Por que sigo fazendo Ciências Humanas num país que odeia as Ciências Humanas?

Imagem: Criança geopolítica assistindo ao nascimento do homem novo, Salvador Dali [1943]

Para Ana Carolina Suzart, Conceição Lessa, Nathalia Carvalho e Lucas Reis, pela aposta

Nos governos Temer e Bolsonaro, a ciência brasileira passou a sofrer ataques como nunca havia se visto na história desse país. Não nas mesmas proporções.

É verdade que no governo Dilma Rousseff tivemos um corte profundo nos recursos das Universidades. No entanto, nada se compara ao combo Temenaro. Inclusive porque, em nenhum montento, tivemos um ataque tão direto às ciências em geral, e às Ciências Humanas em particular.

Conforme prometido por Bolsonaro em campanha, desde o ano passado as Ciências Humanas deixaram de ser áreas prioritárias, e temos cada vez menos bolsas para pesquisa. Isso porque, na lógica bolsonarista, as Ciências Humanas representam a esquerda nas Universidades – uma vez que a esquerda deveria ser combatida, logo, as Ciências Humanas precisariam ser minadas. O governo tem feito isso, então, principalmente por meio do corte das bolsas de estudo e das verbas para assistência estudantil.

Vivemos um tempo de poucos sonhos, muitas distopias, e menos dinheiro no bolso.

A remuneração não é a única razão pela qual fazemos as coisas. Somos movidos por desejo também, e por ambições que podem viajar pelos delírios individuais ao mesmo tempo que se somam a projetos coletivos. No governo Bolsonaro, nós professorxs e cientistas temos sido atacadxs das mais perversas maneiras. Em vários momentos, preciso lembrar o porquê de fazer Ciências Humanas, num país em que se passou a odiar as Ciências Humanas. Por que, então, continuo minha carreira de cientista na grande área das humanidades?

  1. Porque todas as vezes que me reúno com minhas/meus orientandxs, elxs me provam que, apesar de tudo, há quem sonhe em seguir a carreira de cientista. Xs estudantes com quem trabalho continuam, apesar de, e não serei aquela que pula do barco para buscar um lugar melhor no bote [apesar de compreender quem o faz];
  2. Porque refletir criticamente sobre a materialidade das coisas me mostra que, por serem históricas, as relações sociais podem ser transformadas: nem sempre o mundo foi esse mundo que conhecemos, então a condição da continuidade é a mudança;
  3. Porque quando estou reunida com meu grupo de pesquisa, eu vejo olhos que ainda brilham e muitas vezes o semblante de quem acabou de compreender algo muito importante;
  4. Porque ninguém nunca me disse que seria fácil;
  5. Porque ler e escrever e pensar ainda é o que me move;
  6. Porque ainda há perguntas que envelheceram;
  7. Porque minhas/meus professores me ensinaram o caminho das pedras;
  8. Porque, disse Conceição Evaristo, que combinaram de nos matar mas nós combinamos de não morrer;
  9. Porque ainda desejo pintar com novas cores a Idade do Mundo;
  10. Porque disse Ifá: lento pero aplastrante.

Até a vitória, sempre!

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