Necrópsias da Memória [trecho-ensaio]

[Necrópsias da Memória é meu segundo livro, ainda em processo de escrita. Segue um trecho do primeiro capítulo.]

[…] Eu já havia passado pelo pequeno caminho que dava até a piscina de sapos. Foi assim que descobri o galinheiro. Eu não via as galinhas, mas sabia que elas estavam ali. Eu podia ouvi-las. De repente, os piolhos de galinha infestaram minha cabeça. Já sem margem nem espaço de manobra, eles desceram pela nuca, acompanhando o ritmo surdo de minha medula. Chegaram até meus pés, e retornaram. Cada poro passou a abrigar um piolho de galinha. Então já não eram mais galinhas, eram pássaros bastante grandes. 

Eu temia que a mulher mais poderosa da Yakuza entrasse no mar. Eu temia que ao entrar no mar a mulher mais poderosa da Yakuza infestasse as águas de larvas robotizadas. Sara tremi. Eu via a tragédia se aproximar. Todos estavam comandados pelos olhos das larvas. Até que ponto haveria mundo possível se a mulher mais poderosa da Yakuza se banhasse nas outras águas que seriam sempre as mesmas depois dela? Talvez a mulher não fosse a mais poderosa da Yakuza. Talvez fosse apenas uma dissidente. Ainda não estava pronta para dúvida. Tudo fazia sentido.

 Mme. Bezombes não sabia que os funcionários do resort me protegeriam. Amavam a Sara os subalternos, todos, menos os que não eram.  A polícia pouco acreditou no que viu. Je suis enceite. Estoy embarazada. Sim. Não haveria língua para dizer isso e ficou por aquilo mesmo. Eu até gritei o nome do Pai. Ela não acreditou. Por mais que eu tentasse me desvencilhar, algo sempre retornava para me lembrar que ninguém muda o próprio destino.

  A mulher mais poderosa da Yakuza se moveu ao estacionamento. Sara a seguiu. Os funcionários do resort aparavam a grama. Eu lati, com toda defecção do verbo. A mulher mais poderosa da Yakuza latiu de volta. A mulher mais poderosa da Yakuza latia de modo generalizante. Todos os funcionários do resort gargalharam.

   Eu vestia a camiseta com a qual havia ganhado a batalha de Amsterdam e uma calcinha grande que cobria quase toda minha bunda. Lati até o fim. A mulher mais poderosa da Yakuza se vai com o motorista no 4×4. Enquanto fechava os vidros, a mulher olhou Sara como quem não iria embora. Mas meu coração latia ainda pior. 

Sara vidrada no rastro deixado pelo olhar da mulher mais poderosa da Yakuza: viu no cheiro deixado a mesma doença de Bianca. Nem lama podre, nem água fétida – mas uma doença incurável nesta dimensão das coisas. Sara não podia se concentrar. Quando lembrava de Bianca, regredia ao abismo em três segundos, e voltava. Penso que Bianca era somente a antecipação da mulher mais poderosa da Yakuza. Tremi.

[…]

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