Eu que já não tenho tempo

Salvador Dali 1954

Caí na toca do coelho. Da mãe dele, na verdade. A toca em que cai pertencia à mãe do coelho. Mesmo que o coelho tenha matado a própria mãe logo depois que eu caí, não ouso dizer que era ele já o dono da toca.

Acho que agora raspei o fundo do tacho. Habito o platô desenhado linhas e unguentos. Me falta ar bem no chakra do meio do peito. Deve haver um chakra aqui pra doer desse jeito.

Enquanto eu caía na toca, um pouco antes do assassinato, abriu-se à memória um curto corredor. As paredes pintadas de branco já davam sinal dos tempos em pequenas borbulhas estáticos. Tu vois? Oui, je vois.

Estava ali, depois do corredor, o delírio. Eu que nunca quis me lembrar do final do corredor, hoje arranho traços na angústia de esquecer.

Se o preço de ter visto o final do corredor e caído das escadas é um estado de lucidez absoluta, abdico. Envio uma foto de hoje, mas a foto tirada hoje é a foto de alguém que foi morta ontem.

A angústia me mata um pouco ontem, com um golpe que só me desferiu hoje. É, afinal, preciso continuar.

Os compromissos na agenda chegam sem perguntar do meu chakra coronário, carcomido de tão enferrujado. Minha agenda ri. Ela ri porque não subiu as escadas, não se escondeu nos fundos do terraço, e não teve que passar por aquele corredor.

Há algo de podre no reino da Dinamarca. A Dinamarca é o fundo do fundo do fundo da toca onde caí, mas de onde não quero sair. Que cara terei eu pra encarar tantas pessoas que nunca atravessaram o corredor branco? Mesmo as que passaram por corredores parecidos, que cara lhes ofereço?

Vergonha é uma palavra engraçada porque parece bochechas coradas, mas é o avesso de qualquer chão. Só me libertarei dela quando meu corpo não fizer mais limite com as linhas do real. A morte, no entanto, deixou há muito de ser uma opção. A morte está no boteco da esquina, rindo da miséria de quem viu as borbulhas do corredor.

Desculpe, continuarei pedindo desculpa porque não acredito no destino cantado pelas moiras. Fechar os olhos é a grande possibilidade de me entregar ao pesadelo. O mais difícil é a parte de fechar os olhos. Tudo que vivi sem ter a lembrança do visto me persegue em rodopios vociferados.

Já passou. Eu repito olhando para imagens borradas. Aqui, que não é mais nem toca nem tacho, é uma cachoeira segura e pouco escorregadia. Mas a dor é mar adentro. Ela me arrasta.

No momento em que vi o corredor, eu nada vi. O corredor guarda os segredos de todo sintoma que come minha pele e minha paz, ambas carne vivas.

Em carne viva. Talvez isso seja melhor que gangrenar de tanto esquecer.

P

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