há grandes coisas a serem desfeitas

Fonte da Imagem: Divination with Ifa

Há grandes coisas a serem feitas. Penso sobretudo na possibilidade de continuar. Grande coisa. A cada instante de coragem, junto grãos de areia no bolso interno da camisa cáqui. Esqueço as cores. Sigo tingindo meus amuletos. São cores de lugares distantes, que quase cheiram a mofo. Cabe na pele ainda alguma memória. De tinta eu sei, pouco me resta de lugar para tinta. Mas, da memória? Tento decifrar a unidade para medir o que há entre a pele e as histórias por contar.

Gosto do cheiro da manga que acaba de cair. Acho azedo uma palavra engraçada. Ruído, uma imagem que o tempo não oxida. Mas, é agosto. Que os silêncios que se escondem nos meus poros me protejam da fúria daquele que desce à terra.

Hoje é tempo de prosseguir. Sob os pés purulentos, sou capaz de compreender a chaga que devém tantos egos carcomidos. Me olho no espelho, não me vejo. Lembro da tia que segurava meu primo no colo, e dizia do perigo de que a criança se visse no espelho. Não lembro se a palavra era pecado ou doença. De qualquer modo, é agosto. E agosto me traz o estranho exemplo do rei que sofreu.

Que meus colares não se aniquilem em tentativas sabotadas pelo afeto. Que nada no mundo se esbarre ao que em mim é Desejo, pois se nele há algo que se desfaz, há, sobre todos, os grandes pés curados do grande rei. Mas, é agosto. Tenho em mim a beleza do rei. Guardarei em baús, caso não caiba em mim toda a glória. Deixarei os baús embaixo da cama onde antes eu abrigava fantasmas.

Ao final, olhar pra mim. Eu que não me via no grande quadro de pedaços bricolados de excertos que roubava de quem passava. Eu hoje acordei inteira. Cada chaga foi coberta com unguento brilhante pelo rei. Mas, é agosto. Em cada pústula o rei fez plantar nascer crescer um girassol mestiço. Eu que não me via grande, a cor dei a novos elos de lã reluzente.

Eu que batia na santa católica porque bater na Tia era demais. Insuportável, eu diria. Campos e Campos. Qual ano, não sabia. Todavia, há algo da moral que não se perspectiva. Há algo dele que produz em mim efeito – porque só há causa daquilo que falha.

Se hoje o Rei, antes houve o Pai. Que cumpriu sua função – Lei, Limite, Laço. O que mais eu posso querer? Nova missão.

Se não me escutam, lembrar que eu falo ao Arco-Íris. Efemeridade e permanência são a ponte construída a cada passo. Lembrar que é ao Arco-Íris a quem faço reverência para traduzir espaços cenográficos. Chapeu de Eleggua – em terra de Rei, quem traduz eu bem sei.

Tenho da Real cabeça de Obatalá, brotada do ovo de Asesu – dizia Glissant, uma ilha pressupõe outras ilhas.

Mas, é agosto.

Atoto!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s