Deus Vivo em Mar Morto

Fonte da Imagem: Netmundi

“[…] o mar, o nosso mar, está novamente aberto, e provavelmente nunca houve tanto ‘mar aberto’”, diz Frederico Nietzsche no aforismo 343 de A Gaia Ciência (1882). Não mais a divisão do Mar Vermelho comandada por Moisés, mas sim o definitivo espraiamento de toda baía em mar aberto. Não mais o mar como aventura pelo desconhecido que reserva monstros e outras criaturas fatais, mas uma abertura interpretativa que, de alguma forma, não pode ser mais estancada.

Mar que é também a totalidade aniquilada: “[…] como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? […] – pergunta o insensato homem louco que, em plena manhã, segurando uma lanterna, procurava deus (também em A Gaia Ciência, mas no aforismo 125). É esse mesmo homem louco que enfrenta as gargalhadas dos frequentadores do mercado, diante da pergunta que só poderia realmente ser lançada por ele, um homem louco, portando uma lanterna a despeito do sol matinal.

A morte de Deus é anunciada então enquanto o apagamento de todo horizonte. A infinitude compartilhada entre deus e o mar é bebida por inteiro pelo homem. Anoitece eternamente, diz o homem louco. É por isso que, ainda que seja manhã, é preciso andar com uma lanterna. Deus está morto e foram os homens que o mataram. A chama que iluminava os ideais do ocidente se apagou e foram mesmo os homens que a apagaram.

Nietzsche, um extemporâneo com incrível percepção de seu tempo, anunciou a morte de Deus na penúltima década do século XIX. Disse que “esse acontecimento enorme está a caminho” (GC, § 125), mas ainda não poderia ser ouvido por completo. Assim como as estrelas, diz Nietzsche, a morte de deus precisava também de tempo para ser vista. Assim como o corisco e o trovão, a morte de deus, desse deus enquanto causa e determinação externa de toda vida, precisava de tempo para ser ouvida.             As últimas décadas do século XX, quase cem anos depois, são a hipertrofia dessa orfandade que o homem passa a experimentar depois que Deus deixa de ser a causa e o fim de todas as coisas. As igrejas, diz ainda o homem louco, não passam mais de um mausoléu, onde já se pode ouvir os coveiros cavando covas. Deus está morto enquanto ideal, enquanto justificativa, enquanto matriz interpretativa. A ciência passa, então, a ser a matriz interpretativa e diretora do ocidente, mas não conforta como antes poderia confortar a ideia de deus.

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