Violência psicológica e cativeiro mental: sobre Maid, minissérie da Netflix

O TEXTO RELATA UMA CENA DE VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA/FÍSICA, PRATICADA EM AMBIENTE DOMÉSTICO. PODE TE FAZER LEMBRAR DE EXPERIÊNCIAS VIOLENTAS, CASO JÁ TENHA SIDO VÍTIMA DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. POR FAVOR, SE ESSE FOR SEU CASO, NÃO LEIA ESSE TEXTO NESSE MOMENTO. ESTAMOS JUNTAS!

Acabei há pouco de assistir a minissérie Maid, disponível na plataforma Netflix. Para quem sobreviveu à violência psicológica, ou para quem ainda está vivendo-a, é certamente uma série cheia de gatilhos, que nos fazem recordar de momentos terríveis. Nossas dores parecem muito particulares, mas o funcionamento da violência psicológica, da perspectiva de quem a pratica, é muito similar. Assistir a série foi ainda mais duro porque, além das lembranças, no Brasil não temos nem metade dos recursos e auxílios governamentais que aparecem na série e que permitiram que a protagonista sobrevivesse, apesar de as leis brasileiras soarem mais “avançadas” no espectro de possibilidades de proteção da vítima.

Duas questões me pareceram muito fortes – a invisibilidade desse tipo de violência, e a conivência das “testemunhas”.

A violência psicológica muitas vezes não deixa hematomas na pele. Então, a primeira dificuldade é mostrar que ela exista. É difícil para quem vive, de se convencer que está vivendo, e mais difícil ainda para prová-la, em situações institucionais. Nosso comportamento, enquanto vítimas, vai mudando, em função da sensação sólida de que diante do agressor não há saída. Porque a saída não é a porta ou a janela ou a rua. A violência psicológica nos encerra num cativeiro mental.

Quem está em volta, muitas vezes atribui a mudança de comportamento das vítimas a um problema da vítima, e não do agressor. A série mostra isso com muitas nuances. Em grande medida, o que sustenta a conivência entre testemunha e agressor é o próprio patriarcado. Os mecanismos de controle dos corpos, principalmente das mulheres, são muito normalizados, então uma típica prática de violência doméstica, como ordenar onde a mulher deve estar ou não, é tida como uma ‘questão’ que o ‘casal deve resolver’.

Quando fui vítima desse tipo de violência, eu só comecei a formular que estava vivendo uma relação violenta quando uma amiga de outro estado veio passar umas semanas comigo. Ela enfrentava o agressor de modo bastante inteligente, e aquilo começou a despertar em mim o vislumbre de uma rota de fuga. Mas, muita gente que via a situação de fora, tomou toma partido dele quando consegui dar fim à relação.

No último dia que o vi, estávamos voltando de um bar à noite. Eu viajaria para uma palestra no dia seguinte pela manhã. Ele me deixou em casa e subiu até meu apartamento. Começou a reclamar que eu não me comportava como namorada dele quando estávamos em público. Eu não queria discutir porque tinha que terminar de arrumar minha mala e acordar cedo para terminar minha conferência e ir para o aeroporto. Além do mais, era o último dia de um resguardo que eu estava fazendo, e não queria me alterar. Ele insistia, em tom de ladainha, sobre como eu deveria me comportar e sobre como ele estava cansado do meu comportamento. Eu já estava de toalha, queria tomar banho, mas queria que ele fosse embora antes. Não suportava mais, mas ao mesmo tempo me sentia presa num labirinto, de onde não conseguia encontrar a saída. Eu estava na minha casa, eu dizia para ele ir embora, e ele permanecia. Até que resolvi falar mais firme, dizendo para que ele imediatamente se retirasse de minha casa. Estávamos frente a frente no corredor. Ele então me deu um tapa na cara.

Não chegou a marcar – novamente a invisivilidade de algumas práticas violentas. Não chegou a marcar, mas ali eu entendi o que a série Maid mostra muito bem: se eu não desse um basta naquele momento, nada me garantia que o próximo tapa não seria um soco, um chute, algo pior. Eu ainda me recuperava do que tinha acabado de acontecer, ele começou a tentar me convencer se que ele não havia me dado um tapa. O que parece bastante estranho, mas depois descobri fazer parte do ciclo da violência psicológica: abuso > gaslighting > modo anjo > abuso etc. E assim a vítima passa a duvidar de si, e se torna o alvo perfeito para o agressor.

Depois do ocorrido, apenas abri a porta em silêncio e ele foi embora. Não consegui dormir direito, e perdi o voo no dia seguinte, que tinha sido pago pelo evento para o qual eu havia sido convidada. Tive que eu mesma pagar dois mil reais para conseguir chegar ao evento. Ele nunca me devolveu nem esse dinheiro, nem o dinheiro de outros prejuízos que me deu, porque obviamente o abuso psicológico tinha perpassado toda a relação. Mas antes de comprar outra passagem, fiz tudo que estava ao meu alcance para que ele nunca mais chegasse perto de mim.

Automaticamente, ele se converteu na vítima da situação e se aproximou de várias pessoas que eram próximas a mim. Ele organizou um evento sobre violência contra mulher, chamou essas pessoas. Se safou, inclusive porque eu não fiz denúncia – invisibilidade das marcas da violência psicológica + inabilidade das testemunhas em testemunharem. Senti muito medo também de ser exposta e ter minha saúde piorada ainda mais. É fácil dizer para as vítimas de qualquer tipo de violência para elas denunciarem as violências. Mas pouco se fala sobre as consequências de não termos preparo, enquanto sociedade patriarcal, para que as vítimas tenham o apoio necessário para se recuperar.

A minissérie Maid, a meu ver, lança luz aos bastidores de certas práticas de violência que precisam sim ser mais discutidas. Ativa muitos gatilhos, é verdade, para quem já sofreu esse tipo de violência, e por isso senti falta de um pouco mais de cuidado com os avisos.

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