A França e os Fascismos de suas Esquinas


Paris. Quinta-feira. 22 de novembro de 2012. As pessoas ganhavam a vida nas ruas fluidas do Barbès-Chateau Rouge[1]. Nessa normalidade patológica, o apartheid silenciado e silencioso da cidade do amor (sic) se dava aos olhares atentos das frestas boquiabertas de tanta vida. De repente, uma das esquinas explodiu: era o muro dizendo que uma hora (ir)rompe. Uma van completamente navalhada por dizeres que pareciam funcionar por dispersão: dizeres contra a opressão em geral; dizeres sobre o socialismo mentiroso de François Hollande, dizeres reclamando do sexismo, dizeres reclamando mudança de postura por parte de certos grupos de homens. A dispersão dos enunciados não se diria mais, pois que a mulher negra habitava, naquela tarde, o topo do carro. De cima dele, discursava indignada contra os problemas já-ditos antes dela, em outro lugar talvez.

« Acoma tonbé, toutt moun di sé boi pouri. » – Proverbe martiniquais

A van, um dia branca, fazia-se livro aberto para quem quisesse ler. No alto da van, uma mulher negra gritava palavras de ordem. O discurso inflamado da mulher negra começa a ser abafado pelas sirenes azuis. Rapidamente cerca de dez viaturas chegaram àquela esquina do bairro negro (e) árabe (e) imigrante. Quebraram o vidro da van, e a golpes violentos derrubaram a mulher negra de cima da van. Cinco policiais gritavam com a mulher negra que estava em cima da van. Imobilizaram a mulher negra, que continuava gritando. Não havia uma policial mulher para fazer a revista: um policial branco apalpou a mulher negra. Em volta da mulher negra, do policial homem branco, e da van outrora branca hoje livro aberto, uma multidão de negros (e) árabes (e) imigrantes observava a prisão. Alguns filmavam.

O primeiro policial homem branco pede que eu me afaste. Eu o chamo de fascista. Um homem branco se para diante desta câmera, e me ordena parar. Eu ignoro, como se desconhecesse a palavra de ordem. “Meus colegas estão fazendo o trabalho deles. Você não pode fotografar”, ele grita sua estupidez com coragem. – “Eu conheço a lei.”, respondo rapidamente, recorrendo ao discurso legalista (o mesmo ao qual faço frente). “Você conhece a lei, mas não conhece a França. Eu ordeno que você pare”, diz ele possuído pela pragmática de seus atos. Nesse exato instante, ele tenta tampar a câmera com as mãos. Violentamente tenta arrancar o celular da minha mão. Eu tento me desvencilhar dele, como quem ignora a violência e me afasto. Na última investida dele, saio, sina de Chico, correndo.

Ainda tremendo pela violência da figura bárbara do homem branco, entro no metrô e me misturo à multidão que, impávida, não se afeta.


[1] Barbès e Chateau Rouge designam uma faixa territorial no norte da Paris intra-muros. É um lugar temido pelos parisienses de origem franca, mas é lá minha Paris preferida, onde encontro feijão, fubá, quiabo, e descubro sabores e cheiros que emocionam minhas memórias ancestrais. Os parisienses dizem que o Barbès e o Chateau Rouge são perigosos porque lá existem muitos “árabes”, “africanos” e “imigrantes”.  

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