5db2717/c.html

O porta-voz do Ministro da Defesa da Rússia, Igor Konashenkov, disse que os experimentos com amostras de coronavírus de morcegos foram recolhidas em laboratórios biológicos criados e financiados na Ucrânica. #GLOBALink

“O Ministro da Defesa da Rússia continua trabalhando na análise de documentos a respeito de atividades biológicas militares secretas do governo dos Estados Unidos em território ucraniano, submetidos por funcionários de laboratórios biológicos da Ucrânia. Especialistas russos da NBCP Troops estudaram documentos que tratam da transferência de biomateriais humanos para países estrangeiros, sob o comando de representantes dos EUA. Além disso, foram de particular interesse as informações detalhadas sobre a implementação de um projeto, liderado pelos americanos em território ucraniano, para estudar patógenos de aves que migram entre a Ucrânia, a Rússia e regiões vizinhas. De acordo com os documentos, o lado americano planejou organizar na Ucrânia, em 2022, estudos sobre patógenos de pássaros, morcegos e répteis, e estudos futuros sobre a
possibilidade de disseminar, por meio desses animais, a febre suína africana e antrax. De acordo com esses documentos encontrados, foram realizados experimentos com amostras de coronavírus de morcegos em laboratórios criados e financiados na Ucrânia. O propósito dessas e de outras pesquisas biológicas financiadas pelo Pentágono na Ucrânia era a criação de um mecanismo para a disseminação secreta de patógenos mais mortais. Em breve, apresentaremos outro conjunto de documentos recebidos de funcionários de laboratórios biológicos e também apresentaremos o resultado da avaliação desses documentos.” Fonte: Xinhua News/Russian Defense Ministry

Eu falhava jazz

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De repente, eu entendi porque aquele senhor contorcionista ia de mesa em mesa na Rua da Lama mostrando a extensão das linhas intensivas de seus tendões. Era preciso demonstrar quão forte se é.

De repente, eu entendi porque Dona Verônica me pedia sempre dez fotos e também entendi porque ela repetia o endereço em Itapuã onde ela não morava. Era preciso saber exatamente onde não ir nunca mais.

De repente, eu entendi. Entendi Estamira e Stela do Patrocínio. Eu mesma fui cada uma delas. De repente, eu entendi toda a loucura e tudo fazia sentido. Eu entendi os tiques,os risos, a raiva. Eu entendi o grito,e qualquer denúncia eu entendi também. Tudo entender era minha maior loucura.

De repente, eu falava e minha língua falhava jazz. Uma sintaxe improvisada para fora que eu sentia como toda possibilidade de organização por dentro.

De repente, era eu a linha que dividia the West and the Rest. Era eu. A escolhida para ser a plenitude da palavra falhada.

De repente, toda letra era minha e poderia me contar um ritornelo que eu já previa, tão esperado.

De repente também, não sou mais nem Estamira nem Stela do Patrocínio. Ainda mais de repente, me tornei o que nunca tinha sido: esquizo, porém linguista.

De repente, sou inteira de novo. Não me esqueço nem do Senhor Contorcionista, nem de Dona Verônica, nem de Estamira, nem de Stela, nem da raiva nem do riso. Fui condenada a lembrar de quando tudo fazia sentido.

De repente, a voz é minha e a esquizo-linguista vai falar a palavra falhada de Lélia Gonzalez: numa boa!

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Não chegou. A hora. O lugar. A vez. O tempo. Não chegou ainda o momento. A situação. O acaso. O ocaso. A possibilidade de laço. Ainda não. Não chegou. A hora. Eu estava ali no segundo marcado. Nada. Nem sombra. Nem dúvida. Nem pedido. Nem mensagem. Não chegou. O sinal de fumaça. O pombo-correio. O menino de recados. Nada. Quem reclama está com tudo em dia – o ebó, o abô, as contas, o amor. Aqui, não chegou. A carta. O telegrama. O e-mail. O carteiro disse que não tinha nada para mim. O tinder disse que já não havia pessoas por perto. Ainda não. Não foi dessa vez. Quem reclama tá de bucho cheio, por isso arrota. Aqui, por enquanto, nada. Até fui à vizinha perguntar se, caso, talvez. Mas não, nada. Recolhi minha tenda, fiz que demorei. Nada. O sol já se foi, mas volta amanhã. Nada é tão eterno que não possa retornar.

Não

O homem de gorro vermelho que não era Exu

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Eliseu Visconti

A sacola de supermercado que no Brasil são de plástico, eu joguei na lixeira da rua. Havia restos dentro. Joguei fora. Era parte do meu caminho jogar fora em lixeiras perto de minha casa as sacolas de supermercado que no Brasil são de plástico. Ontem pela manhã, no entanto, fiz um gesto deliberado de jogar a sacola no lixo. Que nem fosse no lixo de uma das das três lixeiras que tenho em meu apartamento. Que nem fosse na lixeira do condomônio. Que nem fosse na porta de meu apartamento, esperando que Senhor Abrolhos viesse buscar.

Só que ontem não. Ontem eu acordei cedíssimo. Caminhei até a lixeira da primeira esquina, e lancei a sacola dentro da lixeira pública, que era azul. As pessoas que estavam no ponto de ônibus esperando nada notaram. Isso me deixou ambígua. Era um gesto tão grandioso de minha parte jogar aquela sacola no lixo, que eu esperava um pouco mais de comoção. Drama. Sei lá, alguma coisa (urgentemente).

Eu fiz isso porque precisava esquecer a imagem do homem de gorro vermelho que não era Exu. Eu fiz isso porque precisava esquecer os olhos dele. Eu tinha uma urgente necessidade de não dar tempo para que minha admiração crescesse. Cortar o mal pela raiz. Só que tive que cavar mais fundo, te ver já me disse que você seria daquelas plantas que rizomam e arborecem sem método, para todos os cantos. Eu já tinha até escolhido a música para lembrar de seus olhos abaixo do gorro vermelho. Joguei os restos, tudo, joguei fora dentro daquela sacola de supermercado que no Brasil são de plástico.

O homem de gorro vermelho que não era Exu e aquela marquinha embaixo do olho esquerdo. Cicatriz de queda? Marca de nascimento? Escarificação? Eu tenho algumas obsessões, uma dela são essas escarificações que eu mesma fiz em meu próprio corpo numa mistura de doença e tentativa desenfreada de me atar a algo. Ato-me às escarificações das pessoas mais que às pessoas, porque às pessoas não posso me atar.

Eu joguei tudo fora na lixeira da rua perto de minha casa (a lixeira, não a rua): os restos, o gorro vermelho, os olhos. Guardei sem querer as escarificações e estou aqui me cuidando para não grudá-las a minha pele qual fossem adesivos. Até hoje pela manhã estava tudo bem, afinal. Mas hoje achei as escarificações que não tinha jogado dentro do saco de supermercado de plástico. Mas Inês é morta. E a morte é igual esse silêncio de ter jogado tudo fora, inclusive os pedaços desse homem de gorro vermelho: fico esperando que apite um sinal de trem, pra me dizer que o desejo está longe, mas vai chegar e fazer festa. A morte é essa espera de algo que nunca mais vai chegar porque se foi de um jeito tão ido, que só há pretérito perfeito a ser conjugado.

Eu me preparei para jogar as escarificações fora também. Eu me decidi a jogar tudo que fosse resto dele fora. Cheguei bem perto da lixeira. Só que estou, aqui cavucando a lixeira da rua perto da minha casa para ver se encontro a sacola de supermercado que no Brasil são de plástico. A fome é tanta que me meti aqui no meio de pessoas procurando comida e papelão.

Enquanto fuço lixo e rasgo sacolas, me dou conta que você se foi porque eu era quem eu sou. Entrego as latinhas de alumínio que encontro para a moça de camisa verde, e digo que, se ela encontrar uma sacola com restos e gorro e olhos, que por favor me entregue. Ficamos amigas, eu, ela e a fome. Não posso evitar e arranco a tampa da lixeira para deixar mais fácil a procura. Jogo fora as palavras que te fizeram partir. Minha amiga de blusa verde me devolve, lúcida: “quem joga fora palavras é mal agradecido, e mal agradecido tá sempre com fome”. Ela tinha razão. Continuamos a busca – ela por comida, eu pela fome de encontrar pedaços daquele homem de gorro e olhos e vistas primeiras.

A fome é tanta que ninguém reparou que estou no lixão procurando algum amor para reciclar. A fome é tanta que as escarificações se perderam. Será, pelo menos, que anotei seu telefone em algum lugar?

Anotações sobre as cores do mar de Ondina

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Foto: Abril de 2020, Ondina, Acervo Pessoal

Não estou aborrecido com ninguém. Mas sozinho pareço ver os amigos de modo mais nítido e belo do que quando estou com eles; e quando amei e senti mais a música, vivia longe dela. Parece que necessito de perspectivas distantes para pensar bem das coisas” – Nietzsche, Aurora, §485.

Quando comecei a estudar Nietzsche, em 2009, uma pessoa se surpreendeu: ‘mas você anda lendo tanto Nietzsche, e não comenta nada, acho que não está te transformando como me transformou’. Hoje é engraçado, mas na época me angustiei. Afinal, quanto mais eu lia Nietzsche, menos eu queria falar sobre Nietzsche. Ficava assombrada com a precisão com que Nietzsche descrevia certos comportamentos humanos. Me assombrava mais ainda as propostas de Nietzsche para a transvaloração dos valores e para a superação definitiva do demasiado humano.

Uma dessas propostas, talvez, fosse a mais assustadora. Eu escutava Nietzsche dizer: “primeiro, fique sozinha”. Eu me arrepiava. Depois, comecei a entender que essa solidão que Nietzsche me propunha era mais tomar distância, que me isolar. Há alguns anos venho entendendo que, em muitas ocasiões, tomar distância exige algum grau de isolamento. E, curiosamente, o isolamento social necessário nesses quase dois anos de pandemia de coronavírus foram decisivos para minha compreensão da solidão e da propedeutica da distância.

É também intrigante, a meu ver, a curiosidade que meu comportamento gera em algumas pessoas. Pessoas da minha família, inclusive. Volta e meia mamãe me liga dizendo “fala a verdade, Isadora, eu sei que você está namorando, você está muito sumida”. Mesmo que eu esteja há dez anos sem namorar ninguém de modo socialmente relevante, minha mãe sempre acha que quando eu me isolo mais, é porque estou namorando. Essa curiosidade, leio em certas atitudades, também é despertada em outras pessoas que não minha mãe.

Isso às vezes me irrita, porque eu detesto essa sensação de que tentam me controlar. Sim, porque às vezes perguntar insistentemente sobre uma presença é tentativa de controle. Pessoas amigas querem saber se estou bem, se preciso de alguma coisa. Não sou tão ingênua mais, e sei que frequência afetiva importa em todas as relações apesar disso Me llaman el desaparecido pero esa no es la verdad.

De qualquer modo, finalizar o pós-doutorado tem sido um exercício de tomar distância, a fim de construir uma perspectiva própria sobre certos temas. Aprendi com Nietzsche a construir perspectiva tomando distância. Pode ser que isso seja apenas um vício ocidental. Pode ser. Nietzsche, entretanto, foi o ocidental que mais atingiu as margens da vida ocidental. Continuo com ele então, até que eu possa pular o muro, ou encontre uma porta que seja aberta com minhas chaves.

Diante dessa mistura de curiosidade e controle, fiz algumas anotações relendo Nietzsche:

  1. A solidão é um fruto saboroso de desenlaces de coerções sociais
  2. A solidão é um dos métodos de afirmação da vida
  3. A solidão é tomar distância para construir perspectiva própria sobre a vida, e não implica sofrimento
  4. A solidão me permite apaziguar os efeitos de rebanho do gregarismo social
  5. A solidão não descontroi a moral, mas deixa em suspenso alguns de seus efeitos
  6. A solidão permite um assenhorar-se das virtudes
  7. “O deserto me é necessário, para ficar de novo bom” – Aurora §491
  8. A solidão é restauradora, e aí então estou novamente apta a viver em sociedade sem tanto adoecimento
  9. Os momentos de solidão tornam os amigos e familiares ainda mais belos
  10. Os procedimentos genealógicos demandam períodos de solidão
  11. Quando estou sozinha, tenho mais intimidade com o mar