Chronic Dissatisfaction

Javier Bardem y Penelope Cruz, em Vicky Cristina Barcelona

“O sertão é dentro da gente” -Guimarães Rosa

“Em que outra cidade você moraria, que não fosse Salvador?”.

Minha primeira resposta: qualquer uma onde eu tivesse trabalho.

Me choquei com minha própria resposta. Eu nunca tinha pensado sobre isso. De fato, qualquer cidade é exagero. Mas talvez seja a resposta mais próxima da [minha] realidade.

Depois do choque e dessa resposta franca, disse Havana. É verdade. Disse Barcelona também. Terminei dizendo que gostaria de morar perto da minha Madrinha e do meu Padrinho. Desconversei. Me senti estranha porque nunca tinha pensado nisso.

Por um lado, boa parte do mundo talvez tenha sua vida atrelada ao trabalho diário, então onde houver trabalho, dá pra viver. Por outro, fiquei me perguntando quando foi que eu deixei de imaginar uma vida que não essa de 12h de trabalho diário, por vezes fim de semana sim e outro também.

Houve uma época em que eu insistentemente pensava minha vida em outras partes do mundo. Era uma busca quase cotidiana por outras possibilidades. Hoje não quero pensar nem em mudar de bairro, porque meus gatos e meus livros estão tão aclimatados quanto eu nessa casa que é uma casa, mas também é uma loca de tão perto do mar.

Certa vez uma pessoa me disse que eu sofria de insatisfação crônica, tal qual uma personagem de Almodóvar em Vicky Cristina Barcelona. A pessoa estava certa, na época. Será que me curei e não consigo mais me sentir insatisfeita diante da vida pacata e costeña que levo hoje?

Não sei. Sei que meus lugares preferidos tem sido as pessoas – seus territórios longíquos, suas angústias, seus caminhos e modos de forjar a própria existência, apesar de tanta miséria. Dizem que Exu se tornou dono de todos os caminhos porque, a pedido de Orunmila, saiu pelo mundo e escutou todos os problemas de todas as pessoas bem como as soluções que elas encontraram para continuar vivendo, e voltou para contar a Orunmila.

Talvez seja essa a resposta para a pergunta que me fizeram: não sei para onde iria, mas tenho certeza que quem anda na minha frente sabe. Isso sim, eles sabem e isso me basta.

Tem sido essa, talvez e só talvez, minha maior aventura.

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