O homem de gorro vermelho que não era Exu

Eliseu Visconti

A sacola de supermercado que no Brasil são de plástico, eu joguei na lixeira da rua. Havia restos dentro. Joguei fora. Era parte do meu caminho jogar fora em lixeiras perto de minha casa as sacolas de supermercado que no Brasil são de plástico. Ontem pela manhã, no entanto, fiz um gesto deliberado de jogar a sacola no lixo. Que nem fosse no lixo de uma das das três lixeiras que tenho em meu apartamento. Que nem fosse na lixeira do condomônio. Que nem fosse na porta de meu apartamento, esperando que Senhor Abrolhos viesse buscar.

Só que ontem não. Ontem eu acordei cedíssimo. Caminhei até a lixeira da primeira esquina, e lancei a sacola dentro da lixeira pública, que era azul. As pessoas que estavam no ponto de ônibus esperando nada notaram. Isso me deixou ambígua. Era um gesto tão grandioso de minha parte jogar aquela sacola no lixo, que eu esperava um pouco mais de comoção. Drama. Sei lá, alguma coisa (urgentemente).

Eu fiz isso porque precisava esquecer a imagem do homem de gorro vermelho que não era Exu. Eu fiz isso porque precisava esquecer os olhos dele. Eu tinha uma urgente necessidade de não dar tempo para que minha admiração crescesse. Cortar o mal pela raiz. Só que tive que cavar mais fundo, te ver já me disse que você seria daquelas plantas que rizomam e arborecem sem método, para todos os cantos. Eu já tinha até escolhido a música para lembrar de seus olhos abaixo do gorro vermelho. Joguei os restos, tudo, joguei fora dentro daquela sacola de supermercado que no Brasil são de plástico.

O homem de gorro vermelho que não era Exu e aquela marquinha embaixo do olho esquerdo. Cicatriz de queda? Marca de nascimento? Escarificação? Eu tenho algumas obsessões, uma dela são essas escarificações que eu mesma fiz em meu próprio corpo numa mistura de doença e tentativa desenfreada de me atar a algo. Ato-me às escarificações das pessoas mais que às pessoas, porque às pessoas não posso me atar.

Eu joguei tudo fora na lixeira da rua perto de minha casa (a lixeira, não a rua): os restos, o gorro vermelho, os olhos. Guardei sem querer as escarificações e estou aqui me cuidando para não grudá-las a minha pele qual fossem adesivos. Até hoje pela manhã estava tudo bem, afinal. Mas hoje achei as escarificações que não tinha jogado dentro do saco de supermercado de plástico. Mas Inês é morta. E a morte é igual esse silêncio de ter jogado tudo fora, inclusive os pedaços desse homem de gorro vermelho: fico esperando que apite um sinal de trem, pra me dizer que o desejo está longe, mas vai chegar e fazer festa. A morte é essa espera de algo que nunca mais vai chegar porque se foi de um jeito tão ido, que só há pretérito perfeito a ser conjugado.

Eu me preparei para jogar as escarificações fora também. Eu me decidi a jogar tudo que fosse resto dele fora. Cheguei bem perto da lixeira. Só que estou, aqui cavucando a lixeira da rua perto da minha casa para ver se encontro a sacola de supermercado que no Brasil são de plástico. A fome é tanta que me meti aqui no meio de pessoas procurando comida e papelão.

Enquanto fuço lixo e rasgo sacolas, me dou conta que você se foi porque eu era quem eu sou. Entrego as latinhas de alumínio que encontro para a moça de camisa verde, e digo que, se ela encontrar uma sacola com restos e gorro e olhos, que por favor me entregue. Ficamos amigas, eu, ela e a fome. Não posso evitar e arranco a tampa da lixeira para deixar mais fácil a procura. Jogo fora as palavras que te fizeram partir. Minha amiga de blusa verde me devolve, lúcida: “quem joga fora palavras é mal agradecido, e mal agradecido tá sempre com fome”. Ela tinha razão. Continuamos a busca – ela por comida, eu pela fome de encontrar pedaços daquele homem de gorro e olhos e vistas primeiras.

A fome é tanta que ninguém reparou que estou no lixão procurando algum amor para reciclar. A fome é tanta que as escarificações se perderam. Será, pelo menos, que anotei seu telefone em algum lugar?

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