Bairrismo, nas universidades, é a microestrutura do colonialismo

Imagem: El Coyote

Criam uma vaga X. Ao invés de fazer um processo seletivo, eles já sabem quem vai ocupar a vaga X. Como eles sabem? Ora, é evidente. Não há nada mais óbvio do que quem deve ocupar a vaga X. Me refiro aqui às tratativas internas da administração universitária, e não aos concursos públicos e outros mecanismos de seleção de pessoal. Esses, sim – já entenderam que a lisura é a chave mestra. Refiro-me ao miúdo das relações, aos cotidianos, ao que é microcelular.

Mas e aquela pessoa que também cumpriria os requisitos? Bem, eles não conhecem, então não existe. Tem essa que eles conhecem e com quem mantém boas relações. Então eles escolhem, porque é evidente.

Na Análise de Discurso aprendemos que o funcionamento da evidência é aquilo que é próprio do funcionamento ideológico. Os processos ideológicos (interpretativos) funcionam porque se constroem como evidências. É evidente que casar é melhor que ficar solteiro; é evidente que todos precisam comprar um carro e um apartamento e depois casar e ter filhos; é evidente que humanismo é o que nos garante a vida. É evidente que aquele fulaninho deve ocupar a vaga que acabaram de abrir.

Muito se discute sobre a neutralidade, ou a impossibilidade de, nas ciências. Sim, não há neutralidade porque os cientistas são um emaranhado subjetivo e porque as relações de força jogam com nosso desejo. No entanto, que não haja neutralidade na ciência não é uma razão pra que a Universidade funcione sempre por um jogo de pessoalidades. Isso é bolsonarismo. Isso é justamente o que dizem combater.

Isso acontece com vagas, com lugares, com posições. Por mais contrahegemônicas e democráticas que algumas posturas encenem ser, é sempre pela práxis que podemos construir a ética universitária. Do que adianta ser contra a política educacional do presidente Bolsonaro, se no cotidiano as escolhas são feitas pelos mesmos critérios: quem tem boas relações com o grupo de poder, e portanto beneficiará o grupo de poder, é a solução natural. Não há nem seleção nem processo seletivo possível que desloque a naturalidade com que quem está no comando lida com algumas situações.

São 521 anos depois da invasão portuguesa, e nas universidades algumas pessoas são escolhidas pelos mesmos critérios de ordenações sebastianas: proximidade da família ou de si com o Rei; boa vizinhança; ou ainda por terem simplesmente sido nomeadas boas.

Mas isso é hora de criticar as Universidades? Não. Mas passou da hora de a Universidade combater esse ranço colonial dentro dela mesma.

Se as Universidades brasileiras querem exercer sua própria cidadania, elas precisam urgentemente combater o bairrismo organicista. Porque o bairrismo, sabemos bem, é a microestrutura do colonialismo.

3 pensamientos en “Bairrismo, nas universidades, é a microestrutura do colonialismo

  1. Concordo: não é a hora de criticar as universidades, mas quando será? Em que medida a universidade, como “microestrutura” do colonialismo, não é justamente um espaço para o desenvolvimento de uma práxis revolucionária (ética, teórica, política… uma “questão de responsabilidade”, como diz Pêcheux) que propiciaria a dissolução do que vemos no macro? Se acreditamos que a universidade é um espaço de transformação da sociedade, mas ela não tem realizado isso, não criticarmos a universidade (porque não é a hora) também não é abrir mão (sujar as mãos) com a manutenção das estruturas coloniais-capitalistas? Não é algo como, não vou brigar com o capataz, porque tenho que brigar primeiro com o escravizador; mas não vou brigar com o escravizador, porque tenho que brigar com o traficante de escravizados; não vou brigar com o traficante, porque tenho que brigar com a Coroa; não vou brigar com a Coroa, afinal tenho que brigar com o Papa? Não está na hora de criticar as universidades, porque temos que proteger as universidades… Sim, até que as universidades deixem de ser espaços que mereçam ser protegidos…

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  2. Concordo: não é a hora de criticar as universidades, mas quando será? Em que medida a universidade, como “microestrutura” do colonialismo, não é justamente um espaço para o desenvolvimento de uma práxis revolucionária (ética, teórica, política… uma “questão de responsabilidade”, como diz Pêcheux) que propiciaria a dissolução do que vemos no macro? Se acreditamos que a universidade é um espaço de transformação da sociedade, mas ela não tem realizado isso, não criticarmos a universidade (porque não é a hora) também não é abrir mão (sujar as mãos) com a manutenção das estruturas coloniais-capitalistas? Não é algo como, não vou brigar com o capataz, porque tenho que brigar primeiro com o escravizador; mas não vou brigar com o escravizador, porque tenho que brigar com o traficante de escravizados; não vou brigar com o traficante, porque tenho que brigar com a Coroa; não vou brigar com a Coroa, afinal tenho que brigar com o Papa? Não está na hora de criticar as universidades, porque temos que proteger as universidades… Sim, até que as universidades deixem de ser espaços que mereçam ser protegidos…

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