Sobre Isadora Machado

Tengo la edad del rocío. Nací del Obí de Oshun y Yemaya. Hermana de las islas aisladas, sigo viva en el pueblo de los atravesado. Ahijada de Padre António de Aruanda, del Padrino Ifaladé y de la Madrina Oshun Bomire. Aprendiz en periodismo y traducción.

Fibromialgia da alma

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O corpo dói. O músculo do antebraço dói. Engolir dói. Respirar dói. Preciso me levantar, dói. Mover o olho pra me vestir de sol dói. Amarrar o cabelo dói. Deixá-lo caído no rosto dói mais. Prender a respiração dói. Soltar o ar dói. Esticar as pontas dos pés dói. Olhar pra o lado dói. Ter muita coisa pra fazer dói. Não fazê-las dói. Acordar dói. Dormi e sonhei que alguma coisa doía.

kintsugi

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Foto: Expansion / Bronce with Electricity de Paige Bradley disponível em Adrian Caballero

O dia que começa quando abro o olho às 4:30am pra tomar minha dose de tiroxina é silêncio, breu, gatos dormindo, fé.

O dia que começa quando abro o corpo às 5:20am pra tomar minha dose de café é passarinhos, lusco-fusco, gatos miando, desconfiaça.

O dia que começa quando tomo meu combo de sanidade comprimida e abro a agenda às 6:00am pra tomar minha dose de realidade é ônibus passando, solzinho, gatos contemplando, lucidez.

O dia que começa quando abro a janela do passado não tem hora, é a qualquer momento angústia, calor sem água, nublado, dor, asco, despedaço, gatos um de cada lado.

O dia que começa quando tento fechar as janelas do passado não tem manobra – desmoronar, dormir embaixo dos escombros, dar a mão a quem me guarda, encontrar saída, e gatos lambendo feridas.

Um dia as pessoas vão começar os dias me vendo pela areia da praia, e hão de se espantar: é uma mulher, ou uma voadora cerâmica quebrada que foi reparada com aquela mistura de ouro em pó?

Caos

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-AD (Pexels/Wordpress)

A decisão no fio da navalha. Levantar e seguir o dia, ou fazer do dia uma noite prolongada por cortinas fechadas e olhos acesos. É preciso decidir. A vida, entretanto, parece não desejar outra coisa que isso, continuar a despeito de.

Violências sequestraram meu corpo. Corpo devolvido, não o reconheço mais. Os sequestradores roubaram a paz que morava bem ali, no meio do peito? Sim. Libertaram um corpo que de tão estraçalhado já não é mais possibilidade de liberação.

O corpo no fio da navalha. Juntar os destroços e colar cada pedaço dizendo “eu”. Mas também flertar com a possibilidade de que cada parte dobre por si outros organismos já que a diferença quer diferenciar.

Acolher. Ressignificar. Continuar.

Ou, seguir dançando no fio navalha e criar assim uma nova dança. Eu, a bailarina do caos.

À venda, meu primeiro livro

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“Misantrópolis”, meu primeiro livro, já está à venda no site da Editora Urutau.

Misantrópolis
Isadora Machado


“então seu corpo já não significava o meu, e, em não sendo tua, lanço-me às gentes como me lancei um dia distante às feras. Escorro ainda o cheiro onírico do sangue, gangrena esparsa. Infeccionada a pele ferida das costas, deito-me brasa em leito estrangeiro. De longe, vejo meus órgãos alimento das feras. Elas me levaram o ventre inflamado.”

Disponível em: https://t.co/rQtmWNl9Cu


Saravá 🌻

[tradução de pronunciamento] Ministro da Defesa da Rússia: amostras de coronavírus de morcegos encontradas em bio-laboratório americano sediado na Ucrânia

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TRADUÇÃO de:

Bat coronavirus found in U.S.-funded bio-lab in Ukraine: Russian Defense Ministry disponível em: http://www.news.cn/english/20220311/3c600e81ebb0459a913b9899a5db2717/c.html

O porta-voz do Ministro da Defesa da Rússia, Igor Konashenkov, disse que os experimentos com amostras de coronavírus de morcegos foram recolhidas em laboratórios biológicos criados e financiados na Ucrânica. #GLOBALink

“O Ministro da Defesa da Rússia continua trabalhando na análise de documentos a respeito de atividades biológicas militares secretas do governo dos Estados Unidos em território ucraniano, submetidos por funcionários de laboratórios biológicos da Ucrânia. Especialistas russos da NBCP Troops estudaram documentos que tratam da transferência de biomateriais humanos para países estrangeiros, sob o comando de representantes dos EUA. Além disso, foram de particular interesse as informações detalhadas sobre a implementação de um projeto, liderado pelos americanos em território ucraniano, para estudar patógenos de aves que migram entre a Ucrânia, a Rússia e regiões vizinhas. De acordo com os documentos, o lado americano planejou organizar na Ucrânia, em 2022, estudos sobre patógenos de pássaros, morcegos e répteis, e estudos futuros sobre a
possibilidade de disseminar, por meio desses animais, a febre suína africana e antrax. De acordo com esses documentos encontrados, foram realizados experimentos com amostras de coronavírus de morcegos em laboratórios criados e financiados na Ucrânia. O propósito dessas e de outras pesquisas biológicas financiadas pelo Pentágono na Ucrânia era a criação de um mecanismo para a disseminação secreta de patógenos mais mortais. Em breve, apresentaremos outro conjunto de documentos recebidos de funcionários de laboratórios biológicos e também apresentaremos o resultado da avaliação desses documentos.” Fonte: Xinhua News/Russian Defense Ministry

Necrópsias da Memória [trecho-ensaio]

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[Necrópsias da Memória é meu segundo livro, ainda em processo de escrita. Segue um trecho do primeiro capítulo.]

[…] Eu já havia passado pelo pequeno caminho que dava até a piscina de sapos. Foi assim que descobri o galinheiro. Eu não via as galinhas, mas sabia que elas estavam ali. Eu podia ouvi-las. De repente, os piolhos de galinha infestaram minha cabeça. Já sem margem nem espaço de manobra, eles desceram pela nuca, acompanhando o ritmo surdo de minha medula. Chegaram até meus pés, e retornaram. Cada poro passou a abrigar um piolho de galinha. Então já não eram mais galinhas, eram pássaros bastante grandes. 

Eu temia que a mulher mais poderosa da Yakuza entrasse no mar. Eu temia que ao entrar no mar a mulher mais poderosa da Yakuza infestasse as águas de larvas robotizadas. Sara tremi. Eu via a tragédia se aproximar. Todos estavam comandados pelos olhos das larvas. Até que ponto haveria mundo possível se a mulher mais poderosa da Yakuza se banhasse nas outras águas que seriam sempre as mesmas depois dela? Talvez a mulher não fosse a mais poderosa da Yakuza. Talvez fosse apenas uma dissidente. Ainda não estava pronta para dúvida. Tudo fazia sentido.

 Mme. Bezombes não sabia que os funcionários do resort me protegeriam. Amavam a Sara os subalternos, todos, menos os que não eram.  A polícia pouco acreditou no que viu. Je suis enceite. Estoy embarazada. Sim. Não haveria língua para dizer isso e ficou por aquilo mesmo. Eu até gritei o nome do Pai. Ela não acreditou. Por mais que eu tentasse me desvencilhar, algo sempre retornava para me lembrar que ninguém muda o próprio destino.

  A mulher mais poderosa da Yakuza se moveu ao estacionamento. Sara a seguiu. Os funcionários do resort aparavam a grama. Eu lati, com toda defecção do verbo. A mulher mais poderosa da Yakuza latiu de volta. A mulher mais poderosa da Yakuza latia de modo generalizante. Todos os funcionários do resort gargalharam.

   Eu vestia a camiseta com a qual havia ganhado a batalha de Amsterdam e uma calcinha grande que cobria quase toda minha bunda. Lati até o fim. A mulher mais poderosa da Yakuza se vai com o motorista no 4×4. Enquanto fechava os vidros, a mulher olhou Sara como quem não iria embora. Mas meu coração latia ainda pior. 

Sara vidrada no rastro deixado pelo olhar da mulher mais poderosa da Yakuza: viu no cheiro deixado a mesma doença de Bianca. Nem lama podre, nem água fétida – mas uma doença incurável nesta dimensão das coisas. Sara não podia se concentrar. Quando lembrava de Bianca, regredia ao abismo em três segundos, e voltava. Penso que Bianca era somente a antecipação da mulher mais poderosa da Yakuza. Tremi.

[…]

Eu falhava jazz

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De repente, eu entendi porque aquele senhor contorcionista ia de mesa em mesa na Rua da Lama mostrando a extensão das linhas intensivas de seus tendões. Era preciso demonstrar quão forte se é.

De repente, eu entendi porque Dona Verônica me pedia sempre dez fotos e também entendi porque ela repetia o endereço em Itapuã onde ela não morava. Era preciso saber exatamente onde não ir nunca mais.

De repente, eu entendi. Entendi Estamira e Stela do Patrocínio. Eu mesma fui cada uma delas. De repente, eu entendi toda a loucura e tudo fazia sentido. Eu entendi os tiques,os risos, a raiva. Eu entendi o grito,e qualquer denúncia eu entendi também. Tudo entender era minha maior loucura.

De repente, eu falava e minha língua falhava jazz. Uma sintaxe improvisada para fora que eu sentia como toda possibilidade de organização por dentro.

De repente, era eu a linha que dividia the West and the Rest. Era eu. A escolhida para ser a plenitude da palavra falhada.

De repente, toda letra era minha e poderia me contar um ritornelo que eu já previa, tão esperado.

De repente também, não sou mais nem Estamira nem Stela do Patrocínio. Ainda mais de repente, me tornei o que nunca tinha sido: esquizo, porém linguista.

De repente, sou inteira de novo. Não me esqueço nem do Senhor Contorcionista, nem de Dona Verônica, nem de Estamira, nem de Stela, nem da raiva nem do riso. Fui condenada a lembrar de quando tudo fazia sentido.

De repente, a voz é minha e a esquizo-linguista vai falar a palavra falhada de Lélia Gonzalez: numa boa!

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Não chegou. A hora. O lugar. A vez. O tempo. Não chegou ainda o momento. A situação. O acaso. O ocaso. A possibilidade de laço. Ainda não. Não chegou. A hora. Eu estava ali no segundo marcado. Nada. Nem sombra. Nem dúvida. Nem pedido. Nem mensagem. Não chegou. O sinal de fumaça. O pombo-correio. O menino de recados. Nada. Quem reclama está com tudo em dia – o ebó, o abô, as contas, o amor. Aqui, não chegou. A carta. O telegrama. O e-mail. O carteiro disse que não tinha nada para mim. O tinder disse que já não havia pessoas por perto. Ainda não. Não foi dessa vez. Quem reclama tá de bucho cheio, por isso arrota. Aqui, por enquanto, nada. Até fui à vizinha perguntar se, caso, talvez. Mas não, nada. Recolhi minha tenda, fiz que demorei. Nada. O sol já se foi, mas volta amanhã. Nada é tão eterno que não possa retornar.

Não

O homem de gorro vermelho que não era Exu

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Eliseu Visconti

A sacola de supermercado que no Brasil são de plástico, eu joguei na lixeira da rua. Havia restos dentro. Joguei fora. Era parte do meu caminho jogar fora em lixeiras perto de minha casa as sacolas de supermercado que no Brasil são de plástico. Ontem pela manhã, no entanto, fiz um gesto deliberado de jogar a sacola no lixo. Que nem fosse no lixo de uma das das três lixeiras que tenho em meu apartamento. Que nem fosse na lixeira do condomônio. Que nem fosse na porta de meu apartamento, esperando que Senhor Abrolhos viesse buscar.

Só que ontem não. Ontem eu acordei cedíssimo. Caminhei até a lixeira da primeira esquina, e lancei a sacola dentro da lixeira pública, que era azul. As pessoas que estavam no ponto de ônibus esperando nada notaram. Isso me deixou ambígua. Era um gesto tão grandioso de minha parte jogar aquela sacola no lixo, que eu esperava um pouco mais de comoção. Drama. Sei lá, alguma coisa (urgentemente).

Eu fiz isso porque precisava esquecer a imagem do homem de gorro vermelho que não era Exu. Eu fiz isso porque precisava esquecer os olhos dele. Eu tinha uma urgente necessidade de não dar tempo para que minha admiração crescesse. Cortar o mal pela raiz. Só que tive que cavar mais fundo, te ver já me disse que você seria daquelas plantas que rizomam e arborecem sem método, para todos os cantos. Eu já tinha até escolhido a música para lembrar de seus olhos abaixo do gorro vermelho. Joguei os restos, tudo, joguei fora dentro daquela sacola de supermercado que no Brasil são de plástico.

O homem de gorro vermelho que não era Exu e aquela marquinha embaixo do olho esquerdo. Cicatriz de queda? Marca de nascimento? Escarificação? Eu tenho algumas obsessões, uma dela são essas escarificações que eu mesma fiz em meu próprio corpo numa mistura de doença e tentativa desenfreada de me atar a algo. Ato-me às escarificações das pessoas mais que às pessoas, porque às pessoas não posso me atar.

Eu joguei tudo fora na lixeira da rua perto de minha casa (a lixeira, não a rua): os restos, o gorro vermelho, os olhos. Guardei sem querer as escarificações e estou aqui me cuidando para não grudá-las a minha pele qual fossem adesivos. Até hoje pela manhã estava tudo bem, afinal. Mas hoje achei as escarificações que não tinha jogado dentro do saco de supermercado de plástico. Mas Inês é morta. E a morte é igual esse silêncio de ter jogado tudo fora, inclusive os pedaços desse homem de gorro vermelho: fico esperando que apite um sinal de trem, pra me dizer que o desejo está longe, mas vai chegar e fazer festa. A morte é essa espera de algo que nunca mais vai chegar porque se foi de um jeito tão ido, que só há pretérito perfeito a ser conjugado.

Eu me preparei para jogar as escarificações fora também. Eu me decidi a jogar tudo que fosse resto dele fora. Cheguei bem perto da lixeira. Só que estou, aqui cavucando a lixeira da rua perto da minha casa para ver se encontro a sacola de supermercado que no Brasil são de plástico. A fome é tanta que me meti aqui no meio de pessoas procurando comida e papelão.

Enquanto fuço lixo e rasgo sacolas, me dou conta que você se foi porque eu era quem eu sou. Entrego as latinhas de alumínio que encontro para a moça de camisa verde, e digo que, se ela encontrar uma sacola com restos e gorro e olhos, que por favor me entregue. Ficamos amigas, eu, ela e a fome. Não posso evitar e arranco a tampa da lixeira para deixar mais fácil a procura. Jogo fora as palavras que te fizeram partir. Minha amiga de blusa verde me devolve, lúcida: “quem joga fora palavras é mal agradecido, e mal agradecido tá sempre com fome”. Ela tinha razão. Continuamos a busca – ela por comida, eu pela fome de encontrar pedaços daquele homem de gorro e olhos e vistas primeiras.

A fome é tanta que ninguém reparou que estou no lixão procurando algum amor para reciclar. A fome é tanta que as escarificações se perderam. Será, pelo menos, que anotei seu telefone em algum lugar?

Anotações sobre as cores do mar de Ondina

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Foto: Abril de 2020, Ondina, Acervo Pessoal

Não estou aborrecido com ninguém. Mas sozinho pareço ver os amigos de modo mais nítido e belo do que quando estou com eles; e quando amei e senti mais a música, vivia longe dela. Parece que necessito de perspectivas distantes para pensar bem das coisas” – Nietzsche, Aurora, §485.

Quando comecei a estudar Nietzsche, em 2009, uma pessoa se surpreendeu: ‘mas você anda lendo tanto Nietzsche, e não comenta nada, acho que não está te transformando como me transformou’. Hoje é engraçado, mas na época me angustiei. Afinal, quanto mais eu lia Nietzsche, menos eu queria falar sobre Nietzsche. Ficava assombrada com a precisão com que Nietzsche descrevia certos comportamentos humanos. Me assombrava mais ainda as propostas de Nietzsche para a transvaloração dos valores e para a superação definitiva do demasiado humano.

Uma dessas propostas, talvez, fosse a mais assustadora. Eu escutava Nietzsche dizer: “primeiro, fique sozinha”. Eu me arrepiava. Depois, comecei a entender que essa solidão que Nietzsche me propunha era mais tomar distância, que me isolar. Há alguns anos venho entendendo que, em muitas ocasiões, tomar distância exige algum grau de isolamento. E, curiosamente, o isolamento social necessário nesses quase dois anos de pandemia de coronavírus foram decisivos para minha compreensão da solidão e da propedeutica da distância.

É também intrigante, a meu ver, a curiosidade que meu comportamento gera em algumas pessoas. Pessoas da minha família, inclusive. Volta e meia mamãe me liga dizendo “fala a verdade, Isadora, eu sei que você está namorando, você está muito sumida”. Mesmo que eu esteja há dez anos sem namorar ninguém de modo socialmente relevante, minha mãe sempre acha que quando eu me isolo mais, é porque estou namorando. Essa curiosidade, leio em certas atitudades, também é despertada em outras pessoas que não minha mãe.

Isso às vezes me irrita, porque eu detesto essa sensação de que tentam me controlar. Sim, porque às vezes perguntar insistentemente sobre uma presença é tentativa de controle. Pessoas amigas querem saber se estou bem, se preciso de alguma coisa. Não sou tão ingênua mais, e sei que frequência afetiva importa em todas as relações apesar disso Me llaman el desaparecido pero esa no es la verdad.

De qualquer modo, finalizar o pós-doutorado tem sido um exercício de tomar distância, a fim de construir uma perspectiva própria sobre certos temas. Aprendi com Nietzsche a construir perspectiva tomando distância. Pode ser que isso seja apenas um vício ocidental. Pode ser. Nietzsche, entretanto, foi o ocidental que mais atingiu as margens da vida ocidental. Continuo com ele então, até que eu possa pular o muro, ou encontre uma porta que seja aberta com minhas chaves.

Diante dessa mistura de curiosidade e controle, fiz algumas anotações relendo Nietzsche:

  1. A solidão é um fruto saboroso de desenlaces de coerções sociais
  2. A solidão é um dos métodos de afirmação da vida
  3. A solidão é tomar distância para construir perspectiva própria sobre a vida, e não implica sofrimento
  4. A solidão me permite apaziguar os efeitos de rebanho do gregarismo social
  5. A solidão não descontroi a moral, mas deixa em suspenso alguns de seus efeitos
  6. A solidão permite um assenhorar-se das virtudes
  7. “O deserto me é necessário, para ficar de novo bom” – Aurora §491
  8. A solidão é restauradora, e aí então estou novamente apta a viver em sociedade sem tanto adoecimento
  9. Os momentos de solidão tornam os amigos e familiares ainda mais belos
  10. Os procedimentos genealógicos demandam períodos de solidão
  11. Quando estou sozinha, tenho mais intimidade com o mar

minha mente já vestiu uma cauda de sereia

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Fonte da Imagem

minha mente me escapa. justamente. três minutos manejando o que precisa ser feito, e ela já quer saber qual foi o resultado da pec dos precatórios. minha mente quer fugir. um minuto contente de seguir protocolos, e minha mente já se dirige ao portão de si mesma, meus olhos, porque é urgente avisar para dulce que os morangos não chegaram frescos. realmente. daí, enquanto espero a resposta de dulce, minha mente senta no banco da face de meu nariz. minha mente quer sair. minha mente fica ali sentada no meu nariz, balançando as perninhas enquanto escuta o áudio de osvaldo. grito minha mente: volte aqui, fujona. dois minutos obedecendo o plannerjamento e minha mente sai correndo. minha mente coloca um biquini asa delta e sai voando até a piscina de minha boca. minha mente quer sumir. minha mente aprendeu a nadar faz pouco tempo, e não pode esperar até descobrir como tocar o chão. minha mente quer saber do caminho só de ida. minha mente desobedece, rebelde. eu grito volte, mas minha mente já vestiu uma cauda de sereia e foi trabalhar nos aquários de massachussetts. minha mente não tem jeito. minha mente nada fundo, e eu quero que ela pouse. minha mente fala muito, e eu quero que ela permaneça. minha mente sou eu mesma, e algo alheio a meu desejo. verdadeiramente. já sei o que direi quando minha mente voltar do passeio. direi: mente, você é corpo. minha mente me surpreende, e voltou do mergulho com marcas de fita. minha mente é bem bonita até quando propõe rimas fáceis. olhei minha mente de frente e disse: volte aqui, querida, não é por nada não, mas você é corpo, se comporte sem transbordar sequestros de tempo. minha mente, atrevida, me respondeu: deixe de caretisse, querida, e vá ler Galeano. minha mente já sabia de tudo. minha mente, bem real, sabe que tudo é festa.

Ato II, No deserto, canto V [trecho de Misantrópolis]

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Foto: Champ de Mars, Paris [Acervo Pessoal]

Procurei pés para sanar o corte na espalda distante e n’Ele passei a temer palavra mágica de vida e de sangue. Tomo de pesar o amuleto, e quando do sangue, sondo passo longínquo para novo patoá. E d’Ele cresço distante: perco a letra, me entrego a Yemaya.

Sina era minha, e se fotografou indiferença. E, no entanto, dele sondo estrada: destino anunciado em leito estrangeiro. Sondo caminho em sua triste tez distante. Que pensa Ela que não sabe que pensa?

Cresce, toma ar, busca em si o crescente de nossa distância:

tu, que não tens opção de não me olhar,

tu, que não vives a impressão de me ver,

tu, que não me sabes e por isso me deixas.

Olha-me a morbidez evolutiva, e cansa-me a seita que nos divide cadeia e membros: tu, que nem dormes de tão perfeita, cansa-me o preceito que te toma o lastro. Ah, minha irmã, o que te comes a calma e te tomas o filho? Queres o filho, ou apenas te sabes mais segura com o calor que dás ao que era antes de ti prisão?

[…]

Outra carta pra Marília Mendonça

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Marília, querida:

Eu disse que provavelmente te escreveria de novo. Pra o afeto não gangrenar, como dizia um velho amigo que já se foi. Mas também porque estou tentando entender a razão de sentir a morte de alguém que não conhecia, que não era da minha família, que sei lá.

Certamente a psicanálise deve ter alguma resposta pra isso. Aquelas histórias de psicologia das massas, que Freud publicou em 1921. Também é certo que eu tenho tendência a costurar histórias dos outros nas minhas histórias, tentando fazer com que minha vida pareça menos insignificante. Ilusão é tão importante pra vida quanto aquilo que é verdadeiro, falava Nietzsche.

Só que sua morte não é bem ilusão. É o ponto zero da realidade. É o verdadeiro indiscutível.

Hoje estava arrumando a cozinha e te escutando. Volta e meia eu fazia isso. Mas resolvi encarar sua voz mais de perto, já que não se ouve outra coisa aqui na vizinhança e isso já estava me assombrando.

Fiquei presa na tentativa de explicar a sensação que os graves de sua voz me causavam – como se abrisse uma ferida e costurasse melhor os pontos. Viajando… Aí lembrei que amanhã tenho análise,

Gata, como vou falar pra psicóloga, quando ela disser “e aí, Isadora?”, que “estou triste porque a Marília Mendonça morreu”?! Porque não é só dizer. Vou ter que explicar. Já pensou?

Hoje entre secar um prato e outro, estava ensaiando alguma coisa. Pensei: vou dizer que estou triste porque na verdade tenho outros lutos não formulados e sua morte está me ajudando a sofrer por outras mortes pelas quais não sofri direito. Daí em algum momento esqueço mesmo do que estou falando e então já não importará o nome que estou dando pra o objeto? Acho que é bem assim mesmo.

Pensei: posso também dizer que é porque o avião caiu na cidade de minha vózinho que já se foi, e por isso estou tão triste, porque sua morte me lembra a morte dela. Será que cola, Marília?

Pensei: tem isso também. Que a psicanalista vai me perguntar do seu nome, quais associações faço com ele – mar, ilha, men, onça, maria, ia, ia, e se foi? Pode ser. Não sei.

Pensei: vou dizer que estou sofrendo porque olhava pra você e me via representada, e que parece que a única imagem na mídia que parecia um espelho menos distorcido, morreu tragicamente. Apesar de ser verdade, isso vai doer de explicar, melhor não, né?

Pensei: vou racionalizar, falar de feminismo, de métrica trovadoresca portuguesa, de criação de imagens pela linguagem, de fractais? Até poderia, mas minha psicanalista é muito esperta e vai me desmascarar no ato.

Não tem jeito mesmo, né? Talvez seja triste e só isso mesmo.

Talvez seja triste mesmo, e só.

Aprendi na análise que o único sentido da vida é dar sentido para a vida. Que dar sentido à vida é juntar fatos desconexos e criar um enredo conectando esse monte de incompreensão.

Vou continuar tentanto, prometo.

Juritis e borboletas,

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Uma carta para Marília Mendonça

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Marília:

Aprendi com um velho amigo que já se foi sobre o poder das cartas que nunca poderão ser entregues a seus destinatários. Ele dizia que é importante escrever cartas que nunca serão recebidas, para que o afeto não coagule no lugar errado e dê complicações futuras. Então vou seguir o conselho dele. Vou te escrever essa carta porque tenho medo de um dia acordar e esse sentimento ter gangrenado em veia inesperada.

Ontem estava no Uber voltando para casa, e vi a notícia da queda do avião. Dizia que um avião que levava você e mais quatro pessoas tinha caído, mas que estava tudo bem. eu até fui a sua página no Instagram checar se estava tudo bem, e não parecia haver nenhum indício de que alguma coisa estava errada. “Depois vejo no jornal da noite”, pensei.

Só que em mais uma ou duas horas, a notícia de sua morte se confirmou. Dizia que você e mais quatro pessoas estavam mortas, que o bimotor havia caído em uma cachoeira, na cidade de Caratinga, em Minas Gerais. Caratinga é a cidade onde mora a maior parte da família de meu pai, onde morou minha Vó Sonia e onde tenho memórias enraizadas de uma infância brincando na roça – pescando lambari, entrando em túnel de palha de feijão, pegando bicho no pé e correndo muito com minhas primas e primos, inclusive com os primos de primos de primos. Você sabe como é.

Eu não conseguia acreditar, e ao mesmo tempo me lembrava da morte de minha avó. Eu ainda tinha comprommisso pra cumprir no início da noite, e tentei me desligar da notícia. Sou boa nisso de fingir que algo terrível não aconteceu, apenas pra fazer o que precisa ser feito.

Só que aí o compromisso acabou e eu tive que lidar com aquela avalanche de imagens suas, de seu filhinho, de sua família. Os vizinhos todos escutavam suas músicas. Os canais de televisão só falavam disso. Acho que fui dormir por volta de 2h da madrugada, vendo o documentárioa Marília em Todos os Cantos e depois um pedaço de uma entrevista sua.

Acordei pouco tempo depois com uma tempestade, que já dizem ter sido única aqui em Salvador. Os trovões eram tão fortes, que quando vinham parecia até mudar o ritmo da batida do coração. Aqueles estrondos eram seguidos de clarões e raios onipresentes, que inundavam a casa toda. Os gatos curiosamente vieram pra sala, e ficaram assistindo tudo no sofá. Eu não conseguia me mover na cama, de tão assustada. Ao mesmo tempo parecia tocar sua voz dentro da minha cabeça, igual quando você lançava uma música nova e eu ouvia mil vezes e depois parecia que a música tocava sozinha no meu jukebox mental.

Que tristeza, Marília…A morte, em tese, é tão corriqueira, mas a sua parece fugir a qualquer explicação.

Eu gostava de te ver cantar. Gostava de ver seu corpo sendo tão amado. Eu me sentia representada. Era como se fosse estivesse me dizendo: vai lá, o amor também é seu. Eu acreditei. Nunca tinha visto uma mulher brasileira e gorda ser tão amada e ser tão bem sucedida quanto você foi. Mas era algo além que me capturava.

Você parecia estar sempre rindo dessa bobagem de ser “celebridade”. Parecia sempre dizer “eu sou isso aqui, não preciso ser de outro jeito”. Só as Deusas sabem o quanto devia ser difícil pra você. Mas pra gente, que te via mais de longe, era incrível ver você dizendo, nas ações e nas palavras, que não ia se adaptar.

Seu bom-humor e leveza vão me inspirar pra sempre.

Talvez eu te escreva mais vezes, tenho mais a te dizer. Quero te contar das vezes que eu não sabia o que fazer com algum encosto que arrumava, e de repente tomar banho ouvindo suas músicas me dava solução repentina. E também de quando eu ia para a praia com minha JBL falsificada e e colocava suas músicas bem alto. E cantava todas. E de repente fazia váries amigues na praia porque a sua música provocava essa sensação de que o que era ruim também podia ser divertido, ao mesmo tempo.

É. Acho que vou continuar te escrevendo.

O avião caiu dentro de uma cachoeira. Eu prefiro pensar que você não morreu.

Eu prefiro dizer que você se encantou.

Cheiro,

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Lírios e Violetas

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Sim, eu sei. Também me sinto cansada. Naqueles dias de tiroteio na praça, eu já estava cansada. Sair no meio da multidão, porém, porque você havia esquecido na mesa seu lenço preferido – fazia sentido e parecia ser o mais importante. Do mesmo jeito, sei que você está cansada agora, fugindo da aleatoriedade da desgraça humana.

Parecíamos duas velhas. Você, com sua mania de lançar maldição para quem não parava o carro para que pudéssemos atravessar na faixa. Eu, com minha mania de puxar a perna quando doía muito.

Parecíamos duas adolescentes. Você, com uma coleção infindável de capa de celular com bichinhos. Eu, com uma coleção infindável de adesivos de coruja.

As Yabás ouviam nossas gargalhadas e corriam pra perto. Nosso riso frouxo parecia ser a porta aberta para fazer morada no sol. A gente falava sobre os livros, sobre o trabalho, sobre as pessoas que eu não conhecia mas que você fazia questão que eu soubesse já como eram maldosas. A gente sonhava um outro mundo, lembra? Sim, também me dói lembrar.

[…]

Quando você me expulsou de sua vida, eu comecei a recolher os retalhos que tinha guardado na caixa de madeira. Não eram suficientes para uma colcha que cobrisse a falta que suas futilidades me faziam, mas talvez fossem o bastante para remendar minha própria pele, e assim eu poderia atravessar até a outra ponta da cidade sem que as pessoas vissem que sua partida tinha me despido de qualquer possibilidade de futuro.

Você gostava de lírios, eu preferia violetas. Eu não queria que você sofresse, você queria que a vida andasse.

Sem se dar conta de que eu havia perdido as chaves de casa, você se mudou. Depois de um tempo mandei fazer outras chaves e outra casa, e está tudo bem agora, que nem dois e dois são cinco.

Aí, enquanto olho pra o mar, leio a profundeza desse corte, que tem a fundura de peixe sem olho, cega que estava a faca.

Chronic Dissatisfaction

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Javier Bardem y Penelope Cruz, em Vicky Cristina Barcelona

“O sertão é dentro da gente” -Guimarães Rosa

“Em que outra cidade você moraria, que não fosse Salvador?”.

Minha primeira resposta: qualquer uma onde eu tivesse trabalho.

Me choquei com minha própria resposta. Eu nunca tinha pensado sobre isso. De fato, qualquer cidade é exagero. Mas talvez seja a resposta mais próxima da [minha] realidade.

Depois do choque e dessa resposta franca, disse Havana. É verdade. Disse Barcelona também. Terminei dizendo que gostaria de morar perto da minha Madrinha e do meu Padrinho. Desconversei. Me senti estranha porque nunca tinha pensado nisso.

Por um lado, boa parte do mundo talvez tenha sua vida atrelada ao trabalho diário, então onde houver trabalho, dá pra viver. Por outro, fiquei me perguntando quando foi que eu deixei de imaginar uma vida que não essa de 12h de trabalho diário, por vezes fim de semana sim e outro também.

Houve uma época em que eu insistentemente pensava minha vida em outras partes do mundo. Era uma busca quase cotidiana por outras possibilidades. Hoje não quero pensar nem em mudar de bairro, porque meus gatos e meus livros estão tão aclimatados quanto eu nessa casa que é uma casa, mas também é uma loca de tão perto do mar.

Certa vez uma pessoa me disse que eu sofria de insatisfação crônica, tal qual uma personagem de Almodóvar em Vicky Cristina Barcelona. A pessoa estava certa, na época. Será que me curei e não consigo mais me sentir insatisfeita diante da vida pacata e costeña que levo hoje?

Não sei. Sei que meus lugares preferidos tem sido as pessoas – seus territórios longíquos, suas angústias, seus caminhos e modos de forjar a própria existência, apesar de tanta miséria. Dizem que Exu se tornou dono de todos os caminhos porque, a pedido de Orunmila, saiu pelo mundo e escutou todos os problemas de todas as pessoas bem como as soluções que elas encontraram para continuar vivendo, e voltou para contar a Orunmila.

Talvez seja essa a resposta para a pergunta que me fizeram: não sei para onde iria, mas tenho certeza que quem anda na minha frente sabe. Isso sim, eles sabem e isso me basta.

Tem sido essa, talvez e só talvez, minha maior aventura.

Necrópsias da Memória [excerto]

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Frida Kahlo, Hospital Henry Ford (1932).

[…] No sábado, Sara se vestiu toda de branco e posicionou seu turbante florido na cabeça. Para que as ideias não fujam, enquanto torcia o tecido de um euro comprado na Montmartre. Sara já sabia que havia roubado a tocha da revolução, não uma simples caixa de fósforos. Sara caminhava pela Tolbiac com a certeza de que a vitória latinoamericana traria bons frutos. Não era propriamente um roubo, portanto. Sara sentia-se irmanada. Sara via seus ancestrais dançando em volta dos firmes passos que dava. Sara estava calma, contente. Sara cumprimentava quem a saudava. 

M. e Mme. Lauvo já estavam no apartamento quando Sara chegou. Os alimentos estavam todos dentro de duas ou três sacolas. Sara cumprimentou o casal e sentou no fouton, agora fechado. Sara ouviu as desculpas, mas mudou de assunto. Os Lauvau pareciam aceitar a derrota. Sara contou sobre sua ida à Papillon. Sobre suas investigações. M. Lauvo, com seus grandes olhos azuis, disse que a língua da juventude havia sido roubada. Sara não discutiu. Sara sorriu timidamente quando Mme. Lauvo disse que também deveria ir para Réunion, que havia assuntos interessantes também lá. Trocaram mais algumas poucas obviedades. Sara puxou o carrinho de feira. Despediu-se. […]

Eu que já não tenho tempo

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Salvador Dali 1954

Caí na toca do coelho. Da mãe dele, na verdade. A toca em que cai pertencia à mãe do coelho. Mesmo que o coelho tenha matado a própria mãe logo depois que eu caí, não ouso dizer que era ele já o dono da toca.

Acho que agora raspei o fundo do tacho. Habito o platô desenhado linhas e unguentos. Me falta ar bem no chakra do meio do peito. Deve haver um chakra aqui pra doer desse jeito.

Enquanto eu caía na toca, um pouco antes do assassinato, abriu-se à memória um curto corredor. As paredes pintadas de branco já davam sinal dos tempos em pequenas borbulhas estáticos. Tu vois? Oui, je vois.

Estava ali, depois do corredor, o delírio. Eu que nunca quis me lembrar do final do corredor, hoje arranho traços na angústia de esquecer.

Se o preço de ter visto o final do corredor e caído das escadas é um estado de lucidez absoluta, abdico. Envio uma foto de hoje, mas a foto tirada hoje é a foto de alguém que foi morta ontem.

A angústia me mata um pouco ontem, com um golpe que só me desferiu hoje. É, afinal, preciso continuar.

Os compromissos na agenda chegam sem perguntar do meu chakra coronário, carcomido de tão enferrujado. Minha agenda ri. Ela ri porque não subiu as escadas, não se escondeu nos fundos do terraço, e não teve que passar por aquele corredor.

Há algo de podre no reino da Dinamarca. A Dinamarca é o fundo do fundo do fundo da toca onde caí, mas de onde não quero sair. Que cara terei eu pra encarar tantas pessoas que nunca atravessaram o corredor branco? Mesmo as que passaram por corredores parecidos, que cara lhes ofereço?

Vergonha é uma palavra engraçada porque parece bochechas coradas, mas é o avesso de qualquer chão. Só me libertarei dela quando meu corpo não fizer mais limite com as linhas do real. A morte, no entanto, deixou há muito de ser uma opção. A morte está no boteco da esquina, rindo da miséria de quem viu as borbulhas do corredor.

Desculpe, continuarei pedindo desculpa porque não acredito no destino cantado pelas moiras. Fechar os olhos é a grande possibilidade de me entregar ao pesadelo. O mais difícil é a parte de fechar os olhos. Tudo que vivi sem ter a lembrança do visto me persegue em rodopios vociferados.

Já passou. Eu repito olhando para imagens borradas. Aqui, que não é mais nem toca nem tacho, é uma cachoeira segura e pouco escorregadia. Mas a dor é mar adentro. Ela me arrasta.

No momento em que vi o corredor, eu nada vi. O corredor guarda os segredos de todo sintoma que come minha pele e minha paz, ambas carne vivas.

Em carne viva. Talvez isso seja melhor que gangrenar de tanto esquecer.

P

Deus Vivo em Mar Morto

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Fonte da Imagem: Netmundi

“[…] o mar, o nosso mar, está novamente aberto, e provavelmente nunca houve tanto ‘mar aberto’”, diz Frederico Nietzsche no aforismo 343 de A Gaia Ciência (1882). Não mais a divisão do Mar Vermelho comandada por Moisés, mas sim o definitivo espraiamento de toda baía em mar aberto. Não mais o mar como aventura pelo desconhecido que reserva monstros e outras criaturas fatais, mas uma abertura interpretativa que, de alguma forma, não pode ser mais estancada.

Mar que é também a totalidade aniquilada: “[…] como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? […] – pergunta o insensato homem louco que, em plena manhã, segurando uma lanterna, procurava deus (também em A Gaia Ciência, mas no aforismo 125). É esse mesmo homem louco que enfrenta as gargalhadas dos frequentadores do mercado, diante da pergunta que só poderia realmente ser lançada por ele, um homem louco, portando uma lanterna a despeito do sol matinal.

A morte de Deus é anunciada então enquanto o apagamento de todo horizonte. A infinitude compartilhada entre deus e o mar é bebida por inteiro pelo homem. Anoitece eternamente, diz o homem louco. É por isso que, ainda que seja manhã, é preciso andar com uma lanterna. Deus está morto e foram os homens que o mataram. A chama que iluminava os ideais do ocidente se apagou e foram mesmo os homens que a apagaram.

Nietzsche, um extemporâneo com incrível percepção de seu tempo, anunciou a morte de Deus na penúltima década do século XIX. Disse que “esse acontecimento enorme está a caminho” (GC, § 125), mas ainda não poderia ser ouvido por completo. Assim como as estrelas, diz Nietzsche, a morte de deus precisava também de tempo para ser vista. Assim como o corisco e o trovão, a morte de deus, desse deus enquanto causa e determinação externa de toda vida, precisava de tempo para ser ouvida.             As últimas décadas do século XX, quase cem anos depois, são a hipertrofia dessa orfandade que o homem passa a experimentar depois que Deus deixa de ser a causa e o fim de todas as coisas. As igrejas, diz ainda o homem louco, não passam mais de um mausoléu, onde já se pode ouvir os coveiros cavando covas. Deus está morto enquanto ideal, enquanto justificativa, enquanto matriz interpretativa. A ciência passa, então, a ser a matriz interpretativa e diretora do ocidente, mas não conforta como antes poderia confortar a ideia de deus.

Violência psicológica e cativeiro mental: sobre Maid, minissérie da Netflix

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O TEXTO RELATA UMA CENA DE VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA/FÍSICA, PRATICADA EM AMBIENTE DOMÉSTICO. PODE TE FAZER LEMBRAR DE EXPERIÊNCIAS VIOLENTAS, CASO JÁ TENHA SIDO VÍTIMA DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. POR FAVOR, SE ESSE FOR SEU CASO, NÃO LEIA ESSE TEXTO NESSE MOMENTO. ESTAMOS JUNTAS!

Acabei há pouco de assistir a minissérie Maid, disponível na plataforma Netflix. Para quem sobreviveu à violência psicológica, ou para quem ainda está vivendo-a, é certamente uma série cheia de gatilhos, que nos fazem recordar de momentos terríveis. Nossas dores parecem muito particulares, mas o funcionamento da violência psicológica, da perspectiva de quem a pratica, é muito similar. Assistir a série foi ainda mais duro porque, além das lembranças, no Brasil não temos nem metade dos recursos e auxílios governamentais que aparecem na série e que permitiram que a protagonista sobrevivesse, apesar de as leis brasileiras soarem mais “avançadas” no espectro de possibilidades de proteção da vítima.

Duas questões me pareceram muito fortes – a invisibilidade desse tipo de violência, e a conivência das “testemunhas”.

A violência psicológica muitas vezes não deixa hematomas na pele. Então, a primeira dificuldade é mostrar que ela exista. É difícil para quem vive, de se convencer que está vivendo, e mais difícil ainda para prová-la, em situações institucionais. Nosso comportamento, enquanto vítimas, vai mudando, em função da sensação sólida de que diante do agressor não há saída. Porque a saída não é a porta ou a janela ou a rua. A violência psicológica nos encerra num cativeiro mental.

Quem está em volta, muitas vezes atribui a mudança de comportamento das vítimas a um problema da vítima, e não do agressor. A série mostra isso com muitas nuances. Em grande medida, o que sustenta a conivência entre testemunha e agressor é o próprio patriarcado. Os mecanismos de controle dos corpos, principalmente das mulheres, são muito normalizados, então uma típica prática de violência doméstica, como ordenar onde a mulher deve estar ou não, é tida como uma ‘questão’ que o ‘casal deve resolver’.

Quando fui vítima desse tipo de violência, eu só comecei a formular que estava vivendo uma relação violenta quando uma amiga de outro estado veio passar umas semanas comigo. Ela enfrentava o agressor de modo bastante inteligente, e aquilo começou a despertar em mim o vislumbre de uma rota de fuga. Mas, muita gente que via a situação de fora, tomou toma partido dele quando consegui dar fim à relação.

No último dia que o vi, estávamos voltando de um bar à noite. Eu viajaria para uma palestra no dia seguinte pela manhã. Ele me deixou em casa e subiu até meu apartamento. Começou a reclamar que eu não me comportava como namorada dele quando estávamos em público. Eu não queria discutir porque tinha que terminar de arrumar minha mala e acordar cedo para terminar minha conferência e ir para o aeroporto. Além do mais, era o último dia de um resguardo que eu estava fazendo, e não queria me alterar. Ele insistia, em tom de ladainha, sobre como eu deveria me comportar e sobre como ele estava cansado do meu comportamento. Eu já estava de toalha, queria tomar banho, mas queria que ele fosse embora antes. Não suportava mais, mas ao mesmo tempo me sentia presa num labirinto, de onde não conseguia encontrar a saída. Eu estava na minha casa, eu dizia para ele ir embora, e ele permanecia. Até que resolvi falar mais firme, dizendo para que ele imediatamente se retirasse de minha casa. Estávamos frente a frente no corredor. Ele então me deu um tapa na cara.

Não chegou a marcar – novamente a invisivilidade de algumas práticas violentas. Não chegou a marcar, mas ali eu entendi o que a série Maid mostra muito bem: se eu não desse um basta naquele momento, nada me garantia que o próximo tapa não seria um soco, um chute, algo pior. Eu ainda me recuperava do que tinha acabado de acontecer, ele começou a tentar me convencer se que ele não havia me dado um tapa. O que parece bastante estranho, mas depois descobri fazer parte do ciclo da violência psicológica: abuso > gaslighting > modo anjo > abuso etc. E assim a vítima passa a duvidar de si, e se torna o alvo perfeito para o agressor.

Depois do ocorrido, apenas abri a porta em silêncio e ele foi embora. Não consegui dormir direito, e perdi o voo no dia seguinte, que tinha sido pago pelo evento para o qual eu havia sido convidada. Tive que eu mesma pagar dois mil reais para conseguir chegar ao evento. Ele nunca me devolveu nem esse dinheiro, nem o dinheiro de outros prejuízos que me deu, porque obviamente o abuso psicológico tinha perpassado toda a relação. Mas antes de comprar outra passagem, fiz tudo que estava ao meu alcance para que ele nunca mais chegasse perto de mim.

Automaticamente, ele se converteu na vítima da situação e se aproximou de várias pessoas que eram próximas a mim. Ele organizou um evento sobre violência contra mulher, chamou essas pessoas. Se safou, inclusive porque eu não fiz denúncia – invisibilidade das marcas da violência psicológica + inabilidade das testemunhas em testemunharem. Senti muito medo também de ser exposta e ter minha saúde piorada ainda mais. É fácil dizer para as vítimas de qualquer tipo de violência para elas denunciarem as violências. Mas pouco se fala sobre as consequências de não termos preparo, enquanto sociedade patriarcal, para que as vítimas tenham o apoio necessário para se recuperar.

A minissérie Maid, a meu ver, lança luz aos bastidores de certas práticas de violência que precisam sim ser mais discutidas. Ativa muitos gatilhos, é verdade, para quem já sofreu esse tipo de violência, e por isso senti falta de um pouco mais de cuidado com os avisos.