Festa de Yemaya, silêncio no mar

Fonte: originalbotanica.com

Como é lindo o canto de Iemanjá Faz até o pescador chorar

Iemanjá Rainha dos Ondas Sereia do Mar – Ponto de Umbanda

Para o querido Tiago Pires, porque tudo vai dar certo
Et à ma soeur Ruth Zenon, parce que nous sommes là

Ontem foi dia 2 de fevereiro, dia de Iemanjá no Brasil. Dia 2 de fevereiro é o dia mais bonito do Brasil. Dia das águas, presenteamos Oxum e dançamos rio abaixo até nossa grande mãe, dona de todas as cabeças. As Yialorixás e os Babalorixás, com suas grandes famílias aquáticas, preparam belos balaios, barquinhos e oferendas: “perfume, flor, espelho e pente – toda sorte de presente para ela se enfeitar”. Mesmo quem não é de candomblé, sente vontade de acompanhar o fluxo de gente feita de água e sal – compram flores amarelas, vermelhas e até azuis, pisam descalço na espuma branca que divide o real entre o presente e o passado imenso de nossa memória genética.

Ontem foi dia 2 de fevereiro no Brasil. Faltaram alguns números: ontem foi dia 2 de fevereiro, do ano de 2021, no Brasil. Ontem não podia descer pra rua e encontrar o mar de esperanças que se renovam todos os anos. Ontem éramos 227 mil mortos no Brasil e milhões de doentes. Ontem éramos o descaso de um governo fascista, que tem testado fórmulas genocidas com nosso povo de pés rachados de andar e de mãos calejadas de procurar solução. Ontem éramos um país sem vacina para todxs, sem educação para todxs, sem saúde para todxs, sem perspectiva para todxs. Ontem éramos o Brasil que eu via nas capas de revista quando era pequena, e que me espantava pela proximidade do que via nas ruas. Ontem éramos o presente de um passado que se repete substituindo qualquer futuro. Ontem não teve festa.

É certo, entretanto, que quem tem fé vai a pé, como se diz aqui na Bahia. Acordei cedo, me vesti de branco e de contas no pescoço, com perguntas sem resposta. Saí cedo com modestos presentes, saudei Oxum na mina e agradeci porque ontem éramos um país que tira água de pedra. Kaokabecile, Xangô – que os arquitetos de toda esta desgraça sintam o peso de seu Machado.

Caminhei entoando bem baixinho cantos de louvor à Grande Mãe. Enquanto atravessava a rua pra chegar ao mar, notei que notavam o branco de minhas vestes frente à minha pele branca e notei que eu notava outras pessoas de vestes brancas e colares de contas, com e sem seus ojás, caminhando ou sozinhas ou em grupos pequenos de duas ou três pessoas. Garoava como se o dia fosse noite de eterno sereno. As pessoas nos pontos esperando seus ônibus, e na roda de nossas saias estava grafado o desejo de que pudéssemos girar sem ataduras no rosto, como se Rum, Rumpi e Lê fossem crianças travessas correndo pelo terreiro de areia. Entreguei meus presentes, e logo voltei para casa. Porque, afinal, mesmo que na minha família seja 7 de setembro o dia da Rainha do Mar, foi na Umbanda de Ponto Cruzado que meu corpo veio ao mundo.

Ontem havia tanto por dizer ao mar…Mas a garoa pequena que desenhava pontinhos na areia parecia dar o tom de silêncio que antes eu só conseguia escutar nos cemitérios. As pessoas de brancas vestes se falavam por meio de algo que era impossível de dizer. É no silêncio que aprendemos a cantar com os batás. É no silêncio que aprendemos a falar a língua dos orikis. É Silêncio e Tempo de Orixá que toma (o) corpo. Mas ontem era silêncio outro.

Ontem rezei silenciosa pelos mortos de hoje. Ontem rezei silenciosa pelos corpos negros de ontem que tingem o fundo do Atlântico Negro*. Mas ontem rezei também no silêncio que, nas palavras de Eni Orlandi (1999), é prenhe de sentidos. Porque aprendi com minhas/meus professorxs que a linguagem é feita de muitas vozes que disseram antes do meu dizer, mas que a linguagem também é feita de silêncio.

Eni Orlandi** (1999:31) disse que talvez a gente precise, “ao invés de pensar o silêncio como falta, pensar a linguagem como excesso” . Excesso de mortes dos mesmos, excesso também nas palavras que profanam corpos mortos em covas rasas: “é só uma gripezinha”, que estaria “superdimensionada” porque “todos vamos morrer um dia”, “e daí?!”, então “cobre de seu governador” porque a gente “não precisa entrar em pânico”.

Não à toda, ontem o povo de santo renovou sua fé no mesmo silêncio com que aprendemos a dobrar a folha de bananeira – silêncio que fala. E o que me conforta, olhando pra o mar, é que nossa Grande Mãe Iemanjá aqui sempre esteve, testemunhando injustiças e apaziguando nossas cabeças e dores.

Ontem tanta gente chorou diante do mar, que acho que, em silêncio, Mãe Iemanjá pegou a matéria de nossas lágrimas de água e sal, misturou em seu grande ventre, e acordou ainda mais imensa.

¡Jekua, Yemaya!

¡Odoooo Ya!

¡Saravá, Mãe d’Água Rainha do Mar!

* Referência ao livro de Paul Gilroy, Atlântico Negro.

** Eni Orlandi, As formas do silêncio.

2 respostas em “Festa de Yemaya, silêncio no mar

  1. Eu me sinto extremamente grato por uma homenagem tão linda em um dia tão importante repleto de significados de base da estrutura humana ! Seus textos são de sensibilidade ímpar !

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