Outra carta pra Marília Mendonça

Marília, querida:

Eu disse que provavelmente te escreveria de novo. Pra o afeto não gangrenar, como dizia um velho amigo que já se foi. Mas também porque estou tentando entender a razão de sentir a morte de alguém que não conhecia, que não era da minha família, que sei lá.

Certamente a psicanálise deve ter alguma resposta pra isso. Aquelas histórias de psicologia das massas, que Freud publicou em 1921. Também é certo que eu tenho tendência a costurar histórias dos outros nas minhas histórias, tentando fazer com que minha vida pareça menos insignificante. Ilusão é tão importante pra vida quanto aquilo que é verdadeiro, falava Nietzsche.

Só que sua morte não é bem ilusão. É o ponto zero da realidade. É o verdadeiro indiscutível.

Hoje estava arrumando a cozinha e te escutando. Volta e meia eu fazia isso. Mas resolvi encarar sua voz mais de perto, já que não se ouve outra coisa aqui na vizinhança e isso já estava me assombrando.

Fiquei presa na tentativa de explicar a sensação que os graves de sua voz me causavam – como se abrisse uma ferida e costurasse melhor os pontos. Viajando… Aí lembrei que amanhã tenho análise,

Gata, como vou falar pra psicóloga, quando ela disser “e aí, Isadora?”, que “estou triste porque a Marília Mendonça morreu”?! Porque não é só dizer. Vou ter que explicar. Já pensou?

Hoje entre secar um prato e outro, estava ensaiando alguma coisa. Pensei: vou dizer que estou triste porque na verdade tenho outros lutos não formulados e sua morte está me ajudando a sofrer por outras mortes pelas quais não sofri direito. Daí em algum momento esqueço mesmo do que estou falando e então já não importará o nome que estou dando pra o objeto? Acho que é bem assim mesmo.

Pensei: posso também dizer que é porque o avião caiu na cidade de minha vózinho que já se foi, e por isso estou tão triste, porque sua morte me lembra a morte dela. Será que cola, Marília?

Pensei: tem isso também. Que a psicanalista vai me perguntar do seu nome, quais associações faço com ele – mar, ilha, men, onça, maria, ia, ia, e se foi? Pode ser. Não sei.

Pensei: vou dizer que estou sofrendo porque olhava pra você e me via representada, e que parece que a única imagem na mídia que parecia um espelho menos distorcido, morreu tragicamente. Apesar de ser verdade, isso vai doer de explicar, melhor não, né?

Pensei: vou racionalizar, falar de feminismo, de métrica trovadoresca portuguesa, de criação de imagens pela linguagem, de fractais? Até poderia, mas minha psicanalista é muito esperta e vai me desmascarar no ato.

Não tem jeito mesmo, né? Talvez seja triste e só isso mesmo.

Talvez seja triste mesmo, e só.

Aprendi na análise que o único sentido da vida é dar sentido para a vida. Que dar sentido à vida é juntar fatos desconexos e criar um enredo conectando esse monte de incompreensão.

Vou continuar tentanto, prometo.

Juritis e borboletas,

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