Ciência é a arte do encontro

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IMEC, em Caen (Normandia/França), abril de 2013.

Criando todas as coisas, ele entrou em tudo. Entrando em todas as coisas, tornou-se o que tem forma e o que é informe; tornou-se o que pode ser definido; e o que não pode ser definido; tornou-se o que tem apoio e o que não tem apoio; tornou-se o que é grosseiro e o que é sutil. Tornou-se toda espécie de coisas: por isso os sábios chamam-no o real.

Upanishades

Em 2009, troquei minhas primeiras palavras com Eni Orlandi. Estávamos saindo de uma atividade no LABEURB (Unicamp), e em cima daquele morrinho, de onde se via um belo pôr do sol de outono, eu a escutei me dizendo: “Pode procurar que você acha. Talvez os escritos de Pêcheux sobre Nietzsche já estejam em um arquivo público. Mas vai fundo que Pêcheux era leitor de Nietzsche”.

Eu mal podia me conter de alegria. Depois de ter ouvido de uma grande intelectual que “não sabemos o que Pêcheux faria depois de ler Nietzsche”, eu comecei a achar que minha investigação era vã. Algum tempo depois, é verdade, descobri que essa grande intelectual não tinha tido acesso ao original em francês de L’inquietude du discours. Nesse livro, Maldidier diz que Pêcheux ia reler Nietzsche, mas na tradução brasileira houve um pequeno desvio, e ficou como “Pêcheux ia ler Nietzsche”.

Traduções à parte, desde essa conversa com essa grande intelectual, eu havia entrado em um movimento extremamente reativo frente ao meu trabalho de pesquisa, com a forte impressão de que estava buscando respostas para o sexo dos anjos.

Minha questão, desde o mestrado – aquela questão que me fazia dormir e acordar todos os dias, era de que modo Pêcheux havia lido Nietzsche, ou, em terminologia popular, qual a influência de Nietzsche em Pêcheux.

A conversa com Eni Orlandi naquela tarde de outono mudou minha orientação de forças. Cheguei em casa esbaforida, e liguei o computador: se esses projetos de texto estavam em algum arquivo público, eu os encontraria fizesse chuva ou fizesse sol. Com meia hora de nevagação encontrei o site do Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine, o IMEC. E, na lista de documentos do espólio de Pêcheux, constavam, reluzentes os Projets Nietzsche, dos quais Eni havia me falado.

Eu ainda estava no primeiro ano de mestrado, e não tinha dinheiro para viajar para a França. Por isso, no mestrado estudei outras relações de Nietzsche com a Linguística. Mas aquele dia mudou o curso das coisas, pois eu sabia quais caminhos eu precisaria trilhar para chegar até o arquivo.

Com uma bolsa FAPESP de doutorado, interrompida por uma bolsa CAPES de doutorado-sanduíche na França, cheguei ao IMEC em abril de 2013. Nada me apagará da memória as camadas dos muros daquela antiga abadia dispostas em arqueologia assimétrica, o gosto dos queijos do almoço, e a cobra verde que vi no jardim enquanto fumava um cigarro depois do almoço. Nada me apagará da memória o tato nos documentos que tateava Pêcheux, nem o azul das folhas onde unicamente eram permitidas anotações, e nem o cheiro da letra de Pêcheux que curiosamente eu parecia decifrar. Ali eu fui feliz.

Eram outros tempos. Tínhamos bolsas e verbas para pesquisas. As Ciências Humanas eram mais ciências do que são hoje. Mesmo com tanto por fazer, tínhamos uma trilha menos íngreme, mas de subida constante.

Os Projetos de Texto de Pêcheux sobre Nietzsche tinham um caráter tão revolucionário, que de fato me inflamaram novamente à área dos estudos discursivos, com a qual sempre tenho idas e vindas, para a qual não cultivo nenhuma subserviência, mas sem a qual também nada me satisfaz nas Ciências Humanas.

A ciência não se faz de neutralidades – ela é feita de encontros, afetos, desencontrontos, disputas, solitude, lágrimas, frustrações, recomeços. A ciência não se faz sem tomar posição. Ciência de faz de cotidiano, de café amargo, de horas sem dormir. De ansiedade, de abraços, de almoços ruins. A ciência se faz e se refaz, no mesmo sentido que a água se faz e refaz em cursos, sendo o nosso dentro, sendo chuva, às vezes sereno, outras vezes rio, e também oceano profundo e beira do mar.

Desejo que num futuro breve a ciência brasileira se encha novamente de esperança, e coragem. Compartilho um trecho de minha tese de doutorado, que se chama Nietzsche, o destino singular da linguagem, defendida em fevereiro de 2015 no Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP – uma prova cabal de que a ciência é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros, para parafrasear Vinicius de Moraes.

*

Para Nietzsche, as palavras não significam em si – uma “coisa em si” é tão absurda quanto um sentido em si. Tampouco significam a partir de seus usos – a noção de uso, cara a algumas pragmáticas linguísticas[1], desconsidera as relações de poder e submissão, desconsidera os efeitos das vontade de verdade e de poder, relações que são, para Nietzsche, fundamentais para se compreender de que modo uma palavra se torna o que ela é. Os sentidos não variam aleatoriamente ou segundo o uso ou a função que (se) exercem. Os sentidos dependem de quem fala e de onde se fala – o sentido de bom na enunciação do nobre e o sentido de bom na enunciação do escravo se diferem exatamente porque expostos a diferentes cenas enunciativas, ou, a diferentes posições discursivas, para retomar os termos de Pêcheux e Orlandi.Podemos dizer que é fundamentalmente aqui que a Análise de Discurso e Nietzsche confluem: a pergunta primeira pelo sentido é a pergunta por quem fala, a partir da atuação de quais forças, sujeito a que tipo de interpelação, determinado por quais formações discursivas (moral-cristã, por exemplo). Cabe ainda ressaltar, para justificar a presença de Nietzsche nos projetos de Pêcheux com vistas a uma história genealógica do socialismo, a função da análise da língua na determinação dos processos morais e ideológicos.

            Ainda no “Prólogo” de Genealogia da Moral, no § 6, Nietzsche se pergunta sobre as condições e circunstâncias do surgimento dos valores. Não é uma pergunta sobre a “causa”, tampouco a resposta é que os valores bons se originaram das ações boas. A pergunta pelo valor dos valores se equipara às perguntas da Análise de Discurso sobre o sentido dos sentidos: a pergunta não é mais pelo conteúdo (qual o sentido de A), mas pelo funcionamento (qual o sentido do sentido de A). Há uma relação bastante frutífera entre a noção de ideologia na Análise de Discurso, e a noção de moral em Nietzsche – retomaremos essa relação mais à frente.

            A filosofia de Nietzsche é sem dúvida um combate a qualquer tipo de pensar ­a-histórico: tudo que é, deveio. Pensar a moral, então, é pensar que um determinado estado moral deveio, o que quer dizer que nem sempre foi assim, e que, dessa maneira, podemos descrever quando houve a mudança, em que circunstâncias elas se deram. O trabalho para determinar essas condições de surgimento dos valores e dos sentidos é uma empreitada linguística. Nietzsche se detém na etimologia das palavras bom e mau para determinar o valor desses valores. A etimologia não é tomada como fonte da origem verdadeira do sentido, pois o que Nietzsche demonstra é justamente que, se por um lado as palavras “começam” significando algo, ao longo do tempo os sentidos se modificam, carregando o histórico de sentidos (há algo que vai significando também pela permanência). Essas modificações equivalem a transformações conceituais na história do sentido das palavras.

Esse movimento analítico de Nietzsche é o de, ao se perguntar por um valor moral (uma questão ideológica), voltar a atenção especialmente para a língua (um sistema de signos, um tipo de linguagem, diferente da música, por exemplo), para a transformação do sentido da palavra, recusando uma explicação sociologista (utilitarista) e psicologista (Spencer), em favor de uma explicação que relaciona língua e história (Guerra dos Trinta Anos) – nosso problema, um problema silencioso.

            Eis a principal especificidade de Nietzsche enquanto filósofo: enquanto filólogo, atentou para a língua, e não apenas para a linguagem. Enquanto filósofo, analisou os temas filosóficos com atenção de linguista. Nietzsche, o primeiro analista de discurso[3] – o discurso cristão, o discurso científico, o discurso filosófico. Disso decorre que o projeto de Pêcheux sobre Nietzsche tenha sido justamente o de pensar as relações entre o sujeito (enquanto problema metafísico apontado por Nietzsche – o eu é uma superstição) e a ideologia (enquanto problema histórico apontado por Nietzsche – a moral é uma perspectiva), o que resulta na reflexão em termos de língua e discurso – a língua enquanto instrumento material da moral para impor e estabelecer uma determinada perspectiva.


[1] Pragmática designa domínios diferentes em Linguística e Filosofia.

[3] Não pedirei perdão pelo anacronismo.


tengo tumberos adentro

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Mama Brigitte, disponível em Nganga Mansa Cholan.

“Pwason te fè dlo konfyans, men se dlo ki bouyi l” – ditado criolo

Quantas palavras preciso dividir ao meio? Quantos meios são necessários para que seja possível ver o começo do fim? De quantos caixões é feito um genocídio?

Quantos de nossos antepassados foram enterrados em covas rasas? Quantos de nossos ancestrais foram apenas lançados no ermo de uma infinita desova? De quantos mortos é feita uma tragédia?

Quantos morrerão amanhã? Quantos dos que morrerão amanhã estarão entre meus amores? De quantas lágrimas é feita sensação de que quem morre é meu semelhante?

Quantas humanidades frustradas deixamos na memória do ano que passou? Quantos anos passarão até que tudo passe? De quantos nomes passados se faz a História?

Quantos amigos deixarei de fazer porque já estão mortos? Quantos filhos nem nasceram porque já os enterrei? Sobre os sonhos, talvez – quanto valem ou são vendidos a peso morto?

Será que falar de morte atrai mais a morte? Será que quando colocar a cabeça no travesseiro serei acordada pelo choro de quem não pode chorar? Ou será que nada disso, basta que eu durma e amanhã há de ser outra agonia?

Será que tenho ainda perguntas? Ou será que tenho tantas respostas prontas que não cabe mais a mim perguntar? Será que vai acabar antes que a gente desista e acabe por isso mesmo?

Será que viver é impreciso? Ou será que a morte também se torna objeto de imprecisas notações? Será que, como a mosca que ronda o cadáver, também morrerei por precisão, mais que por boniteza?

Pra tudo isso, um hino: não sei.

[mas]

tumberos traigo adentro

tengo tumberos adentro

i have cruces inside me

no flowers, no prayers

¿donde vive el tiempo que perdimos?

tengo tumberos adentro

mi ifa uterino llora

sin saber si hay futuros a divinar

¡tengo tumberos adentro!

Se não mata, engorda: e o que isso tem a ver com seu pós-doutorado?

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Dona Sônia e Isadorinha, em 1988.

Texto em co-autoria com Aércio Machado Jr., meu tio-pai.

pro Noah Machado, filho de Fabi e Túlio – que você chegue com muita saúde ❤

Isso não mata não, Bobo, era o jeito de minha Vó dizer que aquilo que não mata, engorda. Vovó não dizia que alguém tinha tomado susto: Vovó dizia que Fulano não cagou porque não tinha bosta pronta. Vovó não diza que alguém morreu: Vovó dizia que Fulano bateu com a bunda na cerca. Vovó não dizia que alguém estava com diarreia: Vovó dizia que Fulano tá cagando sem o cu saber.

Talvez os dizeres e sotaque e jeito de falar sejam das coisas que mais fazem com que me lembre de minha querida Vó Sônia, fatalmente atropelada em 2015. Ela me ensinou a gostar de plantas, de gatos, de chás medicinais. Com ela aprendemos que tem um chá pra cada dor, mas que arnica, hortelã, romã, boldo, alfavaca e cachaça queimada curam quase tudo nessa vida. Ela não me obrigava nem a pentear os cabelos nem a trocar o pijama. Com ela podia comer cachorro-quente de salame no café da manhã, e guaraná não fazia mal. Ela me ensinou que bondade combina com firmeza. São dela meus olhos, e meus ossos. Lembro dela toda vez que acho que as coisas não tem jeito. Com ela aprendi que falar balde ou barde não define o caráter de ninguém. Mas que são melhores as pessoas que gostam de biscoito de polvilho, frito. Dizem que, durante o velório de Dona Sônia, vários cachorros de rua dormiram tranquilamente embaixo do caixão, enquanto ela não era enterrada.

Minha Vó veio da extrema pobreza, e hoje faz muito sentido que ela sempre tenha dito, diante do pedaço de pão caído no chão ou do cansaço, que isso não mata, que o que não mata, engorda – parece ser da própria fome que ela falava.

Dona Sônia Maria Machado nasceu em Laranja da Terra, no Espírito Santo, mas passou toda a sua vida no Vale do Rio Doce, entre Manhumirim, Manhuaçu, Caratinga, e outras cidades mineiras com nome engraçado. A certa altura ela conseguiu um emprego de servente (hoje talvez fosse chamado de auxiliar de serviços gerais) na rodoviária do Carantiga, e se estabeleceu com os quatro filhos mais novos no bairro do Limoeiro.

Eu me lembro da primeira memória que tenho no barraco de tábua em que ela morava. Eu deveria ter quatro ou cinco anos, e sorria enquanto comia arroz com linguiça e a ouvia contar histórias naquele sotaque que já quis imitar, depois achei engraçado, depois quis negar, mas vi que não dá e hoje chamo de casa. Lembro do prato de arroz com linguiça, do banheiro em que vaso e chuveiro não tinham divisão, das várias plantas medicinais no barranco, do mingau de couve, e de que ela tinha um chá [e uma comida] pra cada sentimento da gente. Com o tempo, os sete filhos que ela teve se juntaram e fizeram uma casa de cimento pra ela. Mas esse barraco está eternizado na cabeça de todos nós, filhos/a e netos/as, porque era justamente assim que ela mesma gostava de se referir – “no tempo do barraco”, “ainda tava no barraco”, e por aí vai.

Hoje me lembrei de novo da minha Vó Sônia e de seu isso não mata, bobo, que é dito e repetido por tanta gente aqui no Brasil. Recebi a ligação de um amigo muito querido que mora na França, e olhava pra o mar enquanto tentava encontrar palavras para descrever pra ele sobre o estrangeiro desses tempos. Sim, porque parece que tudo tem sido pior aqui no Brasil, onde além do vírus, temos o inominável. Esse amigo me perguntou quando eu planejava ir até a Europa, e tive que segurar uma gargalhada – daquelas metade clarão, metade busto maia. Me pareceu absurda a ideia de ter planos enquanto 1910 pessoas morreram na véspera de hoje. Eu me limitei a dizer que, nesse momento, não estava fazendo planos. Foram dois ou três segundos de silêncio até a gente se despedir.

Quando desliguei o telefone, fiquei ainda um tempo olhando a rua. Vi um rapaz bastante jovem com uma mochila do iFood nas costas – o rapaz provavelmente estava andando alguns quilômetros para ganhar quatro ou cinco reais. Não, ele não estava de máscara. Sim, tecnicamente estamos vivendo o pior momento da pandemia. Mas o que ressoou na minha cabeça foi o dito de minha vó: isso não mata, Bobo.

Os jornais dizem não entender porque tantos/as/es brasileiros/as/es “fingem” que nada está acontecendo e continuam com suas atividades “normalmente”. Hoje eu pensei: porque se o vírus não matar, ao menos ele faz a gente engordar. A gente precisa continuar, afinal, porque sabemos que a fome é certa.

No final da vida, já aposentada, minha vó andava mais que notícia ruim – outra expressão que ela sempre usava. No final da vida, Vovó já tinha casa própria, aposentadoria, e mesmo com problemas cardíacos e pressão alta, estava sempre fazendo torresmo, frango frito, biscoito de polvinho. Ela dizia que quem muito se priva, também morre – dizia com outras palavras, mas era esse o recado. Tio Aércio sempre lembra que ela dizia: vamos comer tudo hoje porque não sabemos o dia de amanhã – quando tinha comida, a comida deveria ser aproveitada, porque ninguém sabia se a panela estaria cheia ou vazia depois.

Fico imaginando minha Vó Sônia se estivesse viva nesses tempos sombrios. Todo mundo brigava com ela pra comer menos açúcar, menos gordura, e principalmente pra não ficar pra cima e pra baixo naquele Caratinga. Quando Vovó fez 60 anos, ela se orgulhava de dizer que agora não ia precisar mais pagar passagem no circular. Circular é como chamamos ônibus no interior de Minas. Se algum tio/a/e ou primo/a/e ler essa crônica, certamente vai dar risada: imagine Dona Sônia usando máscara, passando álcool em gel nas mãos, e trancafiada dentro de casa porque tem um vírus horroroso do lado de fora. Pois é, também não consigo imaginar. Mas é certo que o vírus ia correr dela, diz Tio Aércio enquanto rimos imaginando.

Quando Vovó já não precisava mais de nada material – porque talvez tenha sido essa sua grande liberdade – ela passou a juntar latinhas para dar a pessoas em situação de rua, pra que vendessem. Segundo Tio Aércio, quem iniciou a tradição de revirar lixo foi minha bisa Vó Dolarisa, que não levava o Aercinho, e de quem o Tio Romilton fugia porque não queria mexer no lixo de jeito nenhum.

E, obviamente, não podemos falar de Dona Sônia sem falar dos panos de prato alvíssimos com baianas bordadas em rosa, verde, preto e amarelo, e com as bordas num perfeito crochê vermelho.

No dia em que ela morreu, inclusive, ela tinha ido a Santa Bárbara, cidade próxima a Carantiga, vender uns panos de prato para as amigas. Quando chegou lá, não tinha ninguém. Na volta, ela pediu que o motorista abrisse a porta no meio da estrada, porque ela havia se dado conta que não estava com sua carteira de gratuidade. Dizem que todos insistiram pra que ela ficasse no ônibus ou que pagariam a passagem dela. Dizem que não teve jeito. E quem a conheceu sabe que não deve ter tido jeito mesmo – ela sempre disse que não queria ficar doente em cima de uma cama antes de morrer. Ela desceu na autoestrada e, ao atravessar a pista, um caminhão a atingiu em cheio na cabeça. Ela morreu ali mesmo. Meses depois, viajei com meu tio Aércio para Caratinga, e a estrada ainda estava manchada do sangue por conta da seca e da realeza daquele sangue ali jorrado.

Ela usava o dinheiro da venda dos panos de prato pra ajudar seus amigos em situação de rua – pessoas e animais que não tinham o que comer. Não havia quem a convencesse que havia perigo em receber pessoas de rua na porta de casa, ou passar horas pegando lata pelas ruas. Vovó era teimosa, mas era sobretudo muito grata por ter sobrevivido à fome.

Talvez Vovó vivesse uma espécie de complexo de sobrevivente – aquele tão bem descrito por Primo Levi a respeito do Holocausto. Guardada as devidas proporções e singularidades, Levi sobrevive a Auschwitz ao passo que Vó Sônia sobreviveu à Fome. Em É isto um homem (Primo LEVI,1948), o “complexo de sobrevivente” fala da culpa por ter sobrevivido a algo tenebroso no lugar de tantos outros que não sobreviveram – ou por sorte, ou por ter se encaixado de algum jeito na seleção natural das espécies. Daí a necessidade de ser a voz daqueles que não sobreviveram. O próprio Primo Levi fala da diferença entre Fome e Holocausto –

Assim como nossa fome não é apenas a sensação de quem deixou de almoçar, nossa maneira de termos frio mereceria uma denominação específica. Dizemos “fome”, dizemos “cansaço”, “medo” e “dor”, dizemos “inverno”, mas trata-se de outras coisas. Aquelas são palavras livres, criadas, usadas por homens livres que viviam, entre alegrias e tristezas, em suas casas. Se os Campos de Extermínio tivessem durado mais tempo, teria nascido uma nova, áspera linguagem, e ela nos faz falta agora.

LEVI, 1948/1995:125-126.

Não quero me ocupar aqui das relações entre Fome no Terceiro Mundo e Holocausto. Quero dizer que vejo no comportamento de Vovó, mais que culpa, muita gratidão por ter sobrevivido à fome. Gratidão pelos filhos que ela pariu terem vingado, apesar de tudo – mesmo que para isso ela fosse obrigada a ver os três filhos mais velhos serem separados dela para viver com Vovó Marcília, sua sogra. Mas isso é outra história.

O que fazia uma senhora de 80 e poucos anos revirar lixo procurando lata que ela iria entregar a catadores de lixo, senão uma gratidão profunda por ter sobrevivido? Não sei. Agora me fogem um pouco as palavras.

Eu não sei se o que não mata engorda, ou se isso não mata, bobo. Ou se o que não mata nos faz mais fortes.

Sei que enquanto vejo o entregador de comida caminhando pela calçada da rua ao passo que já somos quase 260 mil mortos no Brasil, lembro de minha Vó Sônia: a cada dia que sobrevivo nessa imensa tragédia, eu agradeço.

Talvez no futuro seja mais difícil, porque hoje já é, entender porque não fui uma nas 260 mil mortes. Se esse dia chegar, espero ter esse texto pra me lembrar de nada pedir, de só agradecer. Talvez no futuro seja mais difícil, porque hoje já é, aceitar que o vírus não me matou. Se esse dia chegar, espero ainda me emocionar com os panos de prato de Vovó Sônia, bordados com seu versículo-mantra de Salmos 23:1: O Senhor é meu Pastor, e nada me faltará.

E o que isso tem a ver com meu pós-doutorado? Bem, é que estou buscando um jeito de traduzir um livro, sem deixá-lo impregnado com esse cheiro de flor de cemitério-que-não-sabe-mais-gente.

366 FILOSOFEMAS PARA O ANO DE 2020

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Fantatispedia

ORIBATA [trezentos]

leite de pedra

ouro da palavra

resquícios

rastros

outras flechas

casulo em Yamina

perscrutei o signo

cuspi na decência

assentei o verbo n’Água

espuma branca y,

planto da coroa do Sol

a real cabeça de Obbatala

A LA OSHA [y cuarenta]

um nome

um signo

um acorde

meu peito

uma ode

agruras de passado

sonho distante

fascínio

corpo

legião

antiquário da alma em festa

fartura de fome satisfeita

ópera dos ausentes y,

na carne a divinidade terrestre

LAS CLAVES [y seis]

la miseria mi casa habita

la riqueza alquiler no paga

hay un aire exótico

acostome con él

de pronto, un favor le pido:- ¡que del virus guarde mi cuerpo!

contéstame

dime

¿puede el viento ser hombre? 

dijo no, y dijo

viento es camino

rastros de la presencia de Diós. 

NOMBRE [y diez]

o feitiço primeiro

umbigo não tinha

Eva es hija de Lilith

¿traicionaste tu mama? 

no.

¿la engañó Adan?

si.

ebbó tiene palabra y, 

su nombre é Lucifer.

[musica pa mis trompas]

¿donde estas, Diablo?

en tus ojos, mi corazón – el Diablo contesta sin sonreír.

AL TIEMPO [y diez]

memorias de piedras

caminos de águas

sonidos de destino

[a ti confio mis pulmones]

háblame despacio

los signos, los síntomas

escucha cuando escribo

con las manos en la tierra

faz de mim doce palavra

meu útero carcomido

te sabe, te sonha

haz de mí su sueño

báilame con tus más bonitos pasos

Você precisa ler o capítulo 2 d’O Capital

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Imagem: NathanNunArt

Fui à padaria com seis gatos na mochila. Não esperava que a atendente percebesse o conteúdo de minha bagagem, mas é provável que meu tronco estivesse um pouco encurvado para frente. De qualquer maneira, de que maneira a atendente descobriu que eram gatos, e não cachorros, e não plantas? Como ela percebeu que eram gatos, e que não eram pedras?

Não sei.

Sei que quando ela percebeu que eu tinha seis gatos dentro de minha bagagem, ela me chamou para conversar na prateleira de materiais de limpeza. Disse que ali quase não tinha gente. Eu disse a ela que o tempo passava e que eu não percebia. Ela me disse que quem anda com seis gatos na bagagem nunca vê o tempo passar.

Tive que confessar. Tive que dizer que não eram seis, que eram sete. Ela disse que o tempo havia passado então. Eu disse que não tinha percebido. Ela disse que com sete gatos na bagagem ninguém poderia perceber o tempo passar. Não sei. Mas na hora concordei.

Perguntei à atendente, enquanto fingia procurar o preço do amaciante, sobre o que ela queria conversar comigo. Eu disse que não tinha muito tempo. Ela me disse que com sete gatos na bagagem ninguém tinha tempo, muito menos para conversar. Eu já estava sem paciência para conversar com a atendente, inclusive porque minha bagagem pesava muito, mesmo que ninguém ali notasse de que material era feita minha corcunda.

Ela finalmente me disse que ela tinha três crianças na bagagem dela, mas que ela já não poderia mais carregar. Eu dei uma gargalhada. Não acreditava que aquela moça tão jovem fosse capaz de carregar três crianças e ainda ter tempo de conversar comigo. Eu perguntei a ela se ela via o tempo passar. Ela disse que ver, ver, não via, mas que ouvia o tic-tac do relógio toda vez que as crianças choraram. Eu não entendi os tempos verbais que ela tinha usado, mas decidi continuar, porque já tinha encontrado o preço do amaciante quatorze vezes, e as pessoas poderiam começar a perseguir minha bagagem.

Não deu outra. Em poucas palavras ditas a prateleira de materiais de limpeza já estava cheia, e tivemos que nos mudar para perto do balcão de frios. Eu já não aguentava mais aquela dança psicótica pela padaria, mas resolvi continuar. Não poderia ir embora sem antes saber da bagagem daquela moça. Fiz uma pergunta definitiva: o que você quer comigo?, ao passo que ela me olhou como no dia da extrema unção me olharam as moscas.

Ela disse que não sabia. Me perguntou ironicamente se eu por acaso sabia o que eu queria com tanta palavra que saía de minha boca. Ela me perguntou: por que os gatos de sua bagagem não fazem barulho? Eu disse: porque estão mortos. Ela disse: as crianças também estão mortas, mas não param de gritar. Eu disse: mas só você escuta. Ela começou a chorar, e a abracei para que as pessoas não começassem a me olhar e enfim descobrissem o que eu trazia em minha bagagem.

Limpando o catarro que escorria pelo nariz, ela então disse o que queria propor desde que me viu entrando na padaria passando ao lado do caixa para cortar caminho: quer trocar a sua bagagem pela minha? Obviamente eu disse que sim, antes crianças que gatos. Já ia me movimentar pra que ela tirasse de mim o peso de sete gatos silenciosos. Ela me entregou a bagagem dela como se fosse minha, e saiu correndo pela padaria, atravessando a porta.

Eu nunca mais vi aquela mulher cuja última imagem – esta que me persegue – é a de cabelos longos e lisos voando em meio a pães e biscoitos. Um corpo sem corpo, apenas feito de cabelos voando.

Tive que colocar a bagagem de crianças dentro da bagagem de gatos. Fiz uma bagunça danada. Até hoje não me recuperei. Lembrei agora de Frida Kahlo pintando o próprio gesso enquanto não se movimentava em cima de uma cama. Porque estou sentada em cima de uma bagagem, que agora é uma só, de sete gatos mortos e três crianças mortas, mas não faço ideia, deus meu, do que significa o número 10.

Não pude nem pensar muito de frente à padaria. Tive que continuar andando.

Foi assim que passei pela rua do hospício onde já havia trabalhado, e vi uma casa para alugar. Chamei, mas ninguém atendeu. Me preocupava que não sabia se era tarde ou noite, se cedo ou tarde. Eu não via o tempo passar, mas ouvia as crianças gritando de modo incessante, então realmente ouvi o relógio, que é muito mais que ver o tempo passar, diga-se de passagem. Eu ainda queria ver o tempo passar, mas a vizinha da casa que eu queria alugar veio em minha direção. Meu medo era que ela visse minha bagagem, e dissesse para quem fosse dono da casa que eu não tinha bons antecedentes.

Muito pelo contrário. Ela era a dona da casa, e me disse que se eu quisesse alugar, que a casa era minha. Obviamente eu disse pera lá não é assim preciso ver a casa primeiro. Meu medo era que ela pudesse entrar na casa em minha ausência, e saber o caminho para os armários. Ela foi simpática, mas as crianças choravam tanto que eu paguei o aluguel ali mesmo na calçada e peguei as chaves.

Corri para dentro. Os armários eram amplos, ideiais para o que eu precisava. Mas havia um porão, e eu não sabia que casas brasileiras tinham porão. Abri a porta e desci dois degraus da escada. Já não aguentava mais carregar minha bagagem. Parei para descansar. Acendi um cigarro e ouvi um miado. Sim, havia um gato vivo no porão.

Ele me disse que se chamava Wash, e que eu deveria deixar minha bagagem no armário amarelo do porão. Achei que ele estava me dizendo a verdade, e obedeci. Wash me sorriu como quem entendesse que eu já não sabia andar sem minha bagagem. Ele me disse para subir, que ali minha bagagem estaria segura. Achei que ele nao tinha porque mentir, e obedeci.

Wash me perguntou: você troca dez mortos por um vivo? Eu disse que não sabia o que responder, porque meu medo era que se não trocasse seriam então onze mortos e nenhum vivo.

Wash riu.

Wash me disse: Gatos, crianças, bagagens? Você precisa ler o capítulo 2 de O Capital.

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O chapéu de Eleggua: tradução e perspectivismo

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Moyugba, Elegua!

Contam os antigos Yoruba que havia na Yorubalândia dois amigos que eram famosos pela amizade inquebrantável que mantinham. Os dois amigos cultivavam suas respectivas roças uma ao lado da outra, separadas apenas por uma estrada bem estreita. Contam os antigos Yoruba que essa amizade já era conhecida em toda a Yorubalândia, e que os amigos, muito orgulhosos de si mesmos e da amizade, começaram a dizer que já não precisavam mais dos Orishas, nem para fertilizar a terra, nem para trazer a chuva, nem para trazer a paz, nem para prevenir as guerras, pois apenas a amizade entre os dois era suficiente para que a vida das duas famílias prosperasse. Eleggua, dono de todos os caminhos e de toda a comunicação, ouviu uma dessas conversas dos dois amigos e teve uma ideia. Contam os antigos Yoruba que Eleggua, dono das palavras, vestiu um chapéu, que na metade direita era preto, e que na metade esquerda era vermelho, e foi caminhando pela estrada estreita que dividia as roças dos dois amigos que andavam dizendo não precisar mais dos Orishas. Eleggua, dono do corpo, passou assoviando suas canções e no fim da estrada sumiu. A esta altura, os dois amigos estavam intrigados, conversando sobre quem era aquele homem de chapéu que havia passado assobiando: “O senhor viu aquele homem de chapéu preto?”, perguntou o amigo da roça da direita. “Não havia nenhum homem de chapéu preto, meu amigo. O homem que passou tinha um chapéu vermelho, e eu nunca o vi por aqui!”. Já havia passado mais de três horas, contam os antigos Yoruba, que os dois amigos estavam brigando, e não se colocavam de acordo a respeito da cor do chapéu que fora visto. Até que se juntou uma multidão de gente que também não se colocava de acordo sobre a cor do chapéu do ‘homem’, e então os dois amigos “saíram no braço”. Brigaram durante tanto tempo, que acabaram se matando, porque um dizia que o chapéu era vermelho, e o outro dizia que o chapéu era preto.

Essa história da tradição Yoruba, ademais de relatar características do Osha Eleggua que não desenvolveremos neste momento, nos diz sobre a cosmovisão destas sociedades, que se organizaram ao longo de mais de 10.000 anos e que hoje se estabelecem nas continuidades do Togo, do Benin e da Nigéria, e que também se encontram em diáspora nas Américas desde o século XVI. No patakín que trouxemos à tona, há uma briga em torno de duas perspectivas: entre aqueles que, de uma posição, viam o chapéu preto, e aqueles que, de outra posição, viam o chapéu vermelho. Ou seja, instaurou-se uma disputa por perspectivas.

O patakín também nos remete ao caráter político da linguagem, quando tomamos o chapéu de Eleggua como o sentido em disputa, sentido este que, desde a Semântica da Enunciação, conforme demonstraremos, é sempre dividido. O sentido de terra não encontrará consenso entre latifundiários e ambientalistas, pois que a divisão se inscreve na língua desde as diferentes perspectivas pelas quais os falantes são agenciados.


A tradução, de alguma maneira, também se inscreve nesse cenário de conflito imanente da linguagem. Se o chapéu de Eleggua é dividido em duas cores, a tradução não produzirá síntese, mas sempre tese e antítese incessante: de um lado a língua a ser traduzida, do outro lado a língua para a qual se traduz.

As traduções estabelecem, portanto, um litígio de perspectivas. Perspectivas entre línguas, perspectivas entre sociedades que falam essas línguas, perspectivas entre tradutores. Com o patakín de Eleggua, compreendemos que o conflito não tem resolução, mas que o conflito pode ser sistematizado. Isso porque Eleggua é o dono das encruzilhadas, e nos ensina que todo problema é constituído por diferentes perspectivas – ninguém pode olhar o centro de uma encruzilhada desde as quatro esquinas, ao mesmo tempo.

A tradução, assim, se constitui como um exercício de perspectivismo – movimento do sujeito na história e na línha.

*Patakín: são assim chamadas as histórias tradicionais dos Yorubas em Cuba.

Festa de Yemaya, silêncio no mar

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Fonte: originalbotanica.com

Como é lindo o canto de Iemanjá Faz até o pescador chorar

Iemanjá Rainha dos Ondas Sereia do Mar – Ponto de Umbanda

Para o querido Tiago Pires, porque tudo vai dar certo
Et à ma soeur Ruth Zenon, parce que nous sommes là

Ontem foi dia 2 de fevereiro, dia de Iemanjá no Brasil. Dia 2 de fevereiro é o dia mais bonito do Brasil. Dia das águas, presenteamos Oxum e dançamos rio abaixo até nossa grande mãe, dona de todas as cabeças. As Yialorixás e os Babalorixás, com suas grandes famílias aquáticas, preparam belos balaios, barquinhos e oferendas: “perfume, flor, espelho e pente – toda sorte de presente para ela se enfeitar”. Mesmo quem não é de candomblé, sente vontade de acompanhar o fluxo de gente feita de água e sal – compram flores amarelas, vermelhas e até azuis, pisam descalço na espuma branca que divide o real entre o presente e o passado imenso de nossa memória genética.

Ontem foi dia 2 de fevereiro no Brasil. Faltaram alguns números: ontem foi dia 2 de fevereiro, do ano de 2021, no Brasil. Ontem não podia descer pra rua e encontrar o mar de esperanças que se renovam todos os anos. Ontem éramos 227 mil mortos no Brasil e milhões de doentes. Ontem éramos o descaso de um governo fascista, que tem testado fórmulas genocidas com nosso povo de pés rachados de andar e de mãos calejadas de procurar solução. Ontem éramos um país sem vacina para todxs, sem educação para todxs, sem saúde para todxs, sem perspectiva para todxs. Ontem éramos o Brasil que eu via nas capas de revista quando era pequena, e que me espantava pela proximidade do que via nas ruas. Ontem éramos o presente de um passado que se repete substituindo qualquer futuro. Ontem não teve festa.

É certo, entretanto, que quem tem fé vai a pé, como se diz aqui na Bahia. Acordei cedo, me vesti de branco e de contas no pescoço, com perguntas sem resposta. Saí cedo com modestos presentes, saudei Oxum na mina e agradeci porque ontem éramos um país que tira água de pedra. Kaokabecile, Xangô – que os arquitetos de toda esta desgraça sintam o peso de seu Machado.

Caminhei entoando bem baixinho cantos de louvor à Grande Mãe. Enquanto atravessava a rua pra chegar ao mar, notei que notavam o branco de minhas vestes frente à minha pele branca e notei que eu notava outras pessoas de vestes brancas e colares de contas, com e sem seus ojás, caminhando ou sozinhas ou em grupos pequenos de duas ou três pessoas. Garoava como se o dia fosse noite de eterno sereno. As pessoas nos pontos esperando seus ônibus, e na roda de nossas saias estava grafado o desejo de que pudéssemos girar sem ataduras no rosto, como se Rum, Rumpi e Lê fossem crianças travessas correndo pelo terreiro de areia. Entreguei meus presentes, e logo voltei para casa. Porque, afinal, mesmo que na minha família seja 7 de setembro o dia da Rainha do Mar, foi na Umbanda de Ponto Cruzado que meu corpo veio ao mundo.

Ontem havia tanto por dizer ao mar…Mas a garoa pequena que desenhava pontinhos na areia parecia dar o tom de silêncio que antes eu só conseguia escutar nos cemitérios. As pessoas de brancas vestes se falavam por meio de algo que era impossível de dizer. É no silêncio que aprendemos a cantar com os batás. É no silêncio que aprendemos a falar a língua dos orikis. É Silêncio e Tempo de Orixá que toma (o) corpo. Mas ontem era silêncio outro.

Ontem rezei silenciosa pelos mortos de hoje. Ontem rezei silenciosa pelos corpos negros de ontem que tingem o fundo do Atlântico Negro*. Mas ontem rezei também no silêncio que, nas palavras de Eni Orlandi (1999), é prenhe de sentidos. Porque aprendi com minhas/meus professorxs que a linguagem é feita de muitas vozes que disseram antes do meu dizer, mas que a linguagem também é feita de silêncio.

Eni Orlandi** (1999:31) disse que talvez a gente precise, “ao invés de pensar o silêncio como falta, pensar a linguagem como excesso” . Excesso de mortes dos mesmos, excesso também nas palavras que profanam corpos mortos em covas rasas: “é só uma gripezinha”, que estaria “superdimensionada” porque “todos vamos morrer um dia”, “e daí?!”, então “cobre de seu governador” porque a gente “não precisa entrar em pânico”.

Não à toda, ontem o povo de santo renovou sua fé no mesmo silêncio com que aprendemos a dobrar a folha de bananeira – silêncio que fala. E o que me conforta, olhando pra o mar, é que nossa Grande Mãe Iemanjá aqui sempre esteve, testemunhando injustiças e apaziguando nossas cabeças e dores.

Ontem tanta gente chorou diante do mar, que acho que, em silêncio, Mãe Iemanjá pegou a matéria de nossas lágrimas de água e sal, misturou em seu grande ventre, e acordou ainda mais imensa.

¡Jekua, Yemaya!

¡Odoooo Ya!

¡Saravá, Mãe d’Água Rainha do Mar!

* Referência ao livro de Paul Gilroy, Atlântico Negro.

** Eni Orlandi, As formas do silêncio.

GrupA: sobre trabalhos y encruzilhadas

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GrupA de Práticas em Análises de Discurso (logo)
 Pomba-Gira cigana, Exu-mulher
 guarde-me em sua quartinha
 pois nada sou sem seu colar de contas
 pois nada posso sem sua mandinga
  
 “Toada Ndongo”, do livro “366 poemas para 2020” (mimeo) 

Desde 2016, coordenamos a GrupA[1] (Grupa de Práticas em Análises de Discursos/CNPq), no Instituto de Letras (ILUFBa) da Universidade Federal da Bahia. Apesar de o grupo de pesquisa se abrigar no ILUFBa, somos constituídos por estudantes provenientes de diferentes cursos – Bacharelados em Humanidades e Artes, Ciências Sociais e Pedagogia, bem como por pessoas sem vínculo institucional.

Para além de um dado, essa diversidade de formações acadêmicas diz de nossa proposta política de atuação na Universidade, uma vez que nos fundamentamos na pedagogia crítica de Paulo Freire para afirmar que qualquer pessoa pode fazer pesquisa científica, basta que haja orientação adequada e um ambiente acolhedor. É nesse sentido que afirmamos que a GrupA é um grupo de popularização da pesquisa científica. Popularização, assim, adquire um viés específico, no que entremeia os sentidos de constituição das classes populares, em detrimento de práticas científicas que desconsideram as condições materiais de produção dxs[2] cientistas.

Na GrupA, nossos trabalhos são arriados em diferentes encruzilhadas, mas sobretudo em encruzilhadas-fêmea que entrecruzam os Estudos Feministas (particularmente o Feminismo Negro e o Feminismo Pós-Colonial), a História das Ideias Linguísticas e o entremeio Análise de Discurso-Semântica da Enunciação. Nesse entroncamento de saberes, oferendamos um questionamento que nos funda: de que maneira, e por meio de quais funcionamentos, a interseccionalidade[3] – conceito-ebó de Feminismos Negros – se faz marcar na língua-materialidade-do-discurso?

Isso porque, quando perguntamos à encruzilhada-fêmea se a interseccionalidade, tal como compreendida por Lélia Gonzalez, Kimberlé Crenshaw, Carla Akotirene e Patricia Hill Collinss, se marcava na língua, Eshu-Elegguá nos respondeu com dois búzios abertos e dois búzios fechados: eyeife, lo que se sabe no se pregunta. Com esse sim em mãos, nossas pesquisas com a GrupA desde 2016 tem se dedicado a compreender os modos de a interseccionalidade se discursivizar na língua.

Na primeira parte dessa investigação, entre 2016 e 2018, analisamos a comensurabilidade epistêmica entre a Análise de Discurso de cunho materialista e as ideias linguísticas de diferentes intelectuais negras que trata(ra)m da questão interseccional. Ao mesmo tempo, as outras pesquisadorxs da GrupA desenvolviam trabalhos de Iniciação Científica (IC) a respeito de temáticas que colocavam em funcionamento discurso e interseccionalidade. Foram então produzidas pesquisas sobre o genocídio da juventude negra (particularmente sobre a Chacina do Cabula), questões de gênero na história do ensino de biologia no Alto Sertão da Bahia, lei do feminicídio, lei antibaixaria, geração tombamento, funk produzido por travestis e mulheres trans*, dentre outros trabalhos que não chegaram a ser concluídos. Em todas essas pesquisas de IC, o objetivo foi pensar a discursivização da interseccionalidade.

No fim desse primeiro projeto, compreendemos que se, por um lado, a Análise de Discurso tinha pouco a dizer aos Feminismos Negros, por outro, os trabalhos que construíam esse entremeio acabavam por trazer reflexões importantes para compreendermos as relações entre linguagem e ideologia, que se fundam na intersecção de raça, gênero/sexualidade e classe. Foi a partir dessa compreensão que, em agosto de 2019, nos unimos em um projeto comum a fim de investigar as nomeações de grupos minoritários em dicionários gerais de Língua Portuguesa.

Na primeira fase desse segundo projeto, nos detivemos em nomeações de gênero, e procuramos compreender, em verbetes como mulher, homem, pai e mãe, se e, se sim, de que maneira, esses verbetes mobilizam as estruturas de raça e de classe para sustentar as nomeações e definições de gênero. A partir de 2020, passamos a pensar sobre uma política de nomeação racial nesses dicionários, investigação que está em curso. Ainda estão previstas mais duas etapas, a fim de investigarmos nomeações de sexualidade e de classe.

Às encruzilhadas, oferendamos bell hooks (2013:273):

“A academia não é o paraíso. Mas o aprendizado é um lugar onde o paraíso pode ser criado. A sala de aula com todas as suas limitações, continua sendo um ambiente de possibilidades. Nesse campo de possibilidades temos a oportunidade de trabalhar pela liberdade, de exigir de nós e dos nossos camaradas uma abertura da mente e do coração que nos permita encarar a realidade ao mesmo tempo em que, coletivamente imaginamos esquemas para cruzar fronteiras, para transgredir. Isso é a educação como prática da liberdade.”

bell hooks, em Ensinando a Transgredir – a educação como prática da liberdade


[1] Grupo de Pesquisa certificado pelo Diretório Geral de Pesquisa do CNPq: dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/8017618527919444

[2] A fim de abarcar pessoas não-bináries, mulheres e homens, escolhemos (des)marcar o gênero de palavras binárias que referem a pessoas com um ‘x’.

[3] “A interseccionalidade impede aforismos matemáticos hierarquizantes ou comparativos. Em vez de somar identidades, analisa-se quais condições estruturais atravessam corpos, quais posicionalidades reorientam significados subjetivos desses corpos, por serem experiências modeladas por e durante a interação das estruturas, repetidas vezes colonialistas, estabilizadas pela matriz de opressão, sob a forma de identidade. Por sua vez, a identidade não pode se abster de nenhuma das marcações, mesmo que nem todas, contextualmente, estejam explicitadas.” Carla AKOTIRENE – em Interseccionalidade (2019:24). E: “Ao invés de ver as pessoas como uma massa homogênea e indiferenciada, a interseccionalidade fornece uma janela para explicar como as divisões sociais de raça, gênero, idade e nacionalidade, entre outras, posicionam as pessoas diferentemente no mundo, especialmente em relação à desigualdade social global” Sirma BILGE e Patricia Hill COLLINGS, em Intersectionality (2016:15).

Abraão encontra Kierkegaard no abismo

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E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você. – Friedrich Nietzsche (1844-1900)

Em Gênesis 22:1-16, escutamos um momento da vida de Abraão: quando Iahweh põe à prova a fé do grande patriarca, e pede que sacrifique Isaac, seu filho com Sara, em uma montanha de Moriá. Quando já tinha fogo e lenha para o sacrifício, quando Isaac já estava amarrado à lenha, quando Abraão já sustentava o cutelo com a mão pronto a imolar o filho, um anjo chama Abrãao desde o céu e diz: “Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus: tu não me recusaste teu filho, teu único” (Gen 22:11). Nesse momento, Abraão ergue os olhos e vê um carneiro preso pelos chifres em um arbusto. O carneiro é então sacrificado no lugar de Isaac. Por essa razão, Abraão nomeia o lugar do sacrifício de “Iahweh proverá”.

A este respeito, o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard (1813-1855) tece uma série de considerações sobre os paradoxos da fé em Temor e Tremor (1843). Há uma delas que me chama especial atenção, pois trata da condição de solitude da fé e, mais que isso, do algo de indizível que toda fé carrega. O indizível, compreendido enquanto silêncio significante (Eni Orlandi, 1999), é ainda um modo de estar na linguagem e, portanto, na comunhão dos processos de significação.

Diz Kierkegaard (1843/1979:296): “[…] Abraão cala-se…porque não pode falar; nesta impossibilidade residem a tribulação e a angústia. Porque, se não me posso fazer compreender, não falo, mesmo se discurso noite e dia sem interrupção. Tal é o caso de Abraão; pode dizer tudo, exceto uma coisa, e quando não pode dizê-la de maneira a fazer-se entender, não fala. A palavra, que permite traduzir-me no geral, é um apaziguamento para mim. Abraão pode dizer as coisas mais formosas a respeito de Isaac de que uma língua é capaz. Mas no seu coração guarda uma coisa muito diferente; esse algo mais profundo, que é a vontade de sacrificar o filho porque é uma prova. Não podendo ninguém compreender este último ponto, podem, no entanto, equivocar-se todos quanto ao primeiro.”

Kiekergaard traz à tona uma particularidade bastante interessante a respeito de todo sacrifício, que é sua indizibilidade em última instância. Esta indizibilidade se constitui de silêncio, mas este silêncio, tal como o teorizou Eni Orlandi (As formas do silêncio, 1999), é prenhe de sentidos. Quando Abraão toma o cutelo já sem possibilidade de não o fazê-lo, há um bolsão de silêncio que se produz entre levantar o cutelo e ver o carneiro preso em um arbusto. Esse silêncio do <entre o cutelo e o carneiro> passa a constituir Abraão, pois de muitas maneiras se torna uma experiência que não poderia ser jamais partilhada com as palavras comuns – daí o poder das palavras, e do dizer, de apaziguar.

Geralmente, quando nos sentimos solitária.o.s, há um senso comum que nos fala: converse com alguém, o que no último século pode ser parafraseado por procure um.a psicológo. Se desde muito há quem diga que o silêncio é uma propedêutica para a fé, em nossos tempos a fé parece se manifestar quando acreditamos que ir até o outro é uma busca pela palavra do Anjo que nos mostrará o carneiro de Abraão.

Em momentos de dificuldade, a sensação que eu tenho é a de que estou prestes a sacrificar justamente minha fé em Olodumare e nos Orixás. Algo de complicado se coloca como realidade e, de repente, pareço estar disposta a atar os deuses à lenha, como se dissesse: “se vocês não me ajudarem, não acredito mais em vocês” – numa alucinação narcísica de que os deuses me necessitam, e não o contrário. Afinal, se é para escolher um carneiro, antes os deuses que eu, penso no abismo com o cutelo na mão, enquanto miro Abraão e Kierkegaard.

Tenho compreendido o sacrifício do qual Orunmila nos fala quando o consultamos para além do sangue. Atravessar situações limites ou, como tão sabiamente está colocado no Oddun Regente de 2021 – Ikafun: “A veces lo que no nos gusta es lo que tenemos que hacer“, pode ser justamente o mais grandioso sacrifício para mim e minha geração de ególatras.

Este sacrifício – fazer o que não gostaria de fazer por saber que é o que deve ser feito – muitas vezes me enche de indizíveis, porque há algo dessa necessidade que não posso comunicar com as pessoas, apesar de, como disse Kierkegaard, as palavras traduzirem e apaziguarem.

Ontem estava saindo do supermercado cheia de sacolas. Quando já estava na calçada pronta a chamar um Uber e voltar para casa, o sinal do celular era zero. Não podia nem usar internet nem ligar para ninguém. Aquela situação bastante banal – bastaria esperar um pouco que em algum momento o sinal retornaria – fez com que eu me sentisse extremamente sozinha, e me fez questionar todas as escolhas que fiz em minha vida, durante alguns minutos. Diante do abismo, quase me arrependi de ter escolhido viver em uma cidade desconhecida sem familiares, quase me arrependi de não ter casado com qualquer pessoa apenas para não ser obrigada a fazer compras sozinha, quase me arrependi de ser quem eu sou. Mais ainda, invoquei todos meus Orixás, pensei em minha futura iniciação, e estava prestes a atar Olodumare à lenha de minhas incertezas e imolá-lo com meu cutelo de palavras profanadoras.

Aí passou um taxi. Estendi a mão, o táxi parou. Aceita cartão?, perguntei sem muitas esperanças. O senhor, muito gentil, disse que sim e começou a me ajudar a colocar as compras no carro. Já no carro em movimento, agradeci pelo privilégio de morar em uma cidade paradisíaca, agradeci por aprender a resolver minhas demandas junto aos deuses, agradeci a Elegguá que faz tudo dar certo depois de dar errado.

Mas, assim como Abraão, não tenho certeza se sigo igual depois de ter visto novamente o abismo – porque a banalidade das situações não determinam necessariamente a profundidade das questões que as situações nos colocam.

Chamei aquela esquina de “Elegguá proverá”. E sigo ao som de nosso Ijexá.

Toada Ndongo

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Pomba-gira cigana, Exu-mulher

há algo de ti que me cabe

seja a presença, seja a saia

tenho seu fundamento

há muito de ti que me sabe

na encruzilhada plantei palavras

dei de comer e de beber a outros saberes

é seu nome, então, que hoje canto

em ritmo banto, na toada Ndongo

Pomba-Gira cigana, Exu-mulher

guarde-me em sua quartinha

pois nada sou sem seu colar de contas

pois nada posso sem sua mandinga

“Toada Ndongo”, do livro “366 poemas para 2020” (mimeo)

e lá komunz praticávamos amores

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Playa de Santa María, La Habana, Ovtubre de 2011. Archivo Personal.

http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/estacaoliteraria/article/viewFile/28311/20471


a palavr’incertitude, a palavra diarma, ruído,
arsenal sonoro contra a noite desse silêncio imposto.
o ritmo – eternamente refeito a partir d’uma única
duração. o tempo – talvez seja preciso inventá-lo.
édouard glissant. martinik.1928.2011


pra
ler na calçada

[…]


I


irmano-me ao que mora onde dorme
e como a cura dos desejos,
escuros meus

dou a eles o que
em mim desconhece nome
paradeiro possível de tentativa
sabotada
fiz um negócio vendido
barato na mentira da vitrine
sei de tudo conquanto habito:
disso faço palavra inflamada e
obscura estrada


de terra mestiça
atenta deito nas cores
das minhas razas
mestizas


sou conquanto daquilo conquefluo
e pereço por donde me deit

faço círculos e leis na areia
da qual me despeço desenhos
e castelos, outrora sonhados,
hoje sabidos: a víbora
sedenta espera
o sapo:
cadeia da vida
aniquilá-lo

II


de pés descalços meço o passo por dentre
as plantas que se desenham verdes enovelada
de areia e banalidades dos homens que ali
estiveram sozinhos
cadência e restinga
solfejam o ritmo desse peregrinar sutil
tropeço nas crias das tartarugas
que me comeram a placenta, gesto
nelas calor da caminhada e bendigo
elas que devirão tantas outras
proteger serpentes que tecem sós
e não temem ratoeira
é que me constituem tantas coisas que
me chamo todas elas depois de ti,
depois de ti que me soube caminho
deserto que me fui assim

III


meu corpo tomado pelo que de ser junta-se
centrípeto no seio navegado pela língua
meu corpo febril e os pêlos que de si sabem
levantar-se ambíguos em leito estrangeiro
tomas de pesar o amuleto,
alguma coisa então segue nos paradeiros da falta
passo as tardes tanto caminho
o dia Fluxo amorfo, navegam
meus pés, sublime restinga
erva nasce na areia como pequeno fossem as
bravuras do peito
alento e sina de marcha
delirante povos gentios que infeccionam
o ritmo desse peregrinar sutil
encontro em minha fronte parede vegetal
refletidas, as lonjuras marítimas
aperto o passo,
tanto canto a seita


IV


desse tamanho em que me cabe a bravura
alenta-se ninho estranho no peito que
nino e entrego estado sôfrego à carência
dos seres cuja moralidade renega
minha morada no abismo
destina-se leito o colo que ofereço
e do dengo dos dias deito dormito
daquele cheiro que carrego presença
dele em minha pele rasurada
bulbo capilarizado é matéria que bebo
em meus chás e outros pecados –
feitiçaria ancestral
desde lá aceita


nu feminino
fosso
ferida inversa


V


coisa tinha de caminho nesse amuleto
afeito de vida e sombra, lejanías da
falta castigada, memória
ancestrais anseios disputam medida –
no peito tênue,
patois antigo
difícil passagem
anda onde espreita

rezam e as lendas
sondam memória uterina
resta corpo e febril
perde o rosto
resto da pele
assim me assomo mais ao mundo esmo


VI


marco o caminho na areia
estilhaçada pela gravidez da cama,
encarniçada de vida,
tal qual o mangue por donde me deito
pedra sabe retina
ouso a amplitude do corpo que é meu e me sonda memória o delírio ancestral do
verbo

VII


perco caminhada de silenciosa estrada atenta domínio errático
letra extermínio sangue
busco caminho em campos de areia
matéria que não guarda lembrança
nem do sangue nem do visco
nem dos estupros nem da amplidão
nesse solo
que ora redunda
mangue
ora restinga
sei tal sina
soro sutil


VIII


a despeito do quanto
sondo patois martiniano nesse leito
garimpado pedra
quem seja minha nobreza genética?

[…]

i no original, esses são os oito primeiros poemas do tema “habitações”. in: misantrópolis. ato ii, lejanías.

A França e os Fascismos de suas Esquinas


Paris. Quinta-feira. 22 de novembro de 2012. As pessoas ganhavam a vida nas ruas fluidas do Barbès-Chateau Rouge[1]. Nessa normalidade patológica, o apartheid silenciado e silencioso da cidade do amor (sic) se dava aos olhares atentos das frestas boquiabertas de tanta vida. De repente, uma das esquinas explodiu: era o muro dizendo que uma hora (ir)rompe. Uma van completamente navalhada por dizeres que pareciam funcionar por dispersão: dizeres contra a opressão em geral; dizeres sobre o socialismo mentiroso de François Hollande, dizeres reclamando do sexismo, dizeres reclamando mudança de postura por parte de certos grupos de homens. A dispersão dos enunciados não se diria mais, pois que a mulher negra habitava, naquela tarde, o topo do carro. De cima dele, discursava indignada contra os problemas já-ditos antes dela, em outro lugar talvez.

« Acoma tonbé, toutt moun di sé boi pouri. » – Proverbe martiniquais

A van, um dia branca, fazia-se livro aberto para quem quisesse ler. No alto da van, uma mulher negra gritava palavras de ordem. O discurso inflamado da mulher negra começa a ser abafado pelas sirenes azuis. Rapidamente cerca de dez viaturas chegaram àquela esquina do bairro negro (e) árabe (e) imigrante. Quebraram o vidro da van, e a golpes violentos derrubaram a mulher negra de cima da van. Cinco policiais gritavam com a mulher negra que estava em cima da van. Imobilizaram a mulher negra, que continuava gritando. Não havia uma policial mulher para fazer a revista: um policial branco apalpou a mulher negra. Em volta da mulher negra, do policial homem branco, e da van outrora branca hoje livro aberto, uma multidão de negros (e) árabes (e) imigrantes observava a prisão. Alguns filmavam.

O primeiro policial homem branco pede que eu me afaste. Eu o chamo de fascista. Um homem branco se para diante desta câmera, e me ordena parar. Eu ignoro, como se desconhecesse a palavra de ordem. “Meus colegas estão fazendo o trabalho deles. Você não pode fotografar”, ele grita sua estupidez com coragem. – “Eu conheço a lei.”, respondo rapidamente, recorrendo ao discurso legalista (o mesmo ao qual faço frente). “Você conhece a lei, mas não conhece a França. Eu ordeno que você pare”, diz ele possuído pela pragmática de seus atos. Nesse exato instante, ele tenta tampar a câmera com as mãos. Violentamente tenta arrancar o celular da minha mão. Eu tento me desvencilhar dele, como quem ignora a violência e me afasto. Na última investida dele, saio, sina de Chico, correndo.

Ainda tremendo pela violência da figura bárbara do homem branco, entro no metrô e me misturo à multidão que, impávida, não se afeta.


[1] Barbès e Chateau Rouge designam uma faixa territorial no norte da Paris intra-muros. É um lugar temido pelos parisienses de origem franca, mas é lá minha Paris preferida, onde encontro feijão, fubá, quiabo, e descubro sabores e cheiros que emocionam minhas memórias ancestrais. Os parisienses dizem que o Barbès e o Chateau Rouge são perigosos porque lá existem muitos “árabes”, “africanos” e “imigrantes”.  

Em Memória de Seu Vermelho, cantamos: Olorun kosi pure 🦉

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Trabalhador rural é assassinado a machadadas no Quilombo Rio dos Macacos, na Bahia

“Beatriz Nascimento. Quilombola e Intelectual. Possibilidades nos dias de Destruição” – União dos Coletivos Pan-Africanistas UCPA Editora Filhos da África, 2018, p. 7
“Beatriz Nascimento. Quilombola e Intelectual. Possibilidades nos dias de Destruição” – União dos Coletivos Pan-Africanistas UCPA Editora Filhos da África, 2018, p. 6.

Fidel: sombra e sol

Minientrada

Joy Sunset, Porto da Barra. Agosto de 2019.

http://www.cuba.cu/cultura/2019-11-25/fidel-siembra-y-sol-/49575

Fidel es gigante, infinito, vive de mil maneras entre nosotros. Fidel permanece en el presente de Cuba que es en gran medida su obra y, absolutamente, su legado.

Conversamos con algunos creadores cubanos de varias generaciones, sobre la vigencia y la impronta del líder eterno de la Revolución cubana en el arte y la cultura de la isla.

Desde lo más autóctono de nuestra cultura, llega la imagen de Fidel al trovador que tanto le ha cantado, Raúl Torres nos repite una palabra en mayúsculas: «Estoy viendo a un poeta en Palmas y Cañas, (un programa que no dejo de ver nunca desde niño) y mientras se inspira y canta su tonada van poniendo imágenes de Fidel, Fidel sonriendo, Fidel pensando, escuchando, discursando… y los versos del poeta se mezclan con otros que voy mascullando entre labios intentándoles la rima y me vuelvo a sorprender inspirándome en nuestro numen, nuestro genuino portador de dignidades, nuestro salvador de almas, nuestro hacedor de seres brillantes que le guardan en el centro del pecho y al final de todo me quedo sin terminar el octosílabo, sin encontrar una rima decorosa para la palabra, GRACIAS… Comandante GRACIAS».
 

La joven instrumentista y cantante Maylín Quintana, consideró: «Uno de los legados del líder histórico de la Revolución cubana, es el acceso a la cultura como un derecho humano por encima de élites y de visiones excluyentes. De hecho, la primera ley revolucionaria en el ámbito cultural la firmó Fidel. Al triunfo de la Revolución establecía la fundación del Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos (ICAIC), institución cuyo principal evento sigue siendo uno de los más prestigiosos en el continente: el Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano».

Para Arnaldo Rodríguez, bajista, cantante y Director del Talismán: «uno de los conceptos más importantes que tenía Fidel sobre la Cultura era el sentido de la masificación del Arte. Tener la visión-intención de que las mayorías pueden tener acceso a la cultura como un derecho y no como privilegio exclusivo de los que tienen dinero, la creación de un sistema nacional de enseñanza artística para la formación profesional en todas las manifestaciones.

«Y yo me pregunto. ¿Hay algo más revolucionario, en el sentido renovador de la palabra, que crear y formar el concepto de Instructor de Arte? En cada barrio, comunidad, lomerío o ciudad un profesional que contribuye a apreciar el arte, a dinamizar la vida en colectivo, a orientar a futuros artistas ¡es una idea fenomenal!

«Por otro lado, Fidel impulsó siempre la formación de una sociedad con Individuos que alcanzarán un nivel básico de cultura en su percepción integral,  más allá del hecho artístico. Que cualquier persona sea obrero, intelectual, ama de casa, estudiante, aprendiera a discernir, valorar, incluso realizar una crítica… es realmente impresionante. Y ahí lo ves en las polémicas populares que hace la gente cuando se realizan concursos y competencias artísticas…emiten criterios muy acertados.

 «Cuba tuvo una Revolución política y social en 1959, pero también hubo una revolución cultural con todo esto que te digo, y mucho más…..otro ejemplo: El fácil acceso de las mayorías a grandes espectáculos, conciertos, ferias culturales, magnos eventos artísticos, y esto es my importante,  pues aunque los cubanos pagan poco para entrar a un teatro, mantener y sostener la infraestructura de la Cultura es altamente costosa. Y Fidel insistió siempre en la necesidad de sostener la economía de la cultura, como un esfuerzo del Estado para no perder la esencia de que es un beneficio público».

Amanda Sofía Perelló, estudiante de la escuela de música Manuel Saumel, tiene muy clara su mejor herencia: «El legado más grande de Fidel es que gracias a él tenemos nuestras escuelas de arte gratuitamente. Lo cual facilita que se nos abran  puertas en el mundo del arte ya que no tenemos la preocupación de si nuestros padres pueden pagarnos los estudios. Y además el amor y la fidelidad a la patria, sentimientos que podemos expresar a través de nuestro medio más fácil: el arte, en nuestro caso la música».

Y Rubén Darío Salazar Taquechel, Director del Guiñol Nacional y de la Compañía Teatro de Las Estaciones, también comienza a agradecer por la siembra: «Lo primero que el arte y la cultura cubana tendrá que agradecerle eternamente a Fidel y la Revolución es la creación de las escuelas de arte. Una cantera de futuro. Muchos de los que hoy brillan con su obra en la isla y el mundo, fuimos formados allí, de manera gratuita y con los más prestigiosos profesores. Libros, conjuntos artísticos, museos,  las casas de cultura, son parte del proyecto de confirmación de lo nacional, sin chovinismo, sino en diálogo con el arte y el pensamiento del planeta. Tengo orgullo de mi tierra, de mi pueblo culto y popular. Fidel, tan fiel como su propio nombre ayudó para que así fuera y pudiera andar por todas partes con el nombre de Cuba en el pecho cual un sol».

Lunes: é sempre dia de Elegguá

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Trecho traduzido de http://www.es.santeria.fr/2019/08/06/eleggua-dueno-de-los-caminos/ , com a permissão de SanteriaFR.

Elegguá es el portero de todos los caminos, del monte y la sabana, es el primero de los cuatro guerreros junto a Ogun, Ochosi y Osun. Tiene 21 caminos y sus colores son el rojo y el negro.

Elegguá é o guardião de todos os caminhos: do monte e da selva[i]. É o primeiro dos quatro Osha Guerreiros, junto a Ogun, Ochoci y Osun. Elegguá tem 21 caminhos. O vermelho e o preto são as cores de Elegguá.

Es válido aclarar que elegua es conocido como «el de los 201 y los 401» pues se mueve entre los ángeles que están a la derecha (los 401) y los que están a la izquierda (los 201). Tiene el poder sobre ambos lados, controla los reinos del mal y del bien, él crea el balance entre las dos fuerzas, a la vez que tiene dominio sobre ellas.

É válido explicar que Elegguá é conhecido como o dos 201 e dos 401, já que se movimenta entre os intermediários que estão à direita (os 401), e também entre os que estão à esquerda (los 201). Elegguá tem o poder sobre ambos os lados, controla os reinos do mal e do bem. Ele cria o equilíbrio entre as duas forças, uma vez que tem domínio sobre elas.

Muy notable es la coincidencia con los distintos panteones de la cultura global, en los cuales se observa frecuentemente la existencia de una deidad que siempre recibe las ofrendas primero que el resto de las deidades.

É notável a coincidência com os distintos panteões de outras culturas do globo terrestre, em que se observa frequentemente a existência de uma deidade que sempre recebe as oferendas antes das outras deidades.

Eleggua es una deidad muy dada a hacer trampas, y a la vez es quien comanda los ejércitos. Puede decirse que el favorito del Dios superior de su panteón.

Eleggua é uma deidade muito dada a fazer travessuras e, por sua vez, é quem comanda os exércitos. Pode-se dizer que Elegguá é o favorito de Olodumare.

Eleguá: Es un Osha. El primero de un grupo inseparable concneptualmente junto con Oggun, Ochosi y Osun (Orisha Oddé). Es la primera protección de un individuo que siempre está para salvarle, su guía.

Elegguá: é um Osha. O primeiro de um grupo conceitualmente inseparável, junto com Oggun, Ochosi e Osun (Orisha Oddé). É a primeira proteção de um indivíduo, que sempre está presente para lhe salvar, seu guia.

Este es el primero que debe entregársele a cualquier persona que lo indique la consulta. Representa la vista que sigue un sendero. En la naturaleza está simbolizado por las rocas. Es el mensajero de Olofin.

Elegguá é o primeiro que se deve entregar a qualquer pessoa que a consulta assim o indique. Representa a visão que segue um sendeiro. Na natureza, Elegguá é simbolizado pelas pedras. É o mensageiro de Olofin.

Vino a la tierra acompañando a todos los odun de ifa es un Orisha adivino. Es el que abre y cierra los caminos. Vive generalmente detrás de la puerta. Siempre hay que contar con él para hacer cual quier cosa.

Elegguá veio à terra acompanhando todos os odun de Ifá. É um Orisha adivinho. É ele que abre e fecha os caminhos. Vive geralmente detrás da porta. É sempre preciso contar com Ele para que qualquer coisa seja feita.


[i] Eleggua, sabana es selva? Dijo: XXOO.

hoje muda tudo

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É sempre difícil saber quanto tempo leva pra uma decisão do presidente, junto com o Congresso – com o Congresso, com o Supremo, com Tudo, chegar até nossa geladeira. Mas eu me lembro: fiz minha primeira campanha política para o PT em 2002, aos 15 anos (obrigada, Lucimar Barbosa PT-ES), e só em 2006 na minha casa começamos a comprar azeite doce, que colocávamos em comidas que poderiam ser armazenadas na nova geladeira recentemente adquirida com ajuda do incentivo fiscal do governo.

Autor desconocido por mi

Azeite doce era uma coisa que não tinha lá em casa até então. A novidade fez sucesso. Tudo era motivo pra comer azeite doce. Arroz com azeite doce. Feijão com azeite doce. Ovo frito no azeite doce? Que delícia!

Por causa do azeite doce, eu passei a acreditar, então, que levava um certo tempo pra que uma decisão do povo – junto com o Congresso, com o Supremo, contudo, chegasse até nossa geladeira. Mas descobri que me enganei. Não leva tanto tempo.

Hoje foi o dia que pesou. Sabe quando a gente sente que tá com uma bola de gude dentro do coração? Então. Foi hoje. Hoje foi o dia que eu vi o riozinho de sangue, escorrendo da ferida aberta pela facada que a Educação brasileira levou em abril de 2019.

Hoje foi o dia que o Instituto onde eu trabalho anunciou que desligarão, na marra, pra ninguém tentar ligar, todos os aparelhos de ar-condicionado do prédio.

Hoje foi o dia que o Instituto onde eu trabalho anunciou que não haverá bebedouros nos andares ímpares.

Hoje foi o dia que descobri aquilo que jogou a gude com força no meu coração: 400 alunxs perderão o auxílio-alimentação arbitrariamente. Não precisava nem ser comida com azeite doce, mas 400 pessoas não terão o que comer a partir da próxima segunda-feira, caso não justifiquem uma série de arbitrariedades.

Hoje descobri, porque fui reservar o auditório da Universidade onde eu trabalho, que não poderei oferecer curso de extensão aos sábados, já que não se pode mais fazer curso de extensão aos sábados – somente de segunda a sexta, de 8h às 18h. Que massa! Se você é trabalhadorx e quer fazer curso gratuito na Federal, coma biscoito e volte duas casas.

Hoje foi o dia que descobri que a decisão do presidente, e a mudança na nossa geladeira, acontecem no mesmo dia: hoje. Hoje muda tudo.

Hoje muda quando eu descubro o riozinho de sangue. Hoje também muda quando eu experimento o azeite doce.

Não deixe para amanhã a mudança que precisamos fazer hoje. Do sangue no olho que está nos faltando, estanquemos a ferida aberta na sociedade brasileira, costurando a universidade necessária – pública, gratuita e para todxs.

Há muita pela frente.

Lute você também!

https://youtu.be/mnNwoA0Dhjk A nosotrxs, la dignidad rebelde

¿ Quienes somos ?

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Tradução de: http://www.es.santeria.fr/quienes-somos/ ¿ Quem somos nós? Antes de tudo, precisamos constantemente desligar a imagem de sorcellerie (feitiçaria, bruxaria) que frequentemente é atrelada aos cultos amefrikanos . Cultos que aproximam as forças positivas e negativas, mas que não se colocam … Sigue leyendo