. ‘depois da pandemia’: sobre coisas que não existem e produzem efeito .

“Montée de Sèves”, Wifredo Lam em art.com

Vamos marcar aquele rolê! Sim, quando a pandemia acabar. Depois da pandemia, vou cortar o cabelo. Assim que acabar a pandemia, compro uma passagem só de ida para Zanzibar. Quando acabar esse pesadelo, seremos pessoas melhores – talvez o aquecimento global até regrida, porque Deus vai ver como somos seres humanos melhores depois da pandemia. Depois da pandemia, eu vou: viajar, ir na sua casa, finalmente ver um show da Beyoncé, aprender receitas de comida tailandesa, parar de fumar. Depois da pandemia, tudo será diferente. Imaginaram o Carnaval depois da pandemia? Em Salvador, teremos uma festa que vai começar dia 1º de dezembro e vai acabar só depois da Páscoa. Depois da pandemia, não agora. Agora não, quando acabar a pandemia a gente faz e acontece.

Na minha opinião: não existe ‘depois da pandemia’. A pandemia não vai acabar.

A sensação que eu tenho é que dizer depois da pandemia nos dá um conforto mental de que, em algum momento, seremos capaz de esquecer os quase 5 milhões de mortos – 600 mil só no Brasil. Quando eu paro para pensar, acho impossível a possibilidade de existir algo parecido com o fim de uma catástrofe tão grande.

Isso porque podemos esquecer várias coisas, e é saudável que o façamos. Mas esquecer 5 milhões de mortes é uma tarefa impossível. Do ponto de vista mais individual, são muitas famílias destroçadas – as pessoas continuarão suas vidas, mas há um luto muito particular quando a tragédia afeta tanta gente ao mesmo tempo. Do ponto de vista coletivo, é algo que constituirá muitas gerações (X, Y, Z, Alpha, o que seja…).

É por isso que não acredito que existe “depois da pandemia”. Aqueles que sobreviverem, terão a difícil tarefa de honrar seus mortos. Fico me perguntando: 5 milhões de mortos e eu ainda estou viva. Por que eu? Que vou fazer com uma coisa tão grande: sobreviver a essa tragédia política, sanitária, humana? A única opção que não vejo é: agir como se nada tivesse acontecido. Será preciso ressignificar.

A mitologia judaico-cristão, aliada fundamental do capitalismo, impõe à boa parte do mundo uma visão única sobre o tempo: o tempo seria uma linha reta – passado, presente e futuro, divididos em antes e depois de Cristo; antes e depois da escrita; essa linha reta seria uma seta sempre apontando para a direita, o ‘futuro’. Por isso, dizemos que o tempo oriundo da mitologia judaico-cristã é progressivo, ou seja, que quanto mais o tempo passa, mais progresso existiria; e que o tempo judaico-cristão é escatológico, ou seja, que há sempre uma finalidade específica para essa passagem do tempo, que pode ser o fim do mundo ou um estado de bem-estar eterno.

“Seguindo o condicionamento das escritas ocidentais e ocidentalizadas, coloca-se nessa linha um ponto: à esquerda do ponto, há a pré-história; à direita do ponto, a História. Do ponto à direita em diante, caminhou o homem – essa palavra que apaga o gênero deste corpo que escreve – em direção a outro ponto: o cristianismo. […] Estaríamos, agora, há quase exatos 2015 anos depois do ponto. O tempo, simbolizado como uma linha reta, determina todas as nossas atividades econômicas e, como era de se esperar, científicas. A partir desse imaginário, de que o tempo, assim como a escrita, caminha da esquerda para a direita, para frente, é que a ciência ocidental, compreendida a partir da objetividade, se funda. Com essa concepção linear do tempo, seria possível descrever a ciência como a história de um progresso, de descrever esse progresso como um melhoramento. Isso afeta o cotidiano de muitas maneiras. Afeta fundamentalmente nossa construção como sujeitos de conhecimento.” [MACHADO, 2015, modificado]

Essa, no entanto, é uma concepção de tempo. Existem outras. Muitas outras.

Talvez a grande tarefa para quem vai sobrevivendo à pandemia de COVID-19 seja justamente reencontrar outras temporalidades, abdicando da ideia de progresso em função de ideias menos soberbas a respeito de quem somos e para onde vamos.

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