quem tem Tempo, tem tudo

Foto: Ceiba de 200 anos do Jardim Botânico / 2022

Pra S.B.

eu conheço bem essa dor que te mastiga a alma. sei de cor seus amuletos. caminhei por esse chão de brasa e, olhe para as solas dos meus pés: elas ainda formigam a sensibilidade tirada à fogo. olhe para mim. no fundo de minha íris colorida mora um mapa – caminhos sabotados, dor antiga, inocência aniquilada.

é verdade que queria te abraçar a parte da alma que ainda doi. também é verdade que te colocaria dentro de uma caixinha, pra depois sair a cortar cabeças.

tiraria dessas cabeças o escalpo com as garras afiadas que levo nos pés e, depois de jogar os escalpos para os urubus, voltaria em voo de 45 graus, descendente e veloz, a comer, com esse bico encurvado que levo na boca, o cérebro desmemoriado dos covardes. rasgaria a margem medial do pescoço de cada um, e novamente as cabeças de teus inimigos eu levaria, com meus pés de urutau, a voar pela orla da cidade. até que todos vissem, um a um, seus algozes degolados pela fúria do meu umbigo cheio de mundo.

eu, que tenho poderes ocultos na ponta de cada dedo, te acarinho o rosto no intento, eu sei que vão, de fazer que a magia dos dias dourados do mar da Bahia cubra cada poro aberto pelo suor dos dias de medo.

também eu quis ser outra pessoa. também eu invejei a cada um dos mendigos os andrajos e as chagas e os invejei só por não se eu. também eu estou farta de semideuses. também eu quero voltar.

mas, antes, queria que a gente quisesse outros quereres – que onde você quisesse revólver, eu já fosse coqueiro onde você treparia até esquecer do ar ma dorismo dessa gente besta; que onde você quisesse dinheiro, eu já fosse pai e chão de mina de ouro de prata dessas pedras preciosas. E, assim, que onde eu fosse só desejo, você pudesse descansar sem pressa suas asas cansadas de voar muito alto, mas só.

havia tempo que Tempo não parava pra espiar a gente brincando em sua sombra. eu aproveitei para dizê-lo que não temos muito tempo. eu lhe disse: Seu Tempo, cuide da gente, que pra frente lhe dou um presente.

Tempo sorriu. me abraçou com seus longos braços galhosos, e me respondeu: quem tem Tempo, tem tudo.

aí eu entendi que vai ficar tudo bem.

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