Lírios e Violetas

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Sim, eu sei. Também me sinto cansada. Naqueles dias de tiroteio na praça, eu já estava cansada. Sair no meio da multidão, porém, porque você havia esquecido na mesa seu lenço preferido – fazia sentido e parecia ser o mais importante. Do mesmo jeito, sei que você está cansada agora, fugindo da aleatoriedade da desgraça humana.

Parecíamos duas velhas. Você, com sua mania de lançar maldição para quem não parava o carro para que pudéssemos atravessar na faixa. Eu, com minha mania de puxar a perna quando doía muito.

Parecíamos duas adolescentes. Você, com uma coleção infindável de capa de celular com bichinhos. Eu, com uma coleção infindável de adesivos de coruja.

As Yabás ouviam nossas gargalhadas e corriam pra perto. Nosso riso frouxo parecia ser a porta aberta para fazer morada no sol. A gente falava sobre os livros, sobre o trabalho, sobre as pessoas que eu não conhecia mas que você fazia questão que eu soubesse já como eram maldosas. A gente sonhava um outro mundo, lembra? Sim, também me dói lembrar.

[…]

Quando você me expulsou de sua vida, eu comecei a recolher os retalhos que tinha guardado na caixa de madeira. Não eram suficientes para uma colcha que cobrisse a falta que suas futilidades me faziam, mas talvez fossem o bastante para remendar minha própria pele, e assim eu poderia atravessar até a outra ponta da cidade sem que as pessoas vissem que sua partida tinha me despido de qualquer possibilidade de futuro.

Você gostava de lírios, eu preferia violetas. Eu não queria que você sofresse, você queria que a vida andasse.

Sem se dar conta de que eu havia perdido as chaves de casa, você se mudou. Depois de um tempo mandei fazer outras chaves e outra casa, e está tudo bem agora, que nem dois e dois são cinco.

Aí, enquanto olho pra o mar, leio a profundeza desse corte, que tem a fundura de peixe sem olho, cega que estava a faca.

Chronic Dissatisfaction

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Javier Bardem y Penelope Cruz, em Vicky Cristina Barcelona

“O sertão é dentro da gente” -Guimarães Rosa

“Em que outra cidade você moraria, que não fosse Salvador?”.

Minha primeira resposta: qualquer uma onde eu tivesse trabalho.

Me choquei com minha própria resposta. Eu nunca tinha pensado sobre isso. De fato, qualquer cidade é exagero. Mas talvez seja a resposta mais próxima da [minha] realidade.

Depois do choque e dessa resposta franca, disse Havana. É verdade. Disse Barcelona também. Terminei dizendo que gostaria de morar perto da minha Madrinha e do meu Padrinho. Desconversei. Me senti estranha porque nunca tinha pensado nisso.

Por um lado, boa parte do mundo talvez tenha sua vida atrelada ao trabalho diário, então onde houver trabalho, dá pra viver. Por outro, fiquei me perguntando quando foi que eu deixei de imaginar uma vida que não essa de 12h de trabalho diário, por vezes fim de semana sim e outro também.

Houve uma época em que eu insistentemente pensava minha vida em outras partes do mundo. Era uma busca quase cotidiana por outras possibilidades. Hoje não quero pensar nem em mudar de bairro, porque meus gatos e meus livros estão tão aclimatados quanto eu nessa casa que é uma casa, mas também é uma loca de tão perto do mar.

Certa vez uma pessoa me disse que eu sofria de insatisfação crônica, tal qual uma personagem de Almodóvar em Vicky Cristina Barcelona. A pessoa estava certa, na época. Será que me curei e não consigo mais me sentir insatisfeita diante da vida pacata e costeña que levo hoje?

Não sei. Sei que meus lugares preferidos tem sido as pessoas – seus territórios longíquos, suas angústias, seus caminhos e modos de forjar a própria existência, apesar de tanta miséria. Dizem que Exu se tornou dono de todos os caminhos porque, a pedido de Orunmila, saiu pelo mundo e escutou todos os problemas de todas as pessoas bem como as soluções que elas encontraram para continuar vivendo, e voltou para contar a Orunmila.

Talvez seja essa a resposta para a pergunta que me fizeram: não sei para onde iria, mas tenho certeza que quem anda na minha frente sabe. Isso sim, eles sabem e isso me basta.

Tem sido essa, talvez e só talvez, minha maior aventura.

Necrópsias da Memória [excerto]

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Frida Kahlo, Hospital Henry Ford (1932).

[…] No sábado, Sara se vestiu toda de branco e posicionou seu turbante florido na cabeça. Para que as ideias não fujam, enquanto torcia o tecido de um euro comprado na Montmartre. Sara já sabia que havia roubado a tocha da revolução, não uma simples caixa de fósforos. Sara caminhava pela Tolbiac com a certeza de que a vitória latinoamericana traria bons frutos. Não era propriamente um roubo, portanto. Sara sentia-se irmanada. Sara via seus ancestrais dançando em volta dos firmes passos que dava. Sara estava calma, contente. Sara cumprimentava quem a saudava. 

M. e Mme. Lauvo já estavam no apartamento quando Sara chegou. Os alimentos estavam todos dentro de duas ou três sacolas. Sara cumprimentou o casal e sentou no fouton, agora fechado. Sara ouviu as desculpas, mas mudou de assunto. Os Lauvau pareciam aceitar a derrota. Sara contou sobre sua ida à Papillon. Sobre suas investigações. M. Lauvo, com seus grandes olhos azuis, disse que a língua da juventude havia sido roubada. Sara não discutiu. Sara sorriu timidamente quando Mme. Lauvo disse que também deveria ir para Réunion, que havia assuntos interessantes também lá. Trocaram mais algumas poucas obviedades. Sara puxou o carrinho de feira. Despediu-se. […]

Eu que já não tenho tempo

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Salvador Dali 1954

Caí na toca do coelho. Da mãe dele, na verdade. A toca em que cai pertencia à mãe do coelho. Mesmo que o coelho tenha matado a própria mãe logo depois que eu caí, não ouso dizer que era ele já o dono da toca.

Acho que agora raspei o fundo do tacho. Habito o platô desenhado linhas e unguentos. Me falta ar bem no chakra do meio do peito. Deve haver um chakra aqui pra doer desse jeito.

Enquanto eu caía na toca, um pouco antes do assassinato, abriu-se à memória um curto corredor. As paredes pintadas de branco já davam sinal dos tempos em pequenas borbulhas estáticos. Tu vois? Oui, je vois.

Estava ali, depois do corredor, o delírio. Eu que nunca quis me lembrar do final do corredor, hoje arranho traços na angústia de esquecer.

Se o preço de ter visto o final do corredor e caído das escadas é um estado de lucidez absoluta, abdico. Envio uma foto de hoje, mas a foto tirada hoje é a foto de alguém que foi morta ontem.

A angústia me mata um pouco ontem, com um golpe que só me desferiu hoje. É, afinal, preciso continuar.

Os compromissos na agenda chegam sem perguntar do meu chakra coronário, carcomido de tão enferrujado. Minha agenda ri. Ela ri porque não subiu as escadas, não se escondeu nos fundos do terraço, e não teve que passar por aquele corredor.

Há algo de podre no reino da Dinamarca. A Dinamarca é o fundo do fundo do fundo da toca onde caí, mas de onde não quero sair. Que cara terei eu pra encarar tantas pessoas que nunca atravessaram o corredor branco? Mesmo as que passaram por corredores parecidos, que cara lhes ofereço?

Vergonha é uma palavra engraçada porque parece bochechas coradas, mas é o avesso de qualquer chão. Só me libertarei dela quando meu corpo não fizer mais limite com as linhas do real. A morte, no entanto, deixou há muito de ser uma opção. A morte está no boteco da esquina, rindo da miséria de quem viu as borbulhas do corredor.

Desculpe, continuarei pedindo desculpa porque não acredito no destino cantado pelas moiras. Fechar os olhos é a grande possibilidade de me entregar ao pesadelo. O mais difícil é a parte de fechar os olhos. Tudo que vivi sem ter a lembrança do visto me persegue em rodopios vociferados.

Já passou. Eu repito olhando para imagens borradas. Aqui, que não é mais nem toca nem tacho, é uma cachoeira segura e pouco escorregadia. Mas a dor é mar adentro. Ela me arrasta.

No momento em que vi o corredor, eu nada vi. O corredor guarda os segredos de todo sintoma que come minha pele e minha paz, ambas carne vivas.

Em carne viva. Talvez isso seja melhor que gangrenar de tanto esquecer.

P

Deus Vivo em Mar Morto

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Fonte da Imagem: Netmundi

“[…] o mar, o nosso mar, está novamente aberto, e provavelmente nunca houve tanto ‘mar aberto’”, diz Frederico Nietzsche no aforismo 343 de A Gaia Ciência (1882). Não mais a divisão do Mar Vermelho comandada por Moisés, mas sim o definitivo espraiamento de toda baía em mar aberto. Não mais o mar como aventura pelo desconhecido que reserva monstros e outras criaturas fatais, mas uma abertura interpretativa que, de alguma forma, não pode ser mais estancada.

Mar que é também a totalidade aniquilada: “[…] como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? […] – pergunta o insensato homem louco que, em plena manhã, segurando uma lanterna, procurava deus (também em A Gaia Ciência, mas no aforismo 125). É esse mesmo homem louco que enfrenta as gargalhadas dos frequentadores do mercado, diante da pergunta que só poderia realmente ser lançada por ele, um homem louco, portando uma lanterna a despeito do sol matinal.

A morte de Deus é anunciada então enquanto o apagamento de todo horizonte. A infinitude compartilhada entre deus e o mar é bebida por inteiro pelo homem. Anoitece eternamente, diz o homem louco. É por isso que, ainda que seja manhã, é preciso andar com uma lanterna. Deus está morto e foram os homens que o mataram. A chama que iluminava os ideais do ocidente se apagou e foram mesmo os homens que a apagaram.

Nietzsche, um extemporâneo com incrível percepção de seu tempo, anunciou a morte de Deus na penúltima década do século XIX. Disse que “esse acontecimento enorme está a caminho” (GC, § 125), mas ainda não poderia ser ouvido por completo. Assim como as estrelas, diz Nietzsche, a morte de deus precisava também de tempo para ser vista. Assim como o corisco e o trovão, a morte de deus, desse deus enquanto causa e determinação externa de toda vida, precisava de tempo para ser ouvida.             As últimas décadas do século XX, quase cem anos depois, são a hipertrofia dessa orfandade que o homem passa a experimentar depois que Deus deixa de ser a causa e o fim de todas as coisas. As igrejas, diz ainda o homem louco, não passam mais de um mausoléu, onde já se pode ouvir os coveiros cavando covas. Deus está morto enquanto ideal, enquanto justificativa, enquanto matriz interpretativa. A ciência passa, então, a ser a matriz interpretativa e diretora do ocidente, mas não conforta como antes poderia confortar a ideia de deus.

Violência psicológica e cativeiro mental: sobre Maid, minissérie da Netflix

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O TEXTO RELATA UMA CENA DE VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA/FÍSICA, PRATICADA EM AMBIENTE DOMÉSTICO. PODE TE FAZER LEMBRAR DE EXPERIÊNCIAS VIOLENTAS, CASO JÁ TENHA SIDO VÍTIMA DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. POR FAVOR, SE ESSE FOR SEU CASO, NÃO LEIA ESSE TEXTO NESSE MOMENTO. ESTAMOS JUNTAS!

Acabei há pouco de assistir a minissérie Maid, disponível na plataforma Netflix. Para quem sobreviveu à violência psicológica, ou para quem ainda está vivendo-a, é certamente uma série cheia de gatilhos, que nos fazem recordar de momentos terríveis. Nossas dores parecem muito particulares, mas o funcionamento da violência psicológica, da perspectiva de quem a pratica, é muito similar. Assistir a série foi ainda mais duro porque, além das lembranças, no Brasil não temos nem metade dos recursos e auxílios governamentais que aparecem na série e que permitiram que a protagonista sobrevivesse, apesar de as leis brasileiras soarem mais “avançadas” no espectro de possibilidades de proteção da vítima.

Duas questões me pareceram muito fortes – a invisibilidade desse tipo de violência, e a conivência das “testemunhas”.

A violência psicológica muitas vezes não deixa hematomas na pele. Então, a primeira dificuldade é mostrar que ela exista. É difícil para quem vive, de se convencer que está vivendo, e mais difícil ainda para prová-la, em situações institucionais. Nosso comportamento, enquanto vítimas, vai mudando, em função da sensação sólida de que diante do agressor não há saída. Porque a saída não é a porta ou a janela ou a rua. A violência psicológica nos encerra num cativeiro mental.

Quem está em volta, muitas vezes atribui a mudança de comportamento das vítimas a um problema da vítima, e não do agressor. A série mostra isso com muitas nuances. Em grande medida, o que sustenta a conivência entre testemunha e agressor é o próprio patriarcado. Os mecanismos de controle dos corpos, principalmente das mulheres, são muito normalizados, então uma típica prática de violência doméstica, como ordenar onde a mulher deve estar ou não, é tida como uma ‘questão’ que o ‘casal deve resolver’.

Quando fui vítima desse tipo de violência, eu só comecei a formular que estava vivendo uma relação violenta quando uma amiga de outro estado veio passar umas semanas comigo. Ela enfrentava o agressor de modo bastante inteligente, e aquilo começou a despertar em mim o vislumbre de uma rota de fuga. Mas, muita gente que via a situação de fora, tomou toma partido dele quando consegui dar fim à relação.

No último dia que o vi, estávamos voltando de um bar à noite. Eu viajaria para uma palestra no dia seguinte pela manhã. Ele me deixou em casa e subiu até meu apartamento. Começou a reclamar que eu não me comportava como namorada dele quando estávamos em público. Eu não queria discutir porque tinha que terminar de arrumar minha mala e acordar cedo para terminar minha conferência e ir para o aeroporto. Além do mais, era o último dia de um resguardo que eu estava fazendo, e não queria me alterar. Ele insistia, em tom de ladainha, sobre como eu deveria me comportar e sobre como ele estava cansado do meu comportamento. Eu já estava de toalha, queria tomar banho, mas queria que ele fosse embora antes. Não suportava mais, mas ao mesmo tempo me sentia presa num labirinto, de onde não conseguia encontrar a saída. Eu estava na minha casa, eu dizia para ele ir embora, e ele permanecia. Até que resolvi falar mais firme, dizendo para que ele imediatamente se retirasse de minha casa. Estávamos frente a frente no corredor. Ele então me deu um tapa na cara.

Não chegou a marcar – novamente a invisivilidade de algumas práticas violentas. Não chegou a marcar, mas ali eu entendi o que a série Maid mostra muito bem: se eu não desse um basta naquele momento, nada me garantia que o próximo tapa não seria um soco, um chute, algo pior. Eu ainda me recuperava do que tinha acabado de acontecer, ele começou a tentar me convencer se que ele não havia me dado um tapa. O que parece bastante estranho, mas depois descobri fazer parte do ciclo da violência psicológica: abuso > gaslighting > modo anjo > abuso etc. E assim a vítima passa a duvidar de si, e se torna o alvo perfeito para o agressor.

Depois do ocorrido, apenas abri a porta em silêncio e ele foi embora. Não consegui dormir direito, e perdi o voo no dia seguinte, que tinha sido pago pelo evento para o qual eu havia sido convidada. Tive que eu mesma pagar dois mil reais para conseguir chegar ao evento. Ele nunca me devolveu nem esse dinheiro, nem o dinheiro de outros prejuízos que me deu, porque obviamente o abuso psicológico tinha perpassado toda a relação. Mas antes de comprar outra passagem, fiz tudo que estava ao meu alcance para que ele nunca mais chegasse perto de mim.

Automaticamente, ele se converteu na vítima da situação e se aproximou de várias pessoas que eram próximas a mim. Ele organizou um evento sobre violência contra mulher, chamou essas pessoas. Se safou, inclusive porque eu não fiz denúncia – invisibilidade das marcas da violência psicológica + inabilidade das testemunhas em testemunharem. Senti muito medo também de ser exposta e ter minha saúde piorada ainda mais. É fácil dizer para as vítimas de qualquer tipo de violência para elas denunciarem as violências. Mas pouco se fala sobre as consequências de não termos preparo, enquanto sociedade patriarcal, para que as vítimas tenham o apoio necessário para se recuperar.

A minissérie Maid, a meu ver, lança luz aos bastidores de certas práticas de violência que precisam sim ser mais discutidas. Ativa muitos gatilhos, é verdade, para quem já sofreu esse tipo de violência, e por isso senti falta de um pouco mais de cuidado com os avisos.

nota 1. por uma ciência comunitária

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CC – Flickr – Quadraro

Para além de uma “comunidade científica”, penso na importância de uma ciência comunitária. Aqui, inspirada no feminismo comunitário da feminista aymara Julieta Paredes (2014 [2010], p.90), torna-se fundamental pensar que enquanto cientistas estamos em relação de “complementaridade, autonomia e reciprocidade” com outros grupos sociais que também são produtores de saberes. Uma ciência comunitária, para além de aberta, se constrói enquanto um “tecido das complementaridades, reciprocidades, identidades, individualidades e autonomias” (PAREDES, 2014 [2010], p.90), bordado nas relações políticas que estabelecemos enquanto sociedade.

.:. Tradução e Destino .:.

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Obba, por Claudia Krindges

Obá, te dou minhas orelhas. Delas, depois que te soube, nunca mais precisei. Tateio tua força. Alimento-me da sopa que Shango não quis. Cresço nela, e apesar me gesto outra placenta. Temo o câncer que insiste.  No entanto, me sabes cansada.

Isadora Machado, Misantrópolis.

.:. Tradução e Destino .:.

Há dois anos atrás, eu enviei uma mensagem pelo facebook para meu Babalawo, com quem não falava já fazia algum tempo. Eu escrevi apenas duas palavras: necesito ayuda. Ele me perguntou o que estava acontecendo. Eu expliquei. Uns dias depois, ele me prescreveu os conselhos que Orula me dava, por intermédio de um dos odus de Ifá. Banhos, rezas e outras delicadezas perfumadas, dessas que me deixam sempre mais encantada com minha religião.

Enquanto eu fazia aquilo que Orula havia me aconselhado, recebi uma outra mensagem de meu Padrinho e de minha Madrinha, dizendo que eles tinham um trabalho para mim. Eu não fazia ideia do que se tratava, mas a notícia encheu meu peito de novas esperanças.

Eu havia sido escolhida para traduzir o livro que Ifalade Olowo e Oshun Bomite, meus sacerdotes de Osha-Ifá, tinham escrito. Tratava-se de um livro de apresentação da Santeria para leigos, ao mesmo tempo que pode ser de muita valia para os já versados nas práticas yorubas.

Tive dificuldade no começo, porque muitas questões ainda pareciam sem resposta: por que eu? E se eu falhar? E se eu não conseguir? Que foram seguidas de perguntas de outra ordem: eu, linguista, traduzindo? Qual método usar? Quais escolhas teóricas podem embasar essa tradução? E assim eu ia me distanciando do trabalho, e passei alguns meses paralisadas pelo medo e pelo espanto.

A solução que encontrei resolvia em parte. Eu decidi escrever um projeto de pós-doutorado sobre tradução, para então traduzir o livro. Consegui uma licença e estou aqui, quase dois anos depois da conversa inicial, terminando a tradução.

Ainda tenho dúvidas: será que as pessoas de axé vão gostar do livro? Será que vai ser possível estabelecer diálogos com os terreiros brasileiros? Será que vou encontrar uma editora? Será que vou conseguir finalizar a tradução e entregar nos prazos?

Não sei. Entrego ao destino. Ao mesmo destino que me fez sair de minha cidade natal quando eu tinha 21 anos. Que depois me mandou para Campinas. Que depois me lançou ao México, a Cuba, à França. Destino que me trouxe até Salvador, onde hoje formulo outras dúvidas.

Mas, dentre tantas incertezas, uma coisa é certa: traduzir esse livro mudou minha vida e me fez reviver. Eu estava muito doente, e a tradução desse livro me fez querer reviver meu corpo para poder traduzi-lo. Essa tradução tem me exigido um processo de purificação fisiológica e espiritual também. Tive que adequar meu comportamento. Melhorá-lo.

A tradução, que leva consigo o corpo daquele que traduz, conjuga esse corpolinguagem a dobras – dobra de línguas, dobras de temporalidades. Dobra de vida sobre vida.

Eu agradeço.

Maferefun la Osha. Maferefun Ifá.

. é agosto, silêncio .

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Lynch, Mulholland Drive [2001].

pela memória de Daiane Griá Kaigang

No hay banda! There is no band. Il n’y a pas de orquestra! This is all a tape-recording. No hay banda! And yet, we hear a band. If we want to hear a clarinette, listen. It’s all a tape. It is an illusion.” – Cena de Mulholland Drive [David Lynch, 2001].

Em 2005, quando vi Mulholland Drive [2001] pela primeira vez, eu já tinha experienciado alguns de meus traumas constitutivos, mas ver esse filme foi um tanto catártico porque tive a impressão que, pelo filme, eu poderia ter emoções tão fortes quanto essa cena em que as primeiras notas de “Yo estaba bien por un tiempo / volviendo a sonreír”, à capela, me impressionavam na medida em que, de algum modo, pareciam ressoar algo de angústia que eu sentia, mas não podia dizer – as notas diziam por mim.

Uma sensação parecida com a de ler O Inominável, de Beckett (1953). E a angústia era então um monstro que me devorava dos pés até a cabeça, e ia dos pés até a cabeça simplesmente pra que eu pudesse estar consciente enquanto via meu corpo ser consumido.

Pausar o filme para buscar refrigerante, ou descansar a vista no horizonte enquanto tomava ar pra seguir o livro, eram coisas que marcavam um limite entre realidade e ficção, e de algum modo essa marca ajudava a alternar quente e frio. Hoje, 17 de agosto de 2021, tudo parece morno, apesar de tantas tragédias.

Uma breve rolagem de tela no Instagram me levou do Haiti ao Afeganistão, do Líbano ao Rio Grande do Sul – onde Daiane Griá Kaigang foi assassinada depois de estuprada [ela tinha hematomas por todo o corpo e teve a parte inferior do corpo dilacerada]. Cheguei à Palestina. É tudo tão grave, que as tragédias perdem suas singularidades e esfriam, tornando-se apenas manchetes em feeds requentados – mix de propaganda de cafeteira recebida com a hashtag #publi e dizeres como “pray for”, que também são #publi só que de outro jeito.

Uma atriz que eu admiro muito compartilhou em seu feed vários cards, e cada um deles explicava porque Líbano, Haiti e Afeganistão viviam momentos trágicos.

Nossa jovem Kaigang não estava nesses cards, nem estava Gaza, talvez porque as tragédias ameríndias e palestinas tenham sido normalizadas em uma empresa-Instagram ávida pela notícia que outra pessoa semi-conhecida vai saber por meu intermédio, engajando-me assim como alguém empático e carismático que mantém então a imagem de alguém que se preocupa com os outros. No Instagram, se eu compartilho uma frase sobre uma tragédia já posso dormir com minha cabeça num travesseiro de plumas tão leves quanto minha consciência.

O que as tragédias do Líbano, do Afeganistão e do Haiti têm em comum? O sujeito da ação: imperialismo estadunidense. Ora, mas até quando vamos culpar os Estados Unidos da América pelas tragédias no mundo?

Ora, até quando vamos fingir que algumas tragédias só são forjadas num modo de produção capitalista, isto é, num modo de produção racista e cisheteropatriarcal?

É uma ingenuidade muito grande, também algum mau caratismo. Instagram, Twitter, WordPress, o semi-morto Facebook, são empresas privadas – e parece estarmos presos na metalinguagem capitalista, porque pra dizer isso pareço precisar de uma das empresas citadas. Os movimentos sociais desde muito sabem que as articulações também acontecem no ‘chão da fábrica’, e que isso é diferente de fazer uma reunião com meia dúzia de representantes dentro do escritório do patrão.

Se eu fosse uma capitalista dona dos meios de produção, certamente veria o rumo dos trend topics e das hashtags, e iria no sentido contrário. Traçaria estratégias pelos fluxos de rede.

Algumas mudanças são tão profundas que parecem impossíveis. É difícil imaginar um mundo futuro sem internet. E isso me assusta, cada dia mais.

A sensação que eu tenho é que nunca sairei de dentro do Club Silêncio – em que não há banda, não há orquestra, e por isso então concluo que todo ruído dentro do pesadelo é real.

Beckett surge de dentro de um barril e, diz:

“eu serei ele, eu serei o silêncio, eu estarei no silêncio, seremos reunidos, sua história que é preciso contar, mas não há história, ele não esteve na história, não é certo, ele está na história dele, inimaginável, indizível, isso não vale nada, é tudo o que sei, não sou eu, é tudo o que sei, não é o meu, é o único que tive, não é verdade, devo ter tido o outro, aquele que dura, mas não durou, não compreendo, ou seja sim, ele dura sempre, estou nele sempre, deixei-me ficar nele, nele me espero, não, não se espera nele, não se escuta nele, não sei, é um sonho, talvez seja um sonho, isso me espantaria, vou acordar, no silêncio, não adormecer mais, serei eu, ou sonhar ainda, sonhar um silêncio, um silêncio de sonho, cheio de murmúrios, não sei, são palavras, não acordar nunca, são palavras, há apenas isso, é preciso continuar, é tudo o que sei, eles vão parar, conheço isso, eu os sinto me deixando, será o silêncio, um pequeno instante, um bom momento, ou será o meu, aquele que dura, que não durou, que dura sempre, serei eu, é preciso continuar, não posso continuar, é preciso continuar, vou então continuar, é preciso dizer palavras, enquanto houver, é preciso dizê-las, até que me encontrem, até que me digam, estranho castigo, estranha falta, é preciso continuar, isso talvez já tenha sido feito, talvez já me tenham dito isso, talvez me tenham levado até o umbral da minha história, ante a porta que se abre para a minha história, isso me espantaria, se ela se abre, serei eu, será o silêncio, aí onde estou, não sei, não o saberei nunca, no silêncio não se sabe, é preciso continuar, não posso continuar, vou continuar.”

. ‘depois da pandemia’: sobre coisas que não existem e produzem efeito .

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“Montée de Sèves”, Wifredo Lam em art.com

Vamos marcar aquele rolê! Sim, quando a pandemia acabar. Depois da pandemia, vou cortar o cabelo. Assim que acabar a pandemia, compro uma passagem só de ida para Zanzibar. Quando acabar esse pesadelo, seremos pessoas melhores – talvez o aquecimento global até regrida, porque Deus vai ver como somos seres humanos melhores depois da pandemia. Depois da pandemia, eu vou: viajar, ir na sua casa, finalmente ver um show da Beyoncé, aprender receitas de comida tailandesa, parar de fumar. Depois da pandemia, tudo será diferente. Imaginaram o Carnaval depois da pandemia? Em Salvador, teremos uma festa que vai começar dia 1º de dezembro e vai acabar só depois da Páscoa. Depois da pandemia, não agora. Agora não, quando acabar a pandemia a gente faz e acontece.

Na minha opinião: não existe ‘depois da pandemia’. A pandemia não vai acabar.

A sensação que eu tenho é que dizer depois da pandemia nos dá um conforto mental de que, em algum momento, seremos capaz de esquecer os quase 5 milhões de mortos – 600 mil só no Brasil. Quando eu paro para pensar, acho impossível a possibilidade de existir algo parecido com o fim de uma catástrofe tão grande.

Isso porque podemos esquecer várias coisas, e é saudável que o façamos. Mas esquecer 5 milhões de mortes é uma tarefa impossível. Do ponto de vista mais individual, são muitas famílias destroçadas – as pessoas continuarão suas vidas, mas há um luto muito particular quando a tragédia afeta tanta gente ao mesmo tempo. Do ponto de vista coletivo, é algo que constituirá muitas gerações (X, Y, Z, Alpha, o que seja…).

É por isso que não acredito que existe “depois da pandemia”. Aqueles que sobreviverem, terão a difícil tarefa de honrar seus mortos. Fico me perguntando: 5 milhões de mortos e eu ainda estou viva. Por que eu? Que vou fazer com uma coisa tão grande: sobreviver a essa tragédia política, sanitária, humana? A única opção que não vejo é: agir como se nada tivesse acontecido. Será preciso ressignificar.

A mitologia judaico-cristão, aliada fundamental do capitalismo, impõe à boa parte do mundo uma visão única sobre o tempo: o tempo seria uma linha reta – passado, presente e futuro, divididos em antes e depois de Cristo; antes e depois da escrita; essa linha reta seria uma seta sempre apontando para a direita, o ‘futuro’. Por isso, dizemos que o tempo oriundo da mitologia judaico-cristã é progressivo, ou seja, que quanto mais o tempo passa, mais progresso existiria; e que o tempo judaico-cristão é escatológico, ou seja, que há sempre uma finalidade específica para essa passagem do tempo, que pode ser o fim do mundo ou um estado de bem-estar eterno.

“Seguindo o condicionamento das escritas ocidentais e ocidentalizadas, coloca-se nessa linha um ponto: à esquerda do ponto, há a pré-história; à direita do ponto, a História. Do ponto à direita em diante, caminhou o homem – essa palavra que apaga o gênero deste corpo que escreve – em direção a outro ponto: o cristianismo. […] Estaríamos, agora, há quase exatos 2015 anos depois do ponto. O tempo, simbolizado como uma linha reta, determina todas as nossas atividades econômicas e, como era de se esperar, científicas. A partir desse imaginário, de que o tempo, assim como a escrita, caminha da esquerda para a direita, para frente, é que a ciência ocidental, compreendida a partir da objetividade, se funda. Com essa concepção linear do tempo, seria possível descrever a ciência como a história de um progresso, de descrever esse progresso como um melhoramento. Isso afeta o cotidiano de muitas maneiras. Afeta fundamentalmente nossa construção como sujeitos de conhecimento.” [MACHADO, 2015, modificado]

Essa, no entanto, é uma concepção de tempo. Existem outras. Muitas outras.

Talvez a grande tarefa para quem vai sobrevivendo à pandemia de COVID-19 seja justamente reencontrar outras temporalidades, abdicando da ideia de progresso em função de ideias menos soberbas a respeito de quem somos e para onde vamos.

há grandes coisas a serem desfeitas

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Fonte da Imagem: Divination with Ifa

Há grandes coisas a serem feitas. Penso sobretudo na possibilidade de continuar. Grande coisa. A cada instante de coragem, junto grãos de areia no bolso interno da camisa cáqui. Esqueço as cores. Sigo tingindo meus amuletos. São cores de lugares distantes, que quase cheiram a mofo. Cabe na pele ainda alguma memória. De tinta eu sei, pouco me resta de lugar para tinta. Mas, da memória? Tento decifrar a unidade para medir o que há entre a pele e as histórias por contar.

Gosto do cheiro da manga que acaba de cair. Acho azedo uma palavra engraçada. Ruído, uma imagem que o tempo não oxida. Mas, é agosto. Que os silêncios que se escondem nos meus poros me protejam da fúria daquele que desce à terra.

Hoje é tempo de prosseguir. Sob os pés purulentos, sou capaz de compreender a chaga que devém tantos egos carcomidos. Me olho no espelho, não me vejo. Lembro da tia que segurava meu primo no colo, e dizia do perigo de que a criança se visse no espelho. Não lembro se a palavra era pecado ou doença. De qualquer modo, é agosto. E agosto me traz o estranho exemplo do rei que sofreu.

Que meus colares não se aniquilem em tentativas sabotadas pelo afeto. Que nada no mundo se esbarre ao que em mim é Desejo, pois se nele há algo que se desfaz, há, sobre todos, os grandes pés curados do grande rei. Mas, é agosto. Tenho em mim a beleza do rei. Guardarei em baús, caso não caiba em mim toda a glória. Deixarei os baús embaixo da cama onde antes eu abrigava fantasmas.

Ao final, olhar pra mim. Eu que não me via no grande quadro de pedaços bricolados de excertos que roubava de quem passava. Eu hoje acordei inteira. Cada chaga foi coberta com unguento brilhante pelo rei. Mas, é agosto. Em cada pústula o rei fez plantar nascer crescer um girassol mestiço. Eu que não me via grande, a cor dei a novos elos de lã reluzente.

Eu que batia na santa católica porque bater na Tia era demais. Insuportável, eu diria. Campos e Campos. Qual ano, não sabia. Todavia, há algo da moral que não se perspectiva. Há algo dele que produz em mim efeito – porque só há causa daquilo que falha.

Se hoje o Rei, antes houve o Pai. Que cumpriu sua função – Lei, Limite, Laço. O que mais eu posso querer? Nova missão.

Se não me escutam, lembrar que eu falo ao Arco-Íris. Efemeridade e permanência são a ponte construída a cada passo. Lembrar que é ao Arco-Íris a quem faço reverência para traduzir espaços cenográficos. Chapeu de Eleggua – em terra de Rei, quem traduz eu bem sei.

Tenho da Real cabeça de Obatalá, brotada do ovo de Asesu – dizia Glissant, uma ilha pressupõe outras ilhas.

Mas, é agosto.

Atoto!

Misantrópolis está em pré-venda!

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“Nove braços o rio, nove filhos gerados – ungidos tingidos roubados doentes atados. De cá, vejo o Belo Monte sombreado de pesadume e mesquinhez dos brancos e lá do alto intuo pedra enaltecida e bandeira camuflada no convés do navio. De lá, vê o Belo Monte se diluir a última Harpia Real. Atacaria a carne quente pois que pressente a morte de suas crias e das mulheres cortariam o couro, navalha na carne, bico ensanguentado de medo que enfrentaria a morte anunciada no leito do rio? […] Mas lançará sobre todos os montes seu canto harpejado de palavra agreste, e deixará de voar pois que abriu seu peito à última flecha. E a queda santificou a flecha e o caçador. E o tombo bendisse o chão, pois que fez dele solo sagrado e demanda. O que sobrou da terra fertilizada de sangue? […]”. MISANTRÓPOLIS, Ato II, “No deserto”. Misantrópolis será editado pela @editoraurutau e está em pré-venda! Conto com vocês na divulgação: http://www.benfeitoria.com/MISANTROPOLIS #books #mujeresescritoras #cuba #havana #mexico #ciudaddemexico #literaturalatina #vilavelha #manguetown #france #paris #gwada #guadeloupe #kreol #élogedelacréolité #edouardglissant #josemarti #brujeria #hechiceria

Por que sigo fazendo Ciências Humanas num país que odeia as Ciências Humanas?

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Imagem: Criança geopolítica assistindo ao nascimento do homem novo, Salvador Dali [1943]

Para Ana Carolina Suzart, Conceição Lessa, Nathalia Carvalho e Lucas Reis, pela aposta

Nos governos Temer e Bolsonaro, a ciência brasileira passou a sofrer ataques como nunca havia se visto na história desse país. Não nas mesmas proporções.

É verdade que no governo Dilma Rousseff tivemos um corte profundo nos recursos das Universidades. No entanto, nada se compara ao combo Temenaro. Inclusive porque, em nenhum montento, tivemos um ataque tão direto às ciências em geral, e às Ciências Humanas em particular.

Conforme prometido por Bolsonaro em campanha, desde o ano passado as Ciências Humanas deixaram de ser áreas prioritárias, e temos cada vez menos bolsas para pesquisa. Isso porque, na lógica bolsonarista, as Ciências Humanas representam a esquerda nas Universidades – uma vez que a esquerda deveria ser combatida, logo, as Ciências Humanas precisariam ser minadas. O governo tem feito isso, então, principalmente por meio do corte das bolsas de estudo e das verbas para assistência estudantil.

Vivemos um tempo de poucos sonhos, muitas distopias, e menos dinheiro no bolso.

A remuneração não é a única razão pela qual fazemos as coisas. Somos movidos por desejo também, e por ambições que podem viajar pelos delírios individuais ao mesmo tempo que se somam a projetos coletivos. No governo Bolsonaro, nós professorxs e cientistas temos sido atacadxs das mais perversas maneiras. Em vários momentos, preciso lembrar o porquê de fazer Ciências Humanas, num país em que se passou a odiar as Ciências Humanas. Por que, então, continuo minha carreira de cientista na grande área das humanidades?

  1. Porque todas as vezes que me reúno com minhas/meus orientandxs, elxs me provam que, apesar de tudo, há quem sonhe em seguir a carreira de cientista. Xs estudantes com quem trabalho continuam, apesar de, e não serei aquela que pula do barco para buscar um lugar melhor no bote [apesar de compreender quem o faz];
  2. Porque refletir criticamente sobre a materialidade das coisas me mostra que, por serem históricas, as relações sociais podem ser transformadas: nem sempre o mundo foi esse mundo que conhecemos, então a condição da continuidade é a mudança;
  3. Porque quando estou reunida com meu grupo de pesquisa, eu vejo olhos que ainda brilham e muitas vezes o semblante de quem acabou de compreender algo muito importante;
  4. Porque ninguém nunca me disse que seria fácil;
  5. Porque ler e escrever e pensar ainda é o que me move;
  6. Porque ainda há perguntas que envelheceram;
  7. Porque minhas/meus professores me ensinaram o caminho das pedras;
  8. Porque, disse Conceição Evaristo, que combinaram de nos matar mas nós combinamos de não morrer;
  9. Porque ainda desejo pintar com novas cores a Idade do Mundo;
  10. Porque disse Ifá: lento pero aplastrante.

Até a vitória, sempre!

Bairrismo, nas universidades, é a microestrutura do colonialismo

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Imagem: El Coyote

Criam uma vaga X. Ao invés de fazer um processo seletivo, eles já sabem quem vai ocupar a vaga X. Como eles sabem? Ora, é evidente. Não há nada mais óbvio do que quem deve ocupar a vaga X. Me refiro aqui às tratativas internas da administração universitária, e não aos concursos públicos e outros mecanismos de seleção de pessoal. Esses, sim – já entenderam que a lisura é a chave mestra. Refiro-me ao miúdo das relações, aos cotidianos, ao que é microcelular.

Mas e aquela pessoa que também cumpriria os requisitos? Bem, eles não conhecem, então não existe. Tem essa que eles conhecem e com quem mantém boas relações. Então eles escolhem, porque é evidente.

Na Análise de Discurso aprendemos que o funcionamento da evidência é aquilo que é próprio do funcionamento ideológico. Os processos ideológicos (interpretativos) funcionam porque se constroem como evidências. É evidente que casar é melhor que ficar solteiro; é evidente que todos precisam comprar um carro e um apartamento e depois casar e ter filhos; é evidente que humanismo é o que nos garante a vida. É evidente que aquele fulaninho deve ocupar a vaga que acabaram de abrir.

Muito se discute sobre a neutralidade, ou a impossibilidade de, nas ciências. Sim, não há neutralidade porque os cientistas são um emaranhado subjetivo e porque as relações de força jogam com nosso desejo. No entanto, que não haja neutralidade na ciência não é uma razão pra que a Universidade funcione sempre por um jogo de pessoalidades. Isso é bolsonarismo. Isso é justamente o que dizem combater.

Isso acontece com vagas, com lugares, com posições. Por mais contrahegemônicas e democráticas que algumas posturas encenem ser, é sempre pela práxis que podemos construir a ética universitária. Do que adianta ser contra a política educacional do presidente Bolsonaro, se no cotidiano as escolhas são feitas pelos mesmos critérios: quem tem boas relações com o grupo de poder, e portanto beneficiará o grupo de poder, é a solução natural. Não há nem seleção nem processo seletivo possível que desloque a naturalidade com que quem está no comando lida com algumas situações.

São 521 anos depois da invasão portuguesa, e nas universidades algumas pessoas são escolhidas pelos mesmos critérios de ordenações sebastianas: proximidade da família ou de si com o Rei; boa vizinhança; ou ainda por terem simplesmente sido nomeadas boas.

Mas isso é hora de criticar as Universidades? Não. Mas passou da hora de a Universidade combater esse ranço colonial dentro dela mesma.

Se as Universidades brasileiras querem exercer sua própria cidadania, elas precisam urgentemente combater o bairrismo organicista. Porque o bairrismo, sabemos bem, é a microestrutura do colonialismo.

Google: pesquisar

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Tenho que acordar às 5h, se quiser dar conta de tudo que tenho pra fazer amanhã. Google pesquisar: como acordar às 5 da manhã em dias de chuva intensa. Sua pesquisa não encontrou nenhum documento correspondente. Acerto então o despertador pra 5h30, porque 5h mesmo, depois que conseguir 5h30, não será tão difícil. Ir dormir é um ritual. Dos mais simples – deitar, fechar o olho, dormir. Dos mais complexos – tomar banho, colocar o pijama [alguém ainda usa pijamas?], passar cremes [nas olheiras, nas espinhas, nos lábios, no que sobrar e for pele], desarrumar a cama, dar comida para os gatos [que a essa altura estão alucinados correndo pela casa], então apagar as luzes, daí deitar na cama. Que cama gelada! Que exagero, em Salvador não faz frio. Faz sim, às vezes.

Desde quando deitar na cama já pronta pra dormir deixou de ser sinônimo de fechar os olhos? Confiro o despertador mais uma vez. Tá lá: 5h30. Será que eu vou conseguir acordar? Se eu não acordar 5h30 amanhã, tá tudo perdido. Google pesquisar: como terminar um pós-doutorado no prazo? Várias receitas. Mas tenho que dormir. São 22h, preciso aproveitar que consegui deitar cedo. E aquela conta de twitter que eu tinha, será que ainda está ativa? Google pesquisar. Sim, está. Login, senha incorreta. Puta merda. Mandar pra o e-mail do hotmail. Senha incorreta. Manda a senha do hotmail pra o gmail. Pronto. Agora a senha do twitter está no hotmail. Trocar a senha do twitter. Meu Jesus amado, quantos tweets horrorosos. Google pesquisar: como apagar todos os tweets de uma vez. Fazer login em outro site que apaga tweets? Sério? Hm, descubro que pra o Twitter não é interessante fornecer uma ferramenta de apagar todos os tweets de uma vez. Ah, o século XXI. Google pesquisar: quando acaba a pós-modernidade, vem o quê? 22h32. Sério? Amanhã vou sentir falta desses 32 minutos. Google pesquisar: por que os esquilos são infectados com bernes? Não. Google pesquisar: como eu salto da pós-modernidade para bernes e esquilos? 22h35. Google pesquisar: funcionamento cérebro sleep dormir how to get away? Oi? Viola Davis é realmente a melhor atriz. Já sei – é só conferir mais uma vez o despertador. Desligo o telefone. Fecho os olhos. Inspira 1, 2, 3, 4 e 5. Segura 1, 2, 3, 4 e 5. Expira 10, 9, 8, 7…Seguido de um sono seguido sem interrupções de 7h. São 6h39 e já tomei banho, escovei dentes, passei cremes, tomei café da manhã e terminei um texto. Google pesquisar: como lidar com a felicidade de atingir metas insignificantes?

“Sua pesquisa não encontrou nenhum documento correspondente” – é o sonho de consumo de qualquer pesquisador.

Fim [sempre soube que tinha problemas com a morte].

Google: pesquisar

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Tenho que acordar às 5h, se quiser dar conta de tudo que tenho pra fazer amanhã. Google pesquisar: como acordar às 5 da manhã em dias de chuva intensa. Sua pesquisa não encontrou nenhum documento correspondente. Acerto então o despertador pra 5h30, porque 5h mesmo, depois que conseguir 5h30, não será tão difícil. Ir dormir é um ritual. Dos mais simples – deitar, fechar o olho, dormir. Dos mais complexos – tomar banho, colocar o pijama [alguém ainda usa pijamas?], passar cremes [nas olheiras, nas espinhas, nos lábios, no que sobrar e for pele], desarrumar a cama, dar comida para os gatos [que a essa altura estão alucinados correndo pela casa], então apagar as luzes, daí deitar na cama. Que cama gelada! Que exagero, em Salvador não faz frio. Faz sim, às vezes.

Desde quando deitar na cama já pronta pra dormir deixou de ser sinônimo de fechar os olhos? Confiro o despertador mais uma vez. Tá lá: 5h30. Será que eu vou conseguir acordar? Se eu não acordar 5h30 amanhã, tá tudo perdido. Google pesquisar: como terminar um pós-doutorado no prazo? Várias receitas. Mas tenho que dormir. São 22h, preciso aproveitar que consegui deitar cedo. E aquela conta de twitter que eu tinha, será que ainda está ativa? Google pesquisar. Sim, está. Login, senha incorreta. Puta merda. Mandar pra o e-mail do hotmail. Senha incorreta. Manda a senha do hotmail pra o gmail. Pronto. Agora a senha do twitter está no hotmail. Trocar a senha do twitter. Meu Jesus amado, quantos tweets horrorosos. Google pesquisar: como apagar todos os tweets de uma vez. Fazer login em outro site que apaga tweets? Sério? Hm, descubro que pra o Twitter não é interessante fornecer uma ferramenta de apagar todos os tweets de uma vez. Ah, o século XXI. Google pesquisar: quando acaba a pós-modernidade, vem o quê? 22h32. Sério? Amanhã vou sentir falta desses 32 minutos. Google pesquisar: por que os esquilos são infectados com bernes? Não. Google pesquisar: como eu salto da pós-modernidade para bernes e esquilos? 22h35. Google pesquisar: funcionamento cérebro sleep dormir how to get away? Oi? Viola Davis é realmente a melhor atriz. Já sei – é só conferir mais uma vez o despertador. Desligo o telefone. Fecho os olhos. Inspira 1, 2, 3, 4 e 5. Segura 1, 2, 3, 4 e 5. Expira 10, 9, 8, 7…Seguido de um sono seguido sem interrupções de 7h. São 6h39 e já tomei banho, escovei dentes, passei cremes, tomei café da manhã e terminei um texto. Google pesquisar: como lidar com a felicidade de atingir metas insignificantes?

“Sua pesquisa não encontrou nenhum documento correspondente” – é o sonho de consumo de qualquer pesquisador.

Fim [sempre soube que tinha problemas com a morte].

Ciência é a arte do encontro

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IMEC, em Caen (Normandia/França), abril de 2013.

Criando todas as coisas, ele entrou em tudo. Entrando em todas as coisas, tornou-se o que tem forma e o que é informe; tornou-se o que pode ser definido; e o que não pode ser definido; tornou-se o que tem apoio e o que não tem apoio; tornou-se o que é grosseiro e o que é sutil. Tornou-se toda espécie de coisas: por isso os sábios chamam-no o real.

Upanishades

Em 2009, troquei minhas primeiras palavras com Eni Orlandi. Estávamos saindo de uma atividade no LABEURB (Unicamp), e em cima daquele morrinho, de onde se via um belo pôr do sol de outono, eu a escutei me dizendo: “Pode procurar que você acha. Talvez os escritos de Pêcheux sobre Nietzsche já estejam em um arquivo público. Mas vai fundo que Pêcheux era leitor de Nietzsche”.

Eu mal podia me conter de alegria. Depois de ter ouvido de uma grande intelectual que “não sabemos o que Pêcheux faria depois de ler Nietzsche”, eu comecei a achar que minha investigação era vã. Algum tempo depois, é verdade, descobri que essa grande intelectual não tinha tido acesso ao original em francês de L’inquietude du discours. Nesse livro, Maldidier diz que Pêcheux ia reler Nietzsche, mas na tradução brasileira houve um pequeno desvio, e ficou como “Pêcheux ia ler Nietzsche”.

Traduções à parte, desde essa conversa com essa grande intelectual, eu havia entrado em um movimento extremamente reativo frente ao meu trabalho de pesquisa, com a forte impressão de que estava buscando respostas para o sexo dos anjos.

Minha questão, desde o mestrado – aquela questão que me fazia dormir e acordar todos os dias, era de que modo Pêcheux havia lido Nietzsche, ou, em terminologia popular, qual a influência de Nietzsche em Pêcheux.

A conversa com Eni Orlandi naquela tarde de outono mudou minha orientação de forças. Cheguei em casa esbaforida, e liguei o computador: se esses projetos de texto estavam em algum arquivo público, eu os encontraria fizesse chuva ou fizesse sol. Com meia hora de nevagação encontrei o site do Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine, o IMEC. E, na lista de documentos do espólio de Pêcheux, constavam, reluzentes os Projets Nietzsche, dos quais Eni havia me falado.

Eu ainda estava no primeiro ano de mestrado, e não tinha dinheiro para viajar para a França. Por isso, no mestrado estudei outras relações de Nietzsche com a Linguística. Mas aquele dia mudou o curso das coisas, pois eu sabia quais caminhos eu precisaria trilhar para chegar até o arquivo.

Com uma bolsa FAPESP de doutorado, interrompida por uma bolsa CAPES de doutorado-sanduíche na França, cheguei ao IMEC em abril de 2013. Nada me apagará da memória as camadas dos muros daquela antiga abadia dispostas em arqueologia assimétrica, o gosto dos queijos do almoço, e a cobra verde que vi no jardim enquanto fumava um cigarro depois do almoço. Nada me apagará da memória o tato nos documentos que tateava Pêcheux, nem o azul das folhas onde unicamente eram permitidas anotações, e nem o cheiro da letra de Pêcheux que curiosamente eu parecia decifrar. Ali eu fui feliz.

Eram outros tempos. Tínhamos bolsas e verbas para pesquisas. As Ciências Humanas eram mais ciências do que são hoje. Mesmo com tanto por fazer, tínhamos uma trilha menos íngreme, mas de subida constante.

Os Projetos de Texto de Pêcheux sobre Nietzsche tinham um caráter tão revolucionário, que de fato me inflamaram novamente à área dos estudos discursivos, com a qual sempre tenho idas e vindas, para a qual não cultivo nenhuma subserviência, mas sem a qual também nada me satisfaz nas Ciências Humanas.

A ciência não se faz de neutralidades – ela é feita de encontros, afetos, desencontrontos, disputas, solitude, lágrimas, frustrações, recomeços. A ciência não se faz sem tomar posição. Ciência de faz de cotidiano, de café amargo, de horas sem dormir. De ansiedade, de abraços, de almoços ruins. A ciência se faz e se refaz, no mesmo sentido que a água se faz e refaz em cursos, sendo o nosso dentro, sendo chuva, às vezes sereno, outras vezes rio, e também oceano profundo e beira do mar.

Desejo que num futuro breve a ciência brasileira se encha novamente de esperança, e coragem. Compartilho um trecho de minha tese de doutorado, que se chama Nietzsche, o destino singular da linguagem, defendida em fevereiro de 2015 no Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP – uma prova cabal de que a ciência é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros, para parafrasear Vinicius de Moraes.

*

Para Nietzsche, as palavras não significam em si – uma “coisa em si” é tão absurda quanto um sentido em si. Tampouco significam a partir de seus usos – a noção de uso, cara a algumas pragmáticas linguísticas[1], desconsidera as relações de poder e submissão, desconsidera os efeitos das vontade de verdade e de poder, relações que são, para Nietzsche, fundamentais para se compreender de que modo uma palavra se torna o que ela é. Os sentidos não variam aleatoriamente ou segundo o uso ou a função que (se) exercem. Os sentidos dependem de quem fala e de onde se fala – o sentido de bom na enunciação do nobre e o sentido de bom na enunciação do escravo se diferem exatamente porque expostos a diferentes cenas enunciativas, ou, a diferentes posições discursivas, para retomar os termos de Pêcheux e Orlandi.Podemos dizer que é fundamentalmente aqui que a Análise de Discurso e Nietzsche confluem: a pergunta primeira pelo sentido é a pergunta por quem fala, a partir da atuação de quais forças, sujeito a que tipo de interpelação, determinado por quais formações discursivas (moral-cristã, por exemplo). Cabe ainda ressaltar, para justificar a presença de Nietzsche nos projetos de Pêcheux com vistas a uma história genealógica do socialismo, a função da análise da língua na determinação dos processos morais e ideológicos.

            Ainda no “Prólogo” de Genealogia da Moral, no § 6, Nietzsche se pergunta sobre as condições e circunstâncias do surgimento dos valores. Não é uma pergunta sobre a “causa”, tampouco a resposta é que os valores bons se originaram das ações boas. A pergunta pelo valor dos valores se equipara às perguntas da Análise de Discurso sobre o sentido dos sentidos: a pergunta não é mais pelo conteúdo (qual o sentido de A), mas pelo funcionamento (qual o sentido do sentido de A). Há uma relação bastante frutífera entre a noção de ideologia na Análise de Discurso, e a noção de moral em Nietzsche – retomaremos essa relação mais à frente.

            A filosofia de Nietzsche é sem dúvida um combate a qualquer tipo de pensar ­a-histórico: tudo que é, deveio. Pensar a moral, então, é pensar que um determinado estado moral deveio, o que quer dizer que nem sempre foi assim, e que, dessa maneira, podemos descrever quando houve a mudança, em que circunstâncias elas se deram. O trabalho para determinar essas condições de surgimento dos valores e dos sentidos é uma empreitada linguística. Nietzsche se detém na etimologia das palavras bom e mau para determinar o valor desses valores. A etimologia não é tomada como fonte da origem verdadeira do sentido, pois o que Nietzsche demonstra é justamente que, se por um lado as palavras “começam” significando algo, ao longo do tempo os sentidos se modificam, carregando o histórico de sentidos (há algo que vai significando também pela permanência). Essas modificações equivalem a transformações conceituais na história do sentido das palavras.

Esse movimento analítico de Nietzsche é o de, ao se perguntar por um valor moral (uma questão ideológica), voltar a atenção especialmente para a língua (um sistema de signos, um tipo de linguagem, diferente da música, por exemplo), para a transformação do sentido da palavra, recusando uma explicação sociologista (utilitarista) e psicologista (Spencer), em favor de uma explicação que relaciona língua e história (Guerra dos Trinta Anos) – nosso problema, um problema silencioso.

            Eis a principal especificidade de Nietzsche enquanto filósofo: enquanto filólogo, atentou para a língua, e não apenas para a linguagem. Enquanto filósofo, analisou os temas filosóficos com atenção de linguista. Nietzsche, o primeiro analista de discurso[3] – o discurso cristão, o discurso científico, o discurso filosófico. Disso decorre que o projeto de Pêcheux sobre Nietzsche tenha sido justamente o de pensar as relações entre o sujeito (enquanto problema metafísico apontado por Nietzsche – o eu é uma superstição) e a ideologia (enquanto problema histórico apontado por Nietzsche – a moral é uma perspectiva), o que resulta na reflexão em termos de língua e discurso – a língua enquanto instrumento material da moral para impor e estabelecer uma determinada perspectiva.


[1] Pragmática designa domínios diferentes em Linguística e Filosofia.

[3] Não pedirei perdão pelo anacronismo.


tengo tumberos adentro

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Mama Brigitte, disponível em Nganga Mansa Cholan.

“Pwason te fè dlo konfyans, men se dlo ki bouyi l” – ditado criolo

Quantas palavras preciso dividir ao meio? Quantos meios são necessários para que seja possível ver o começo do fim? De quantos caixões é feito um genocídio?

Quantos de nossos antepassados foram enterrados em covas rasas? Quantos de nossos ancestrais foram apenas lançados no ermo de uma infinita desova? De quantos mortos é feita uma tragédia?

Quantos morrerão amanhã? Quantos dos que morrerão amanhã estarão entre meus amores? De quantas lágrimas é feita sensação de que quem morre é meu semelhante?

Quantas humanidades frustradas deixamos na memória do ano que passou? Quantos anos passarão até que tudo passe? De quantos nomes passados se faz a História?

Quantos amigos deixarei de fazer porque já estão mortos? Quantos filhos nem nasceram porque já os enterrei? Sobre os sonhos, talvez – quanto valem ou são vendidos a peso morto?

Será que falar de morte atrai mais a morte? Será que quando colocar a cabeça no travesseiro serei acordada pelo choro de quem não pode chorar? Ou será que nada disso, basta que eu durma e amanhã há de ser outra agonia?

Será que tenho ainda perguntas? Ou será que tenho tantas respostas prontas que não cabe mais a mim perguntar? Será que vai acabar antes que a gente desista e acabe por isso mesmo?

Será que viver é impreciso? Ou será que a morte também se torna objeto de imprecisas notações? Será que, como a mosca que ronda o cadáver, também morrerei por precisão, mais que por boniteza?

Pra tudo isso, um hino: não sei.

[mas]

tumberos traigo adentro

tengo tumberos adentro

i have cruces inside me

no flowers, no prayers

¿donde vive el tiempo que perdimos?

tengo tumberos adentro

mi ifa uterino llora

sin saber si hay futuros a divinar

¡tengo tumberos adentro!