Anotações sobre as cores do mar de Ondina

Foto: Abril de 2020, Ondina, Acervo Pessoal

Não estou aborrecido com ninguém. Mas sozinho pareço ver os amigos de modo mais nítido e belo do que quando estou com eles; e quando amei e senti mais a música, vivia longe dela. Parece que necessito de perspectivas distantes para pensar bem das coisas” – Nietzsche, Aurora, §485.

Quando comecei a estudar Nietzsche, em 2009, uma pessoa se surpreendeu: ‘mas você anda lendo tanto Nietzsche, e não comenta nada, acho que não está te transformando como me transformou’. Hoje é engraçado, mas na época me angustiei. Afinal, quanto mais eu lia Nietzsche, menos eu queria falar sobre Nietzsche. Ficava assombrada com a precisão com que Nietzsche descrevia certos comportamentos humanos. Me assombrava mais ainda as propostas de Nietzsche para a transvaloração dos valores e para a superação definitiva do demasiado humano.

Uma dessas propostas, talvez, fosse a mais assustadora. Eu escutava Nietzsche dizer: “primeiro, fique sozinha”. Eu me arrepiava. Depois, comecei a entender que essa solidão que Nietzsche me propunha era mais tomar distância, que me isolar. Há alguns anos venho entendendo que, em muitas ocasiões, tomar distância exige algum grau de isolamento. E, curiosamente, o isolamento social necessário nesses quase dois anos de pandemia de coronavírus foram decisivos para minha compreensão da solidão e da propedeutica da distância.

É também intrigante, a meu ver, a curiosidade que meu comportamento gera em algumas pessoas. Pessoas da minha família, inclusive. Volta e meia mamãe me liga dizendo “fala a verdade, Isadora, eu sei que você está namorando, você está muito sumida”. Mesmo que eu esteja há dez anos sem namorar ninguém de modo socialmente relevante, minha mãe sempre acha que quando eu me isolo mais, é porque estou namorando. Essa curiosidade, leio em certas atitudades, também é despertada em outras pessoas que não minha mãe.

Isso às vezes me irrita, porque eu detesto essa sensação de que tentam me controlar. Sim, porque às vezes perguntar insistentemente sobre uma presença é tentativa de controle. Pessoas amigas querem saber se estou bem, se preciso de alguma coisa. Não sou tão ingênua mais, e sei que frequência afetiva importa em todas as relações apesar disso Me llaman el desaparecido pero esa no es la verdad.

De qualquer modo, finalizar o pós-doutorado tem sido um exercício de tomar distância, a fim de construir uma perspectiva própria sobre certos temas. Aprendi com Nietzsche a construir perspectiva tomando distância. Pode ser que isso seja apenas um vício ocidental. Pode ser. Nietzsche, entretanto, foi o ocidental que mais atingiu as margens da vida ocidental. Continuo com ele então, até que eu possa pular o muro, ou encontre uma porta que seja aberta com minhas chaves.

Diante dessa mistura de curiosidade e controle, fiz algumas anotações relendo Nietzsche:

  1. A solidão é um fruto saboroso de desenlaces de coerções sociais
  2. A solidão é um dos métodos de afirmação da vida
  3. A solidão é tomar distância para construir perspectiva própria sobre a vida, e não implica sofrimento
  4. A solidão me permite apaziguar os efeitos de rebanho do gregarismo social
  5. A solidão não descontroi a moral, mas deixa em suspenso alguns de seus efeitos
  6. A solidão permite um assenhorar-se das virtudes
  7. “O deserto me é necessário, para ficar de novo bom” – Aurora §491
  8. A solidão é restauradora, e aí então estou novamente apta a viver em sociedade sem tanto adoecimento
  9. Os momentos de solidão tornam os amigos e familiares ainda mais belos
  10. Os procedimentos genealógicos demandam períodos de solidão
  11. Quando estou sozinha, tenho mais intimidade com o mar

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