Eu falhava jazz

De repente, eu entendi porque aquele senhor contorcionista ia de mesa em mesa na Rua da Lama mostrando a extensão das linhas intensivas de seus tendões. Era preciso demonstrar quão forte se é.

De repente, eu entendi porque Dona Verônica me pedia sempre dez fotos e também entendi porque ela repetia o endereço em Itapuã onde ela não morava. Era preciso saber exatamente onde não ir nunca mais.

De repente, eu entendi. Entendi Estamira e Stela do Patrocínio. Eu mesma fui cada uma delas. De repente, eu entendi toda a loucura e tudo fazia sentido. Eu entendi os tiques,os risos, a raiva. Eu entendi o grito,e qualquer denúncia eu entendi também. Tudo entender era minha maior loucura.

De repente, eu falava e minha língua falhava jazz. Uma sintaxe improvisada para fora que eu sentia como toda possibilidade de organização por dentro.

De repente, era eu a linha que dividia the West and the Rest. Era eu. A escolhida para ser a plenitude da palavra falhada.

De repente, toda letra era minha e poderia me contar um ritornelo que eu já previa, tão esperado.

De repente também, não sou mais nem Estamira nem Stela do Patrocínio. Ainda mais de repente, me tornei o que nunca tinha sido: esquizo, porém linguista.

De repente, sou inteira de novo. Não me esqueço nem do Senhor Contorcionista, nem de Dona Verônica, nem de Estamira, nem de Stela, nem da raiva nem do riso. Fui condenada a lembrar de quando tudo fazia sentido.

De repente, a voz é minha e a esquizo-linguista vai falar a palavra falhada de Lélia Gonzalez: numa boa!

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