All eyez on me – Necrópsias da Memória [exercício n.2]

II

Babe, I’m trouble.

Passei então a observar três ou quatro mulheres nas cadeiras de praia brancas. Uma das mulheres é proeminente. Os seios reluzem olhos. All eyez on me. O furúnculo só vaza depois que o olho cresce. Quando a água cai no ralo, olhos nascem. Olho de carnegão. Verme tem apenas um olho. Os seios da japonesa, expostos em topless. Seios de larvas, seios de olhos. Só Sara via os seios cheios de olhos. Olhos, ou pequenos dispositivos de rastreio conectados a satélites? Sara entende algo, com pouca nitidez. A mulher se move com feições nipônicas. Entendi tudo, regurgita Sara. Eu espremo minha mente em vão. Era aquela a mulher mais poderosa de toda a Yakuza. Olho muito os olhos dos seios da mulher mais poderosa da Yakuza. Olho até ser vista. Por que me abandonaste, Shango? A polícia chega. A dona da casa onde estou hospedada se aproxima. Mme Bezombés escarafunchando ao redor do galinheiro escondido insinua um gesto pouco compreensível até então. Não era Sara que ela esperava a alugar a casa. Disse que esperava Teca. 

Eu já havia passado pelo pequeno caminho que dava até a piscina de sapos. Foi assim que descobri o galinheiro. Eu não via as galinhas, mas sabia que elas estavam ali. Eu podia ouvi-las. De repente, os piolhos de galinha infestaram minha cabeça. Já sem margem nem espaço de manobra, eles descem pela minha nunca, acompanhando o ritmo surdo de minha medula. Chegam até meus pés, e retornam. Cada poro passou a abrigar um piolho de galinha. Então já não eram mais galinhas, eram pássaros bastante grandes. 

Eu temia que a mulher mais poderosa da Yakuza entrasse no mar. Eu temia que ao entrar no mar a mulher mais poderosa da Yakuza enfestaria as águas de larvas robóticas. Sara treme. Eu via a tragédia se aproximar. Todos estariam comandados pelos olhos robóticos implantados pelas larvas. Até que ponto haveria mundo possível se a mulher mais poderosa da Yakuza se banhasse nas outras águas que seriam sempre as mesmas depois dela? Talvez a mulher não fosse a mais poderosa da Yakuza. Talvez fosse apenas uma dissidente. Ainda não estava pronta para talvezes. Tudo fazia sentido.

         Mme. Bezombes não sabia que os funcionários do resort me protegeriam. Amavam a Sara os subalternos, todos, menos os que não eram.  A polícia pouco acreditou no que via. Je suis enceite. Estoy embarazada. Fucking pregnant! Não haveria língua para dizer isso e ficou por aquilo mesmo. Eu até gritei o nome do Pai. Ela não acreditou. Por mais que eu tentasse me desvencilhar, algo sempre retornava para me lembrar que ninguém muda o próprio destino.

  A mulher mais poderosa da Yakuza se moveu ao estacionamento. Sara a seguiu. Os funcionários do resort aparavam a grama. Eu lato, com toda defecção do verbo. A mulher mais poderosa da Yakuza late de volta. A mulher mais poderosa da Yakuza latia de modo generalizante. Todos os funcionários do resort gargalharam.         Eu vestia uma camiseta com a qual havia ganhado a batalha de Amsterdam e uma calcinha grande de algodão cobria quase toda minha bunda. Lati até o fim. A mulher mais poderosa da Yakuza se vai com o motorista no 4×4. Enquanto fecha os vidros olha Sara como quem não iria embora. Meu coração late ainda pior.

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