. é agosto, silêncio .

Lynch, Mulholland Drive [2001].

pela memória de Daiane Griá Kaigang

No hay banda! There is no band. Il n’y a pas de orquestra! This is all a tape-recording. No hay banda! And yet, we hear a band. If we want to hear a clarinette, listen. It’s all a tape. It is an illusion.” – Cena de Mulholland Drive [David Lynch, 2001].

Em 2005, quando vi Mulholland Drive [2001] pela primeira vez, eu já tinha experienciado alguns de meus traumas constitutivos, mas ver esse filme foi um tanto catártico porque tive a impressão que, pelo filme, eu poderia ter emoções tão fortes quanto essa cena em que as primeiras notas de “Yo estaba bien por un tiempo / volviendo a sonreír”, à capela, me impressionavam na medida em que, de algum modo, pareciam ressoar algo de angústia que eu sentia, mas não podia dizer – as notas diziam por mim.

Uma sensação parecida com a de ler O Inominável, de Beckett (1953). E a angústia era então um monstro que me devorava dos pés até a cabeça, e ia dos pés até a cabeça simplesmente pra que eu pudesse estar consciente enquanto via meu corpo ser consumido.

Pausar o filme para buscar refrigerante, ou descansar a vista no horizonte enquanto tomava ar pra seguir o livro, eram coisas que marcavam um limite entre realidade e ficção, e de algum modo essa marca ajudava a alternar quente e frio. Hoje, 17 de agosto de 2021, tudo parece morno, apesar de tantas tragédias.

Uma breve rolagem de tela no Instagram me levou do Haiti ao Afeganistão, do Líbano ao Rio Grande do Sul – onde Daiane Griá Kaigang foi assassinada depois de estuprada [ela tinha hematomas por todo o corpo e teve a parte inferior do corpo dilacerada]. Cheguei à Palestina. É tudo tão grave, que as tragédias perdem suas singularidades e esfriam, tornando-se apenas manchetes em feeds requentados – mix de propaganda de cafeteira recebida com a hashtag #publi e dizeres como “pray for”, que também são #publi só que de outro jeito.

Uma atriz que eu admiro muito compartilhou em seu feed vários cards, e cada um deles explicava porque Líbano, Haiti e Afeganistão viviam momentos trágicos.

Nossa jovem Kaigang não estava nesses cards, nem estava Gaza, talvez porque as tragédias ameríndias e palestinas tenham sido normalizadas em uma empresa-Instagram ávida pela notícia que outra pessoa semi-conhecida vai saber por meu intermédio, engajando-me assim como alguém empático e carismático que mantém então a imagem de alguém que se preocupa com os outros. No Instagram, se eu compartilho uma frase sobre uma tragédia já posso dormir com minha cabeça num travesseiro de plumas tão leves quanto minha consciência.

O que as tragédias do Líbano, do Afeganistão e do Haiti têm em comum? O sujeito da ação: imperialismo estadunidense. Ora, mas até quando vamos culpar os Estados Unidos da América pelas tragédias no mundo?

Ora, até quando vamos fingir que algumas tragédias só são forjadas num modo de produção capitalista, isto é, num modo de produção racista e cisheteropatriarcal?

É uma ingenuidade muito grande, também algum mau caratismo. Instagram, Twitter, WordPress, o semi-morto Facebook, são empresas privadas – e parece estarmos presos na metalinguagem capitalista, porque pra dizer isso pareço precisar de uma das empresas citadas. Os movimentos sociais desde muito sabem que as articulações também acontecem no ‘chão da fábrica’, e que isso é diferente de fazer uma reunião com meia dúzia de representantes dentro do escritório do patrão.

Se eu fosse uma capitalista dona dos meios de produção, certamente veria o rumo dos trend topics e das hashtags, e iria no sentido contrário. Traçaria estratégias pelos fluxos de rede.

Algumas mudanças são tão profundas que parecem impossíveis. É difícil imaginar um mundo futuro sem internet. E isso me assusta, cada dia mais.

A sensação que eu tenho é que nunca sairei de dentro do Club Silêncio – em que não há banda, não há orquestra, e por isso então concluo que todo ruído dentro do pesadelo é real.

Beckett surge de dentro de um barril e, diz:

“eu serei ele, eu serei o silêncio, eu estarei no silêncio, seremos reunidos, sua história que é preciso contar, mas não há história, ele não esteve na história, não é certo, ele está na história dele, inimaginável, indizível, isso não vale nada, é tudo o que sei, não sou eu, é tudo o que sei, não é o meu, é o único que tive, não é verdade, devo ter tido o outro, aquele que dura, mas não durou, não compreendo, ou seja sim, ele dura sempre, estou nele sempre, deixei-me ficar nele, nele me espero, não, não se espera nele, não se escuta nele, não sei, é um sonho, talvez seja um sonho, isso me espantaria, vou acordar, no silêncio, não adormecer mais, serei eu, ou sonhar ainda, sonhar um silêncio, um silêncio de sonho, cheio de murmúrios, não sei, são palavras, não acordar nunca, são palavras, há apenas isso, é preciso continuar, é tudo o que sei, eles vão parar, conheço isso, eu os sinto me deixando, será o silêncio, um pequeno instante, um bom momento, ou será o meu, aquele que dura, que não durou, que dura sempre, serei eu, é preciso continuar, não posso continuar, é preciso continuar, vou então continuar, é preciso dizer palavras, enquanto houver, é preciso dizê-las, até que me encontrem, até que me digam, estranho castigo, estranha falta, é preciso continuar, isso talvez já tenha sido feito, talvez já me tenham dito isso, talvez me tenham levado até o umbral da minha história, ante a porta que se abre para a minha história, isso me espantaria, se ela se abre, serei eu, será o silêncio, aí onde estou, não sei, não o saberei nunca, no silêncio não se sabe, é preciso continuar, não posso continuar, vou continuar.”

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