Uma carta para Marília Mendonça

Marília:

Aprendi com um velho amigo que já se foi sobre o poder das cartas que nunca poderão ser entregues a seus destinatários. Ele dizia que é importante escrever cartas que nunca serão recebidas, para que o afeto não coagule no lugar errado e dê complicações futuras. Então vou seguir o conselho dele. Vou te escrever essa carta porque tenho medo de um dia acordar e esse sentimento ter gangrenado em veia inesperada.

Ontem estava no Uber voltando para casa, e vi a notícia da queda do avião. Dizia que um avião que levava você e mais quatro pessoas tinha caído, mas que estava tudo bem. eu até fui a sua página no Instagram checar se estava tudo bem, e não parecia haver nenhum indício de que alguma coisa estava errada. “Depois vejo no jornal da noite”, pensei.

Só que em mais uma ou duas horas, a notícia de sua morte se confirmou. Dizia que você e mais quatro pessoas estavam mortas, que o bimotor havia caído em uma cachoeira, na cidade de Caratinga, em Minas Gerais. Caratinga é a cidade onde mora a maior parte da família de meu pai, onde morou minha Vó Sonia e onde tenho memórias enraizadas de uma infância brincando na roça – pescando lambari, entrando em túnel de palha de feijão, pegando bicho no pé e correndo muito com minhas primas e primos, inclusive com os primos de primos de primos. Você sabe como é.

Eu não conseguia acreditar, e ao mesmo tempo me lembrava da morte de minha avó. Eu ainda tinha comprommisso pra cumprir no início da noite, e tentei me desligar da notícia. Sou boa nisso de fingir que algo terrível não aconteceu, apenas pra fazer o que precisa ser feito.

Só que aí o compromisso acabou e eu tive que lidar com aquela avalanche de imagens suas, de seu filhinho, de sua família. Os vizinhos todos escutavam suas músicas. Os canais de televisão só falavam disso. Acho que fui dormir por volta de 2h da madrugada, vendo o documentárioa Marília em Todos os Cantos e depois um pedaço de uma entrevista sua.

Acordei pouco tempo depois com uma tempestade, que já dizem ter sido única aqui em Salvador. Os trovões eram tão fortes, que quando vinham parecia até mudar o ritmo da batida do coração. Aqueles estrondos eram seguidos de clarões e raios onipresentes, que inundavam a casa toda. Os gatos curiosamente vieram pra sala, e ficaram assistindo tudo no sofá. Eu não conseguia me mover na cama, de tão assustada. Ao mesmo tempo parecia tocar sua voz dentro da minha cabeça, igual quando você lançava uma música nova e eu ouvia mil vezes e depois parecia que a música tocava sozinha no meu jukebox mental.

Que tristeza, Marília…A morte, em tese, é tão corriqueira, mas a sua parece fugir a qualquer explicação.

Eu gostava de te ver cantar. Gostava de ver seu corpo sendo tão amado. Eu me sentia representada. Era como se fosse estivesse me dizendo: vai lá, o amor também é seu. Eu acreditei. Nunca tinha visto uma mulher brasileira e gorda ser tão amada e ser tão bem sucedida quanto você foi. Mas era algo além que me capturava.

Você parecia estar sempre rindo dessa bobagem de ser “celebridade”. Parecia sempre dizer “eu sou isso aqui, não preciso ser de outro jeito”. Só as Deusas sabem o quanto devia ser difícil pra você. Mas pra gente, que te via mais de longe, era incrível ver você dizendo, nas ações e nas palavras, que não ia se adaptar.

Seu bom-humor e leveza vão me inspirar pra sempre.

Talvez eu te escreva mais vezes, tenho mais a te dizer. Quero te contar das vezes que eu não sabia o que fazer com algum encosto que arrumava, e de repente tomar banho ouvindo suas músicas me dava solução repentina. E também de quando eu ia para a praia com minha JBL falsificada e e colocava suas músicas bem alto. E cantava todas. E de repente fazia váries amigues na praia porque a sua música provocava essa sensação de que o que era ruim também podia ser divertido, ao mesmo tempo.

É. Acho que vou continuar te escrevendo.

O avião caiu dentro de uma cachoeira. Eu prefiro pensar que você não morreu.

Eu prefiro dizer que você se encantou.

Cheiro,

i

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s