Oui Je vois – Necrópsias da Memória [ensaios]

Frida Kahlo, La cama volando (1932)

I

Imagine toda a água do corpo. Agora imagine toda a água do corpo, drenada. A água do corpo drenada goteja no côncavo direito da caverna. Há uma fogueira. A fogueira ocupa o côncavo direito da caverna. Toda a água do corpo drenada para sempre goteja sobre a pequena fogueira. A pequena fogueira perpétua mantendo-se óbvia no côncavo direito da caverna.

         – Tu vois?

         – Oui, je vois.

 Agora imagine toda a água do corpo drenada, sem saída ou ganas de evaporar. Sem subida, sem muro. A água do corpo, drenada. Forasteira de si. O assombro servil do passado ocupa tudo que não é água. De que comerá e beberá este corpo? Sara: 70% água, 30% assombro.

 Lá fora renovam-se grandes pássaros na entrada da caverna. Tudo mais é abismo. Sara está deitada entre ervas incandescentes. Agora imagine ervas incandescentes brilhando mais que a fogueira. As chamas amarelas da fogueira consomem fotografias bailarinas do lado direito do côncavo da caverna donde goteja toda a água drenada do corpo.

 Sara, inconsciente, experimenta a leveza de dias que não chegam. O dono da profundeza dos mares se aproxima do corpo repousado de Sara. Toda a água drenada do corpo, incólume ao dono da profundeza dos mares. Sara mente a putrefação de um útero carcomido. Sara obriga um útero profanado por memórias de dilúvios. Sara treme.

 O dono da profundeza dos mares toca a cicatriz que carrego no fim da barriga. Cicatriz de feto morto. Uma cesárea abortiva, uma quimera. Sara vê o sangue escorrer pelas pernas. Não sustento nem a mim nem aos fetos. Joel imolou não apenas minhas entranhas. Joel me tomou o lampejo de um futuro possível. A vida, um trem sem trilhos. Sem sombra de fé, todos os fetos exalam um cheiro enferrujado de sangue. O dono da profundeza dos mares toca a cicatriz de um feto assassinado, mas eram dois.

 Ausência marcada na pele, nove encruzilhadas recobrem a divisão entre pelve e vulva. Sara desconhece algo mais grotesco: os pelos do corpo seguem crescendo depois da morte. Unhas também. O pênis de Joel, sempre teso, dilacerava já o vazio. A arma repousava a meu lado. Olhava para o teto. O teto se abria especular. O pênis de Joel friccionava contra as mucosas vaginais não mais um pênis. Friccionava um peso de nuncas e de impossíveis ao meio dia. Minha visão desfocada. Eu não pensava. Olhei para o lado direito da cama, e senti o cheiro de pólvora vindo da pistola semiautomática. Olhei para o lado esquerdo da cama. Um caixão. Um caixão para fetos. Me quebrei em duzentos e trinta e um pedaços e me enterrei ali a mim mesma. Memória é o pedaço de tempo que não passa. Cada centímetro do corpo comido por centenas de larvas angustiadas. Corpo vai. A memória não coube no caixão. Só os fetos.

Not children, you see? Just eggs.

O dono da profundeza das águas prepara uma beberagem sutil. Suspende o tronco de Sara. Os braços pendem. Sara é bebida pelas ervas. Evapora-se. As pedras pensam com a memória que lhes é outorgada. Meus cílios crescem. Precisava Joel ter matado os gêmeos? Ou bastaria apenas ter me matado?

Je sais pas. Tu vois?        

Oui, je vois.

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