Se não mata, engorda: e o que isso tem a ver com seu pós-doutorado?

Dona Sônia e Isadorinha, em 1988.

Texto em co-autoria com Aércio Machado Jr., meu tio-pai.

pro Noah Machado, filho de Fabi e Túlio – que você chegue com muita saúde ❤

Isso não mata não, Bobo, era o jeito de minha Vó dizer que aquilo que não mata, engorda. Vovó não dizia que alguém tinha tomado susto: Vovó dizia que Fulano não cagou porque não tinha bosta pronta. Vovó não diza que alguém morreu: Vovó dizia que Fulano bateu com a bunda na cerca. Vovó não dizia que alguém estava com diarreia: Vovó dizia que Fulano tá cagando sem o cu saber.

Talvez os dizeres e sotaque e jeito de falar sejam das coisas que mais fazem com que me lembre de minha querida Vó Sônia, fatalmente atropelada em 2015. Ela me ensinou a gostar de plantas, de gatos, de chás medicinais. Com ela aprendemos que tem um chá pra cada dor, mas que arnica, hortelã, romã, boldo, alfavaca e cachaça queimada curam quase tudo nessa vida. Ela não me obrigava nem a pentear os cabelos nem a trocar o pijama. Com ela podia comer cachorro-quente de salame no café da manhã, e guaraná não fazia mal. Ela me ensinou que bondade combina com firmeza. São dela meus olhos, e meus ossos. Lembro dela toda vez que acho que as coisas não tem jeito. Com ela aprendi que falar balde ou barde não define o caráter de ninguém. Mas que são melhores as pessoas que gostam de biscoito de polvilho, frito. Dizem que, durante o velório de Dona Sônia, vários cachorros de rua dormiram tranquilamente embaixo do caixão, enquanto ela não era enterrada.

Minha Vó veio da extrema pobreza, e hoje faz muito sentido que ela sempre tenha dito, diante do pedaço de pão caído no chão ou do cansaço, que isso não mata, que o que não mata, engorda – parece ser da própria fome que ela falava.

Dona Sônia Maria Machado nasceu em Laranja da Terra, no Espírito Santo, mas passou toda a sua vida no Vale do Rio Doce, entre Manhumirim, Manhuaçu, Caratinga, e outras cidades mineiras com nome engraçado. A certa altura ela conseguiu um emprego de servente (hoje talvez fosse chamado de auxiliar de serviços gerais) na rodoviária do Carantiga, e se estabeleceu com os quatro filhos mais novos no bairro do Limoeiro.

Eu me lembro da primeira memória que tenho no barraco de tábua em que ela morava. Eu deveria ter quatro ou cinco anos, e sorria enquanto comia arroz com linguiça e a ouvia contar histórias naquele sotaque que já quis imitar, depois achei engraçado, depois quis negar, mas vi que não dá e hoje chamo de casa. Lembro do prato de arroz com linguiça, do banheiro em que vaso e chuveiro não tinham divisão, das várias plantas medicinais no barranco, do mingau de couve, e de que ela tinha um chá [e uma comida] pra cada sentimento da gente. Com o tempo, os sete filhos que ela teve se juntaram e fizeram uma casa de cimento pra ela. Mas esse barraco está eternizado na cabeça de todos nós, filhos/a e netos/as, porque era justamente assim que ela mesma gostava de se referir – “no tempo do barraco”, “ainda tava no barraco”, e por aí vai.

Hoje me lembrei de novo da minha Vó Sônia e de seu isso não mata, bobo, que é dito e repetido por tanta gente aqui no Brasil. Recebi a ligação de um amigo muito querido que mora na França, e olhava pra o mar enquanto tentava encontrar palavras para descrever pra ele sobre o estrangeiro desses tempos. Sim, porque parece que tudo tem sido pior aqui no Brasil, onde além do vírus, temos o inominável. Esse amigo me perguntou quando eu planejava ir até a Europa, e tive que segurar uma gargalhada – daquelas metade clarão, metade busto maia. Me pareceu absurda a ideia de ter planos enquanto 1910 pessoas morreram na véspera de hoje. Eu me limitei a dizer que, nesse momento, não estava fazendo planos. Foram dois ou três segundos de silêncio até a gente se despedir.

Quando desliguei o telefone, fiquei ainda um tempo olhando a rua. Vi um rapaz bastante jovem com uma mochila do iFood nas costas – o rapaz provavelmente estava andando alguns quilômetros para ganhar quatro ou cinco reais. Não, ele não estava de máscara. Sim, tecnicamente estamos vivendo o pior momento da pandemia. Mas o que ressoou na minha cabeça foi o dito de minha vó: isso não mata, Bobo.

Os jornais dizem não entender porque tantos/as/es brasileiros/as/es “fingem” que nada está acontecendo e continuam com suas atividades “normalmente”. Hoje eu pensei: porque se o vírus não matar, ao menos ele faz a gente engordar. A gente precisa continuar, afinal, porque sabemos que a fome é certa.

No final da vida, já aposentada, minha vó andava mais que notícia ruim – outra expressão que ela sempre usava. No final da vida, Vovó já tinha casa própria, aposentadoria, e mesmo com problemas cardíacos e pressão alta, estava sempre fazendo torresmo, frango frito, biscoito de polvinho. Ela dizia que quem muito se priva, também morre – dizia com outras palavras, mas era esse o recado. Tio Aércio sempre lembra que ela dizia: vamos comer tudo hoje porque não sabemos o dia de amanhã – quando tinha comida, a comida deveria ser aproveitada, porque ninguém sabia se a panela estaria cheia ou vazia depois.

Fico imaginando minha Vó Sônia se estivesse viva nesses tempos sombrios. Todo mundo brigava com ela pra comer menos açúcar, menos gordura, e principalmente pra não ficar pra cima e pra baixo naquele Caratinga. Quando Vovó fez 60 anos, ela se orgulhava de dizer que agora não ia precisar mais pagar passagem no circular. Circular é como chamamos ônibus no interior de Minas. Se algum tio/a/e ou primo/a/e ler essa crônica, certamente vai dar risada: imagine Dona Sônia usando máscara, passando álcool em gel nas mãos, e trancafiada dentro de casa porque tem um vírus horroroso do lado de fora. Pois é, também não consigo imaginar. Mas é certo que o vírus ia correr dela, diz Tio Aércio enquanto rimos imaginando.

Quando Vovó já não precisava mais de nada material – porque talvez tenha sido essa sua grande liberdade – ela passou a juntar latinhas para dar a pessoas em situação de rua, pra que vendessem. Segundo Tio Aércio, quem iniciou a tradição de revirar lixo foi minha bisa Vó Dolarisa, que não levava o Aercinho, e de quem o Tio Romilton fugia porque não queria mexer no lixo de jeito nenhum.

E, obviamente, não podemos falar de Dona Sônia sem falar dos panos de prato alvíssimos com baianas bordadas em rosa, verde, preto e amarelo, e com as bordas num perfeito crochê vermelho.

No dia em que ela morreu, inclusive, ela tinha ido a Santa Bárbara, cidade próxima a Carantiga, vender uns panos de prato para as amigas. Quando chegou lá, não tinha ninguém. Na volta, ela pediu que o motorista abrisse a porta no meio da estrada, porque ela havia se dado conta que não estava com sua carteira de gratuidade. Dizem que todos insistiram pra que ela ficasse no ônibus ou que pagariam a passagem dela. Dizem que não teve jeito. E quem a conheceu sabe que não deve ter tido jeito mesmo – ela sempre disse que não queria ficar doente em cima de uma cama antes de morrer. Ela desceu na autoestrada e, ao atravessar a pista, um caminhão a atingiu em cheio na cabeça. Ela morreu ali mesmo. Meses depois, viajei com meu tio Aércio para Caratinga, e a estrada ainda estava manchada do sangue por conta da seca e da realeza daquele sangue ali jorrado.

Ela usava o dinheiro da venda dos panos de prato pra ajudar seus amigos em situação de rua – pessoas e animais que não tinham o que comer. Não havia quem a convencesse que havia perigo em receber pessoas de rua na porta de casa, ou passar horas pegando lata pelas ruas. Vovó era teimosa, mas era sobretudo muito grata por ter sobrevivido à fome.

Talvez Vovó vivesse uma espécie de complexo de sobrevivente – aquele tão bem descrito por Primo Levi a respeito do Holocausto. Guardada as devidas proporções e singularidades, Levi sobrevive a Auschwitz ao passo que Vó Sônia sobreviveu à Fome. Em É isto um homem (Primo LEVI,1948), o “complexo de sobrevivente” fala da culpa por ter sobrevivido a algo tenebroso no lugar de tantos outros que não sobreviveram – ou por sorte, ou por ter se encaixado de algum jeito na seleção natural das espécies. Daí a necessidade de ser a voz daqueles que não sobreviveram. O próprio Primo Levi fala da diferença entre Fome e Holocausto –

Assim como nossa fome não é apenas a sensação de quem deixou de almoçar, nossa maneira de termos frio mereceria uma denominação específica. Dizemos “fome”, dizemos “cansaço”, “medo” e “dor”, dizemos “inverno”, mas trata-se de outras coisas. Aquelas são palavras livres, criadas, usadas por homens livres que viviam, entre alegrias e tristezas, em suas casas. Se os Campos de Extermínio tivessem durado mais tempo, teria nascido uma nova, áspera linguagem, e ela nos faz falta agora.

LEVI, 1948/1995:125-126.

Não quero me ocupar aqui das relações entre Fome no Terceiro Mundo e Holocausto. Quero dizer que vejo no comportamento de Vovó, mais que culpa, muita gratidão por ter sobrevivido à fome. Gratidão pelos filhos que ela pariu terem vingado, apesar de tudo – mesmo que para isso ela fosse obrigada a ver os três filhos mais velhos serem separados dela para viver com Vovó Marcília, sua sogra. Mas isso é outra história.

O que fazia uma senhora de 80 e poucos anos revirar lixo procurando lata que ela iria entregar a catadores de lixo, senão uma gratidão profunda por ter sobrevivido? Não sei. Agora me fogem um pouco as palavras.

Eu não sei se o que não mata engorda, ou se isso não mata, bobo. Ou se o que não mata nos faz mais fortes.

Sei que enquanto vejo o entregador de comida caminhando pela calçada da rua ao passo que já somos quase 260 mil mortos no Brasil, lembro de minha Vó Sônia: a cada dia que sobrevivo nessa imensa tragédia, eu agradeço.

Talvez no futuro seja mais difícil, porque hoje já é, entender porque não fui uma nas 260 mil mortes. Se esse dia chegar, espero ter esse texto pra me lembrar de nada pedir, de só agradecer. Talvez no futuro seja mais difícil, porque hoje já é, aceitar que o vírus não me matou. Se esse dia chegar, espero ainda me emocionar com os panos de prato de Vovó Sônia, bordados com seu versículo-mantra de Salmos 23:1: O Senhor é meu Pastor, e nada me faltará.

E o que isso tem a ver com meu pós-doutorado? Bem, é que estou buscando um jeito de traduzir um livro, sem deixá-lo impregnado com esse cheiro de flor de cemitério-que-não-sabe-mais-gente.

9 pensamientos en “Se não mata, engorda: e o que isso tem a ver com seu pós-doutorado?

  1. Que orgulho desta minha querida filha, que guarda na alma o verdadeiro amor, que é: Amar a Deus s todas às coisas e ao próximo como a ti mesmo “. O verdadeiro amor nunca é esquecido.

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  2. Ler toda essa história, fez eu conhecer mais D. Sônia. Não tive o prazer de conviver com ela. Mas tenho os panos de prato com bordado vermelho que ela me deu. Parabéns sobrinha, pelo seu texto, eu estou emocionada!

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  3. Isadora querida.
    Estou em lágrimas. Esta é minha mãe, exemplo de amor e generosidade. Sua descrição é perfeita. Ela me ensinou que devemos ajudar o outro, independente de quem seja, pois é um SER HUMANO que está precisando.
    Obrigada.

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  4. O don e o talento da escrita se faz tão presente que consigo imaginar, ver, o que leio. Se D.Sonia estivesse ainda entre nós mortais, eu adoraria conhecê -la, sentar de frente para ela e ouvir suas histórias e me deliciar ouvindo as palavras no sotaque todo dela. Parabéns Isadora! Tu és.

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