penteando cabelos

desperto antes de abrir os olhos. escuto, antes da luz, o recado de meu Padrinho. tenho medo de conduzir a escuta de modo que seja dito meu desejo. acato. os fatos se apressam a derrubar o que pode haver de margem entre meu corpo e travesseiros, mas lençois. também a caneca com um dedo do chá que sobrou de ontem. já há luz lá fora: primavera que anuncia a chegada de dias mais longos.

zênite. me estico. alongo a sensação do corpo.

tão logo me percebo gente, volto ao quarto a pentear cabelos. me demoro nas pontas. tento desembaraçar os sonhos dos nós embolados. me desfaço do que poderia haver ainda de resquício da noite. um pouco de cabelo se prende ao pente, outro pouco cai pelo chão. o gato aponta o focinho até meu joelho. eu olho pela janela. o mar.

é difícil me fazer de novo depois de desfazer sonhos nos nós dos cabelos. prefiro trançá-los para começar o dia. deixo a febre para resolver mais tarde. por enquanto, é dia. por enquanto, há sol. por enquanto, vivo a primavera.

há dia. mas se o tranço, é para cabê-lo.

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