Abraão encontra Kierkegaard no abismo

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E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você. – Friedrich Nietzsche (1844-1900)

Em Gênesis 22:1-16, escutamos um momento da vida de Abraão: quando Iahweh põe à prova a fé do grande patriarca, e pede que sacrifique Isaac, seu filho com Sara, em uma montanha de Moriá. Quando já tinha fogo e lenha para o sacrifício, quando Isaac já estava amarrado à lenha, quando Abraão já sustentava o cutelo com a mão pronto a imolar o filho, um anjo chama Abrãao desde o céu e diz: “Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus: tu não me recusaste teu filho, teu único” (Gen 22:11). Nesse momento, Abraão ergue os olhos e vê um carneiro preso pelos chifres em um arbusto. O carneiro é então sacrificado no lugar de Isaac. Por essa razão, Abraão nomeia o lugar do sacrifício de “Iahweh proverá”.

A este respeito, o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard (1813-1855) tece uma série de considerações sobre os paradoxos da fé em Temor e Tremor (1843). Há uma delas que me chama especial atenção, pois trata da condição de solitude da fé e, mais que isso, do algo de indizível que toda fé carrega. O indizível, compreendido enquanto silêncio significante (Eni Orlandi, 1999), é ainda um modo de estar na linguagem e, portanto, na comunhão dos processos de significação.

Diz Kierkegaard (1843/1979:296): “[…] Abraão cala-se…porque não pode falar; nesta impossibilidade residem a tribulação e a angústia. Porque, se não me posso fazer compreender, não falo, mesmo se discurso noite e dia sem interrupção. Tal é o caso de Abraão; pode dizer tudo, exceto uma coisa, e quando não pode dizê-la de maneira a fazer-se entender, não fala. A palavra, que permite traduzir-me no geral, é um apaziguamento para mim. Abraão pode dizer as coisas mais formosas a respeito de Isaac de que uma língua é capaz. Mas no seu coração guarda uma coisa muito diferente; esse algo mais profundo, que é a vontade de sacrificar o filho porque é uma prova. Não podendo ninguém compreender este último ponto, podem, no entanto, equivocar-se todos quanto ao primeiro.”

Kiekergaard traz à tona uma particularidade bastante interessante a respeito de todo sacrifício, que é sua indizibilidade em última instância. Esta indizibilidade se constitui de silêncio, mas este silêncio, tal como o teorizou Eni Orlandi (As formas do silêncio, 1999), é prenhe de sentidos. Quando Abraão toma o cutelo já sem possibilidade de não o fazê-lo, há um bolsão de silêncio que se produz entre levantar o cutelo e ver o carneiro preso em um arbusto. Esse silêncio do <entre o cutelo e o carneiro> passa a constituir Abraão, pois de muitas maneiras se torna uma experiência que não poderia ser jamais partilhada com as palavras comuns – daí o poder das palavras, e do dizer, de apaziguar.

Geralmente, quando nos sentimos solitária.o.s, há um senso comum que nos fala: converse com alguém, o que no último século pode ser parafraseado por procure um.a psicológo. Se desde muito há quem diga que o silêncio é uma propedêutica para a fé, em nossos tempos a fé parece se manifestar quando acreditamos que ir até o outro é uma busca pela palavra do Anjo que nos mostrará o carneiro de Abraão.

Em momentos de dificuldade, a sensação que eu tenho é a de que estou prestes a sacrificar justamente minha fé em Olodumare e nos Orixás. Algo de complicado se coloca como realidade e, de repente, pareço estar disposta a atar os deuses à lenha, como se dissesse: “se vocês não me ajudarem, não acredito mais em vocês” – numa alucinação narcísica de que os deuses me necessitam, e não o contrário. Afinal, se é para escolher um carneiro, antes os deuses que eu, penso no abismo com o cutelo na mão, enquanto miro Abraão e Kierkegaard.

Tenho compreendido o sacrifício do qual Orunmila nos fala quando o consultamos para além do sangue. Atravessar situações limites ou, como tão sabiamente está colocado no Oddun Regente de 2021 – Ikafun: “A veces lo que no nos gusta es lo que tenemos que hacer“, pode ser justamente o mais grandioso sacrifício para mim e minha geração de ególatras.

Este sacrifício – fazer o que não gostaria de fazer por saber que é o que deve ser feito – muitas vezes me enche de indizíveis, porque há algo dessa necessidade que não posso comunicar com as pessoas, apesar de, como disse Kierkegaard, as palavras traduzirem e apaziguarem.

Ontem estava saindo do supermercado cheia de sacolas. Quando já estava na calçada pronta a chamar um Uber e voltar para casa, o sinal do celular era zero. Não podia nem usar internet nem ligar para ninguém. Aquela situação bastante banal – bastaria esperar um pouco que em algum momento o sinal retornaria – fez com que eu me sentisse extremamente sozinha, e me fez questionar todas as escolhas que fiz em minha vida, durante alguns minutos. Diante do abismo, quase me arrependi de ter escolhido viver em uma cidade desconhecida sem familiares, quase me arrependi de não ter casado com qualquer pessoa apenas para não ser obrigada a fazer compras sozinha, quase me arrependi de ser quem eu sou. Mais ainda, invoquei todos meus Orixás, pensei em minha futura iniciação, e estava prestes a atar Olodumare à lenha de minhas incertezas e imolá-lo com meu cutelo de palavras profanadoras.

Aí passou um taxi. Estendi a mão, o táxi parou. Aceita cartão?, perguntei sem muitas esperanças. O senhor, muito gentil, disse que sim e começou a me ajudar a colocar as compras no carro. Já no carro em movimento, agradeci pelo privilégio de morar em uma cidade paradisíaca, agradeci por aprender a resolver minhas demandas junto aos deuses, agradeci a Elegguá que faz tudo dar certo depois de dar errado.

Mas, assim como Abraão, não tenho certeza se sigo igual depois de ter visto novamente o abismo – porque a banalidade das situações não determinam necessariamente a profundidade das questões que as situações nos colocam.

Chamei aquela esquina de “Elegguá proverá”. E sigo ao som de nosso Ijexá.

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