TODOS OS NOMES DE DEUS

Arquivo pessoal.

Aparentemente, Necrópsias da Memória será um livro da velhice. Deixou de fazer sentido escrever um livro de memórias aos 35 anos. Há muito ainda por descobrir desse passado. Peças de resina. Pontes de safena.

Na minha última sessão de análise, falava sobre pequenos fragmentos de memória que vinham a tona. Sobre o entendimento de que não preciso me preocupar em lembrar tudo porque não existe algo assim. Dizia que hoje entendo que, às vezes, uma lembrança emergindo desse aquário sem luz  de peixes sem olhos que eu chamo de passado, é talvez a possibilidade de narrar aquilo que ainda é informulável.

Quantas vezes eu tive certeza sobre fatos, sobre o modo como as coisas se deram, e depois havia nuances que me escapavam? Não foram poucas.

Levei os seis primeiros anos de análise para formular um trauma da infância. Mas no começo desse ano, lembrei de uma parte desse acontecimento traumático que estava no campo do informulável. Achei que eu fosse me partir em 201 pedaços. A imagem que veio à consciência era um frame de 3s. Um gif. E eu tinha tanto asco, que poderia ter colocado fogo no meu próprio corpo não fosse esse trabalho analítico que vai me dando ferramentas pra oxigenar o sangue.

2013 ainda está no campo de muitas informulações. Mas diferente do trauma infantil, sinto agora certa tranquilidade de dizer em análise que está tudo bem. Que não lembrar é uma maneira também de lidar com a questão, que vai se trabalhando por outras vias.

Uma vez eu disse a minha analista, tentando descrever a sensação de ‘cura’ em relação à infância, que eu tinha sido capaz de fazer uma ponte de safena, deslocando os fluxos de sangue, reconectando duas partes sadias da minha história, e deixando que a parte gangrenada fosse absorvida pelo corpo. Isso me permitiu voltar a experimentar afetos que eu não me lembro quando deixei de experimentar. Havia vida antes do trauma, e uma vida em que fui tão amada, que não poderia mais ignorar esse amor. Isso tem me transformado de muitas maneiras, porque uma espécie de amor próprio, que até então eu desconhecia, passou a fazer parte de mim, do que tenho me tornado.

Ao falar de 2013, escutei minha analista dizer que era como se eu estivesse fabricando peças de resina para colocar nesses pontos cegos da narrativa do trauma.

Pontes de safena. Peças de resina.

E, nisso tudo, “Necrópsias da Memória” não faz mais tanto sentido. Quero mais peças e mais pontes. Talvez manter a proposta da literatura de testemunho, mas em outro momento, quando eu me sentir mais confortável em fiar e desfiar a trama.

Por enquanto, então, me dedico a contar a história de Nijila del Ndongo, minha adorada pomba-gira cigana. A pedra foi cantada por meu amigo, o também escritor Rodrigo de Roure: por que você não escreve a história da sua Padilha? Eu lhe contei de um sonho que tive com ela, em que ela me mostrava o último túmulo dela, em Fez, no Marrocos. E desde então essa mulher não me deu sossego, no bom sentido.

Certamente é um livro que vai me exigir um trabalho de pesquisa bastante extenso, talvez de anos, já que ainda não é possível apenas escrever. De todo modo, me afastar de Necrópsias da Memória e investir em ficcionalizar a vida de outra pessoa me trará saúde, a saúde apolínea que venho cultivando nesse solo fértil que chamo de corpo.

“TODOS OS NOMES DE DEUS”, vem aí meu segundo livro. Tudo posso na Pomba Gira que fortalece. Laroye ♥️

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