Ciência é a arte do encontro

IMEC, em Caen (Normandia/França), abril de 2013.

Criando todas as coisas, ele entrou em tudo. Entrando em todas as coisas, tornou-se o que tem forma e o que é informe; tornou-se o que pode ser definido; e o que não pode ser definido; tornou-se o que tem apoio e o que não tem apoio; tornou-se o que é grosseiro e o que é sutil. Tornou-se toda espécie de coisas: por isso os sábios chamam-no o real.

Upanishades

Em 2009, troquei minhas primeiras palavras com Eni Orlandi. Estávamos saindo de uma atividade no LABEURB (Unicamp), e em cima daquele morrinho, de onde se via um belo pôr do sol de outono, eu a escutei me dizendo: “Pode procurar que você acha. Talvez os escritos de Pêcheux sobre Nietzsche já estejam em um arquivo público. Mas vai fundo que Pêcheux era leitor de Nietzsche”.

Eu mal podia me conter de alegria. Depois de ter ouvido de uma grande intelectual que “não sabemos o que Pêcheux faria depois de ler Nietzsche”, eu comecei a achar que minha investigação era vã. Algum tempo depois, é verdade, descobri que essa grande intelectual não tinha tido acesso ao original em francês de L’inquietude du discours. Nesse livro, Maldidier diz que Pêcheux ia reler Nietzsche, mas na tradução brasileira houve um pequeno desvio, e ficou como “Pêcheux ia ler Nietzsche”.

Traduções à parte, desde essa conversa com essa grande intelectual, eu havia entrado em um movimento extremamente reativo frente ao meu trabalho de pesquisa, com a forte impressão de que estava buscando respostas para o sexo dos anjos.

Minha questão, desde o mestrado – aquela questão que me fazia dormir e acordar todos os dias, era de que modo Pêcheux havia lido Nietzsche, ou, em terminologia popular, qual a influência de Nietzsche em Pêcheux.

A conversa com Eni Orlandi naquela tarde de outono mudou minha orientação de forças. Cheguei em casa esbaforida, e liguei o computador: se esses projetos de texto estavam em algum arquivo público, eu os encontraria fizesse chuva ou fizesse sol. Com meia hora de nevagação encontrei o site do Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine, o IMEC. E, na lista de documentos do espólio de Pêcheux, constavam, reluzentes os Projets Nietzsche, dos quais Eni havia me falado.

Eu ainda estava no primeiro ano de mestrado, e não tinha dinheiro para viajar para a França. Por isso, no mestrado estudei outras relações de Nietzsche com a Linguística. Mas aquele dia mudou o curso das coisas, pois eu sabia quais caminhos eu precisaria trilhar para chegar até o arquivo.

Com uma bolsa FAPESP de doutorado, interrompida por uma bolsa CAPES de doutorado-sanduíche na França, cheguei ao IMEC em abril de 2013. Nada me apagará da memória as camadas dos muros daquela antiga abadia dispostas em arqueologia assimétrica, o gosto dos queijos do almoço, e a cobra verde que vi no jardim enquanto fumava um cigarro depois do almoço. Nada me apagará da memória o tato nos documentos que tateava Pêcheux, nem o azul das folhas onde unicamente eram permitidas anotações, e nem o cheiro da letra de Pêcheux que curiosamente eu parecia decifrar. Ali eu fui feliz.

Eram outros tempos. Tínhamos bolsas e verbas para pesquisas. As Ciências Humanas eram mais ciências do que são hoje. Mesmo com tanto por fazer, tínhamos uma trilha menos íngreme, mas de subida constante.

Os Projetos de Texto de Pêcheux sobre Nietzsche tinham um caráter tão revolucionário, que de fato me inflamaram novamente à área dos estudos discursivos, com a qual sempre tenho idas e vindas, para a qual não cultivo nenhuma subserviência, mas sem a qual também nada me satisfaz nas Ciências Humanas.

A ciência não se faz de neutralidades – ela é feita de encontros, afetos, desencontrontos, disputas, solitude, lágrimas, frustrações, recomeços. A ciência não se faz sem tomar posição. Ciência de faz de cotidiano, de café amargo, de horas sem dormir. De ansiedade, de abraços, de almoços ruins. A ciência se faz e se refaz, no mesmo sentido que a água se faz e refaz em cursos, sendo o nosso dentro, sendo chuva, às vezes sereno, outras vezes rio, e também oceano profundo e beira do mar.

Desejo que num futuro breve a ciência brasileira se encha novamente de esperança, e coragem. Compartilho um trecho de minha tese de doutorado, que se chama Nietzsche, o destino singular da linguagem, defendida em fevereiro de 2015 no Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP – uma prova cabal de que a ciência é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros, para parafrasear Vinicius de Moraes.

*

Para Nietzsche, as palavras não significam em si – uma “coisa em si” é tão absurda quanto um sentido em si. Tampouco significam a partir de seus usos – a noção de uso, cara a algumas pragmáticas linguísticas[1], desconsidera as relações de poder e submissão, desconsidera os efeitos das vontade de verdade e de poder, relações que são, para Nietzsche, fundamentais para se compreender de que modo uma palavra se torna o que ela é. Os sentidos não variam aleatoriamente ou segundo o uso ou a função que (se) exercem. Os sentidos dependem de quem fala e de onde se fala – o sentido de bom na enunciação do nobre e o sentido de bom na enunciação do escravo se diferem exatamente porque expostos a diferentes cenas enunciativas, ou, a diferentes posições discursivas, para retomar os termos de Pêcheux e Orlandi.Podemos dizer que é fundamentalmente aqui que a Análise de Discurso e Nietzsche confluem: a pergunta primeira pelo sentido é a pergunta por quem fala, a partir da atuação de quais forças, sujeito a que tipo de interpelação, determinado por quais formações discursivas (moral-cristã, por exemplo). Cabe ainda ressaltar, para justificar a presença de Nietzsche nos projetos de Pêcheux com vistas a uma história genealógica do socialismo, a função da análise da língua na determinação dos processos morais e ideológicos.

            Ainda no “Prólogo” de Genealogia da Moral, no § 6, Nietzsche se pergunta sobre as condições e circunstâncias do surgimento dos valores. Não é uma pergunta sobre a “causa”, tampouco a resposta é que os valores bons se originaram das ações boas. A pergunta pelo valor dos valores se equipara às perguntas da Análise de Discurso sobre o sentido dos sentidos: a pergunta não é mais pelo conteúdo (qual o sentido de A), mas pelo funcionamento (qual o sentido do sentido de A). Há uma relação bastante frutífera entre a noção de ideologia na Análise de Discurso, e a noção de moral em Nietzsche – retomaremos essa relação mais à frente.

            A filosofia de Nietzsche é sem dúvida um combate a qualquer tipo de pensar ­a-histórico: tudo que é, deveio. Pensar a moral, então, é pensar que um determinado estado moral deveio, o que quer dizer que nem sempre foi assim, e que, dessa maneira, podemos descrever quando houve a mudança, em que circunstâncias elas se deram. O trabalho para determinar essas condições de surgimento dos valores e dos sentidos é uma empreitada linguística. Nietzsche se detém na etimologia das palavras bom e mau para determinar o valor desses valores. A etimologia não é tomada como fonte da origem verdadeira do sentido, pois o que Nietzsche demonstra é justamente que, se por um lado as palavras “começam” significando algo, ao longo do tempo os sentidos se modificam, carregando o histórico de sentidos (há algo que vai significando também pela permanência). Essas modificações equivalem a transformações conceituais na história do sentido das palavras.

Esse movimento analítico de Nietzsche é o de, ao se perguntar por um valor moral (uma questão ideológica), voltar a atenção especialmente para a língua (um sistema de signos, um tipo de linguagem, diferente da música, por exemplo), para a transformação do sentido da palavra, recusando uma explicação sociologista (utilitarista) e psicologista (Spencer), em favor de uma explicação que relaciona língua e história (Guerra dos Trinta Anos) – nosso problema, um problema silencioso.

            Eis a principal especificidade de Nietzsche enquanto filósofo: enquanto filólogo, atentou para a língua, e não apenas para a linguagem. Enquanto filósofo, analisou os temas filosóficos com atenção de linguista. Nietzsche, o primeiro analista de discurso[3] – o discurso cristão, o discurso científico, o discurso filosófico. Disso decorre que o projeto de Pêcheux sobre Nietzsche tenha sido justamente o de pensar as relações entre o sujeito (enquanto problema metafísico apontado por Nietzsche – o eu é uma superstição) e a ideologia (enquanto problema histórico apontado por Nietzsche – a moral é uma perspectiva), o que resulta na reflexão em termos de língua e discurso – a língua enquanto instrumento material da moral para impor e estabelecer uma determinada perspectiva.


[1] Pragmática designa domínios diferentes em Linguística e Filosofia.

[3] Não pedirei perdão pelo anacronismo.


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