.:. Tradução e Destino .:.

Obba, por Claudia Krindges

Obá, te dou minhas orelhas. Delas, depois que te soube, nunca mais precisei. Tateio tua força. Alimento-me da sopa que Shango não quis. Cresço nela, e apesar me gesto outra placenta. Temo o câncer que insiste.  No entanto, me sabes cansada.

Isadora Machado, Misantrópolis.

.:. Tradução e Destino .:.

Há dois anos atrás, eu enviei uma mensagem pelo facebook para meu Babalawo, com quem não falava já fazia algum tempo. Eu escrevi apenas duas palavras: necesito ayuda. Ele me perguntou o que estava acontecendo. Eu expliquei. Uns dias depois, ele me prescreveu os conselhos que Orula me dava, por intermédio de um dos odus de Ifá. Banhos, rezas e outras delicadezas perfumadas, dessas que me deixam sempre mais encantada com minha religião.

Enquanto eu fazia aquilo que Orula havia me aconselhado, recebi uma outra mensagem de meu Padrinho e de minha Madrinha, dizendo que eles tinham um trabalho para mim. Eu não fazia ideia do que se tratava, mas a notícia encheu meu peito de novas esperanças.

Eu havia sido escolhida para traduzir o livro que Ifalade Olowo e Oshun Bomite, meus sacerdotes de Osha-Ifá, tinham escrito. Tratava-se de um livro de apresentação da Santeria para leigos, ao mesmo tempo que pode ser de muita valia para os já versados nas práticas yorubas.

Tive dificuldade no começo, porque muitas questões ainda pareciam sem resposta: por que eu? E se eu falhar? E se eu não conseguir? Que foram seguidas de perguntas de outra ordem: eu, linguista, traduzindo? Qual método usar? Quais escolhas teóricas podem embasar essa tradução? E assim eu ia me distanciando do trabalho, e passei alguns meses paralisadas pelo medo e pelo espanto.

A solução que encontrei resolvia em parte. Eu decidi escrever um projeto de pós-doutorado sobre tradução, para então traduzir o livro. Consegui uma licença e estou aqui, quase dois anos depois da conversa inicial, terminando a tradução.

Ainda tenho dúvidas: será que as pessoas de axé vão gostar do livro? Será que vai ser possível estabelecer diálogos com os terreiros brasileiros? Será que vou encontrar uma editora? Será que vou conseguir finalizar a tradução e entregar nos prazos?

Não sei. Entrego ao destino. Ao mesmo destino que me fez sair de minha cidade natal quando eu tinha 21 anos. Que depois me mandou para Campinas. Que depois me lançou ao México, a Cuba, à França. Destino que me trouxe até Salvador, onde hoje formulo outras dúvidas.

Mas, dentre tantas incertezas, uma coisa é certa: traduzir esse livro mudou minha vida e me fez reviver. Eu estava muito doente, e a tradução desse livro me fez querer reviver meu corpo para poder traduzi-lo. Essa tradução tem me exigido um processo de purificação fisiológica e espiritual também. Tive que adequar meu comportamento. Melhorá-lo.

A tradução, que leva consigo o corpo daquele que traduz, conjuga esse corpolinguagem a dobras – dobra de línguas, dobras de temporalidades. Dobra de vida sobre vida.

Eu agradeço.

Maferefun la Osha. Maferefun Ifá.

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